sábado, 10 de dezembro de 2011

O dia em que a história morreu



Autor: Elza Fraga



Se lhe perguntassem o ofício não tinha dúvidas, contava histórias e ponto. E por encomenda.

Queriam histórias de bichos, de fadas, de bruxas malvadas, de saci pulando na floresta, de estrelas fazendo tiaras de luz e enfeitando cabelos de princesas, de principes beijadores, de sapos encantados? Era só pedir!

Queriam modernismo, carros, homens cheirando a lavanda, mulheres abusadas que fugiam de casa pra ganhar seu sustento vendendo o que tinham, bandidos que roubavam corações de meninas donzelas ou nem tanto, pancadaria, sangue? Também era só pedir.

Estava nesta vida desde que se conhecia por gente. Começou, lá quando era um palmo de gente, inventando lendas para escapar dos cascudos e beliscões de Cotinha, que afiados assim pra doer danado nunca ninguém vira antes!

E se encorpou, se perdeu na vida com um mancebo bonito de olhos de lua que nem era daquelas bandas. Ele se foi. Seguiu no encalço como quem espreita onça nos riachos bebedouros. Achou, grudou, embarrigou, teve seus meninos, que não era boba de parir fêmea pra viver solta na vida.

Entre uma parida e outra sentava na soleira e esperava. Logo aparecia um, outro, mais outro, e ela calada, pitando e cismando, preparando na sua cabeça de enredos o repertório da tarde. E quando achava que a platéia já estava no exato tamanho do seu merecimento, despejava falação em cima do povo.

Puxava, lá dum tempo perdido, as histórias que escutara de Cotinha. Nunca iguais. A cada contada um detalhezinho novo, um tempero ardido, um molho acolá...

Depois entrava nas que, sua própria cabeça de nuvens, inventava.

E era aí que a sessão começava mesmo. Se transformava. Era a artista no palco maior e mais iluminado, sorria, gargalhava, fungava, chorava e interpretava cada personagem como se disso dependesse a sua reputação.

Num dia meio chuvoso, acordou lenta, olhou pra rede bem do seu lado esquerdo, vazia, sem função. Olhou as tralhas, conferiu o faltoso. Uma

caneca, uma muda de calça, um par de chinelos gasto, a viola e os olhos de lua. Contou as crias, essas ficaram todas espalhadas pelo quintal numa algazarra de quem não entende.

Ela entendeu. Fechou pra sempre a porta por onde entravam as histórias, trancou a mente, jogou a chave fora. Sentou na soleira, silenciosa, olhar estranho, perscrutando perdido lá pelas bandas do

fim do mundo.

O povo ainda insistiu por um bom tempo, ficava lá esperando, não sabia bem o que. Até que cansou de tentar entender porque raios a louca das histórias emudeceu assim, de uma hora pra outra, de vez,

e ficou só aquele olhar vago olhando sem ver!



Eu sou eu, e só,

o mais é a verdade

que o resto vira pó

mais tarde

(Elza Fraga)

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Um bom Natal



Na manhã do dia de Natal, o velho Gaspar abriu o jornal e começou a ler. Imaginem o que foi que ele viu na primeira página? Lá, no meio de todas as notícias importantes, estava o seguinte:
“Se você quiser ter um bom Natal, faça um bem para alguém.”
O Sr. Gaspar leu e tornou a ler aquilo. Riu-se muito, deu uma palmada na perna e disse: “Que boa idéia!”
Levantou-se e foi espiar no forno. “Veja só que beleza!”, exclamou ele ao ver dois perus assados. Tirou o maior dos dois, colocou-o numa cesta e cobriu-o com um guardanapo bem branquinho e engomado. Escreveu num cartão:
“Se você quiser ter um bom Natal, faça um bem para alguém.”
E colocou-o na cesta. Pegou o chapéu, vestiu o paletó, colocou a cesta no braço e saiu para a rua. Foi andando, andando, até que chegou a uma porta onde se via um enorme sapato pendurado. “Ó! Deve ser aqui mesmo que mora o sapateiro Antônio. Coitado dele, vive sentado o dia inteiro, consertando sapatos!” pensou Gaspar.
Devagarinho e sem barulho, pôs a cesta na porta, bateu palmas e rapidamente continuou o seu caminho, virando na esquina mais próxima, onde desapareceu antes que alguém pudesse vê-lo.
“Que surpresa magnífica! Que peru enorme!” disse o sapateiro lendo o cartão, onde estava escrito:
“Se você quiser ter um bom Natal, faça um bem para alguém.”
“Imagine só, eu ganhando um presente destes!”
Ficou por um momento coçando a cabeça. Então disse em voz alta: “Já sei o que vou fazer! Levarei o frango que comprei para o nosso jantar de Natal à pobre viúva Mendes.”
Guardou o peru, meteu na cesta o frango que havia custado seu último vintém, pois queria um jantar para os seus filhos no dia do Natal, cobriu-a e saiu, dirigindo-se à pequena casa branca da viúva. Colocou a cesta na escada, bateu na porta, e sumiu em seguida.
A viúva abriu a porta e arregalou os olhos de surpresa, enquanto lia no cartão:
"Se você quiser ter um bom Natal, faça um bem para alguém.”
Olhando para dentro da cesta, viu o frango assado. “Que belo frango! Quem teria tido a bondade de me dar este presente?” Sorrindo, guardou o frango no armário e disse: “Já sei o que vou fazer! Levarei também uma surpresa para a boa lavadeira.” Tirando da mesa um enorme pudim, bem assado e cheiroso, arrumou-o na mesma cesta e levou-o à casa da lavadeira.
Joana estava no quintal, estendendo roupas, e não viu a viúva entrar pela porta, colocar a cesta na mesa e ir-se embora. Quando voltou para dentro de casa, viu a cesta e, muito admirada, leu o cartão:
“Se você quiser ter um bom Natal, faça um bem para alguém.”
“Como é estupenda esta idéia! Vamos ver o que há dentro da cesta. Vejam só, é o rei dos pudins! Dá água na boca só de olhar! Ah, já sei o que eu também vou fazer. Assarei um bolo gostoso para os três filhos da D. Maria.”
E assim fez, bolo na cesta, cartão pregado no guardanapo, foi até à casa de D.Maria. Entrou sem bater, colocou o bolo ainda quente sobre a mesa, defronte das três crianças e disse:
“Se você quiser ter um bom Natal, faça um bem para alguém.”
“Que beleza, um bolo! Mas é para nós, de verdade? Hummm... como está cheiroso! Todo para nós? Muito obrigado” gritaram os três para a senhora que já ia saindo.
O mais velho dos irmãos sugeriu, então, aos menores: “Vamos cortar um pedaço bem grande e lavá-lo ao Joãozinho, o vizinho e grande amigo!”
“Vamos, vamos!” apoiaram os irmãos.
Como Joãozinho ficou alegre com o bolo quando as crianças lhe disseram:
“Se você quiser ter um bom Natal, faça um bem para alguém.”
“Muito agradecido pelo bolo gostoso e bom! Também vou passar um dia alegre e feliz! Vou guardar as migalhas para os passarinhos que costumam aparecer na minha janela.”
Quando ficou sozinho, Joãozinho pensou: “Eu também gostaria de fazer alguma coisa boa para alguém... JÁ SEI!”, exclamou em voz alta, olhando pela janela as flores do jardim. “Aquele velho, simpático, a quem entrego o jornal todos os dias, não tem quintal.”
Todo animado, pegou a tesoura e cortou com cuidado uma porção de flores coloridas. Ajeitou-as dentro da cesta, colocou o cartão e saiu todo garboso pela rua. Andou, andou, deu a volta no quarteirão. Colocando a cesta na varanda, tocou a campainha e virou a esquina, bem depressa.
Que surpresa que o Sr. Gaspar teve quando abriu a porta e encontrou sua própria cesta cheia de lindas flores e um cartão que dizia:

“Se você quiser ter um bom Natal, faça um bem para alguém.”

terça-feira, 8 de novembro de 2011

O Resgate dos Girinos



Clarice Villac



Num dia lindo, Sacisperto e Sacimeiga saem para passear.

No caminho para o ribeirão, encontram Saulo, o Sapo, muito triste.

Saulo explica por que:

– Pessoas da cidade grande fizeram piquenique às margens do rio, deixaram lixo jogado no chão, no rio, etc.

Sacisperto e Sacimeiga se espantam, e escutam atentamente, com olhos cada vez mais arregalados, o relato...

– Embalagens caíram no rio, sapinhos-girinos ficaram doentes com resíduos de produtos químicos... peixes adoeceram ao comerem alimentos estragados...

Saulo continuava, cada vez mais triste e agitado:

– Sapinhos-girinos ficaram presos em sacos plásticos que enroscaram nas plantas, galhos e raízes ! Copinhos plásticos entalaram tampando tocas de lazer debaixo d’água !...

Sacisperto e Sacimeiga ficam aflitos e preocupados.

Decidem ajudar a população de sapos.

Chamam a sacizada com assobios do Sacisperto, e quando todos chegam, explicam a situação. Todos se dispõe a ajudar, e vão logo dando sugestões e dividindo as tarefas.

Há várias gerações que os sacis vêm se aperfeiçoando na arte de confeccionar peneiras de taquara, que aprenderam observando os antigos caboclos e caiçaras.

Assim, fazem peneiras de taquara e algumas eles amarram em caules longos de bambu que encontram pelo chão.

Então vão peneirar o rio e catar os resíduos nas margens.

Todos ajudam, e depois de muito trabalho, conseguem resgatar todos os girinos e retirar o lixo que os estava prendendo e envenenando o ribeirão.

Reunidos ali nas margens do riozinho, vendo os sapos contentes coaxando e brincando com seus girinos no rio limpinho novamente, os sacis conversam sobre o acontecido, e Sacimeiga fala:

– Bem, está tudo em ordem agora, mas, e se vierem outras pessoas (ou as mesmas) e repetirem a sujeira, sem nem imaginar todo o transtorno que causaram, e o trabalhão que deu pra limpar tudo, recuperar os bichinhos...

– Ah, e se nós deixássemos avisos explicando, mostrando e pedindo a colaboração ?

– Podemos escrever mensagens juntando essas pedras que estão por aqui e pelo caminho ! – sugere um sacizinho que gostava muito de ler histórias.

– Boa ideia, adoramos brincar de formar palavras ! – concordam saltitantes os outros sacizinhos, que já começam a juntar as pedrinhas e arrumá-las em forma de avisos.

– Vamos conversar com as crianças nossas amigas, assim elas podem explicar para seus pais e amigos, todos vão entender a necessidade de recolherem e levar embora o lixo, as embalagens, os restos dos alimentos e tudo que costumam trazer aqui pro mato, pra perto do rio ! – diz Sacisperto, entusiasmado.

Sem esperar mais nada, Sacisperto e Sacimeiga vão indo pelo caminho que leva ao povoado e conversando sobre isso, lá longe as crianças estão brincando de bolinha de gude, e acenam para eles.



* Clarice Villac - texto

... 16/19.03.2011 e 30.10.2011.

* Vlad Camargo - ilustração

... outubro 2011



sexta-feira, 21 de outubro de 2011

A MOÇA QUE DESCOMIA MENTIRAS



Autor: Elza Fraga



Ela foi uma criança criativa, uma adolescente perigosa.

Virou uma adulta mentirosa.

Tinha duas escolhas na vida:

Escrever livros, contando as histórias que inventava da vida

de amigos, parentes, vizinhos e afins, e fazer uso das suas

mentiras próprias; ou virar atriz e viver as mentiras alheias,

sem ter que sair machucando Deus e o mundo e mais um pedaço,

melhor de tudo, sem sentir culpa no cartório.

Talento pouco na arte de escrevedora e de intérprete, e muito pra invencionices oralmente fantasiosas, nem escreveu o livro, nem virou atriz.

Virou foi uma bulímica da melhor qualidade.

Vomitava as mentiras mal digeridas como quem vomita a

folha de alface do almoço.

Ficou anoréxica a bichinha...

Não lhe parava mais nem uma mentirinha, das pequenas sequer, no estômago!

E definhava a olhos vistos sem que se pudesse fazer nadica por ela.

Todos se surpreendiam com a rapidez que criava mentiras novas pra colocar no lugar das vomitadas...

Era a ânsia de prender a vida, que lhe escapava pelas paredes da garganta, nos dedos.

Moribundou jovem, coitada!

Mas continuou a andar por aí, a se encher de ar e de invencionices, sofregamente.

O corpo ainda se locomovia, feio, curvado ao peso das mentiras, olhos fundos na face cadavérica...

Mais se arrastava do que caminhava, mas ia em frente.

Até que num dia chuvoso uma mentira, das grandes, se lhe entalou na garganta, não conseguia descer goela abaixo nem por decreto...

Ficou roxa , perdeu o ar, esverdeou-se, se foi de vez!

Até hoje perguntam de que partiu a tal moça, nessa mania que o povo tem de achar que todo cadáver tem que ter causa mortis.

Respondo que morreu de mentira grande demais pra ser engolida.


Sabe que ninguém me acredita?!



quinta-feira, 20 de outubro de 2011

A Princesa do Sapo


A princesa do sapo




Era uma vez uma princesa

(Bem bonitinha)

Sentada à beira do poço

(Bem fundo e escuro)

Brincando com sua bola

(Bem redondinha)

Que quando quica, quica, quica, e ... PLOFT!



A princesa deu um pulo

(Bem desesperada)

E meteu a cabeça no poço

(Bem fundo e escuro)

“Cadê a minha bola?”

(Bem redondinha)

E ela sentou no chão e abriu um berreiro!



Mas pulou um sapo

(Bem geladinho)

De dentro do poço

(Bem fundo e escuro)

“Vou pegar sua bola

(Bem rapidinho)

Prometa que vai me retribuir com um beijo!”



“Por favor” , disse ela

(Bem sorridente)

“Mergulhe no poço

(Bem fundo e escuro)

E pegue minha bola

(Bem redondinha)

Quando você a trouxer eu lhe dou um beijo.”



E o sapo saltou

(Bem saltitante)

Para dentro do poço

(Bem fundo e escuro)

Depois trouxe a bola

(Bem molhadinha)

“Está na hora de você me dar aquele beijo...”



“ARGH!” , disse ela

(Bem enjoada)

“Deus me livre, beijar um sapo gelado!”

Ela pegou sua bola

(Bem convencida)

E saiu correndo, correndo na maior disparada.





O sapo saiu quicando

(Igualzinho a bola)

Da beira do poço

(Bem fundo e escuro)

Seguindo a princesa

(Bem bonitinha)

Até chegar ao palácio real.



TOC! TOC! CROC! Bateu na porta e coaxou.

“Quem está aí?”, perguntou o rei à princesa.

“È só um sapo”, resmungou ela.

“Ah, um sapo!”, disse o rei.

“Mande-o entrar!”



E o sapo entrou

(Bem saltitante)

Curvou-se para o rei

(“Oh, Majestade”)

E para a princesa

(Bem educado)

“Você prometeu me retribuir com um beijo...”



A princesa bateu o pé: “NÂO!”

(Bem irritada)

“Volte para o seu poço”

(Bem fundo e escuro)

“ESPEREM!” , gritou o rei

(Bem majestoso)

“AFINAL, O QUE ESTÁ SE PASSANDO AQUI?”



A princesa suspirou. Momentos de tensão...

“Promessa é promessa”, lamentou.

De cara feia, pegou o sapo e sapecou-lhe

Um beijo no nariz (que estava bem gelado).



Mas... QUEM DIRIA?

(Cadê o sapo?)

Surgiu um príncipe

(Bem bonitão)

Que se ajoelhou

(Bem sorridente)

“Oh, princesa, prometa para mim sua mão!”



História recontada por Vivian French
Enviada por Neusa Cia (Americana)




sábado, 15 de outubro de 2011

ERA UMA VEZ... UM PASSARINHO





ERA UMA VEZ...

ERA UMA VEZ, NÃO!

ESSA HISTÓRIA

NÃO TEMPRINCESA NEM ANÃO

NÃO TEM MADRASTA,

NÃO TEM CASTELO NEM DRAGÃO

ESSA HISTÓRIA...

É DE UM PASSARINHO

QUE GOSTAVA DE CANÇÃO.

E QUE VIVIA EM UM JARDIM

FLORIDO E PERFUMADO DE UM CASARÃO.



O PASSARINHO VIVIA A CANTAR

DESPERTAVA BEM CEDINHO

E LOGO IA SE BANHAR,

NO LAGUINHO QUE FICAVA

LÁ PERTO DO POMAR.

APÓS SE REFRESCAR

VOAVA PARA A GOIABEIRA

E UMA DELICIOSA GOIABA

COMEÇAVA A BICAR.



DE PAPINHO CHEIO

VOAVA LÁ PARA O MEIO,

MEIO DE ONDE?

SÓ PODE SER DO JARDIM.

LÁ CRESCIA

UM LINDO PÉ DE JASMIM,

QUE O PASSARINHO PENSAVA:

“DEUS FEZ PRA MIM”.



COMEÇAVA ENTÃO

A CANTORIA...ENCHIA O PULMÃO,

NÃO SÓ DE AR

MAS TAMBÉM DE MUITA ALEGRIA.

EM SEU PEITO

HABITAVA UM DESEJO

DE VER O MUNDO

MAIS BONITO E PERFEITO.

SABIA QUE ERA DIFÍCIL

MAS, COM SUA AJUDA

NÃO SERIA ASSIM TÃO IMPOSSÍVEL.



CANTAVA O DIA INTEIRO

COMO ELE ERA MATREIRO!

ALÉM DE CANTAR

O DIA INTEIRO

VOAVA DE FLOR EM FLOR,

PENSAVA: “AMO O JASMIM”

MAS TINHA TANTO AMOR!

QUE VOAVA A REPARTIR

ESSE IMENSO AMOR

COM CADA FLOR DE TODO O JARDIM





CERTO DIA, O PASSARINHO

ESTAVA EM UMA ÁRVORE,

NO GALHO MAIS ALTO

A CANTAR UMA BELA CANÇÃO.

DE REPENTE...VEIO UM VENTO FORTE

COMO UM FURACÃO,

O PASSARINHO ASSUSTADO

PAROU SUA CANÇÃO.



TUDO COMEÇOU A VOAR,

AS FLORES A DESPETALAR,

AS ÁRVORES A BALANÇAR,

E SUAS FOLHAS A DANÇAR

COM O VENTO,

E TUDO COMEÇOU A MUDAR.



O PASSARINHO QUERIA AJUDAR

MAS ELE SÓ SABIA CANTAR.ENTÃO PENSOU:

“PRECISO COLABORAR”

PARA ESTE VENTO RECUAR.



MESMO COM O GALHO

A BALANÇAR,

O PASSARINHO SE PÔS A CANTAR.

UM CANTO DIFERENTE,

UM CANTO QUE ENCANTA A ALMA DA GENTE.

O VENTO FOI SE ACALMANDO...

ACALMANDO... ACALMANDO...



O CANTO DO PASSARINHO

FEZ O VENTO

RECUAR.

E DE UM VENTO FORTE

COMO UM FURACÃO;

TRANSFORMOU-SE

NUMA BRISA

QUE MANSIDÃO!



E O PASSARINHO

FICOU FELIZ

SABENDO QUE TUDO

VOLTARIA AO NORMAL,

E O JARDIM NOVAMENTE

SERIA SENSACIONAL.



ELE CONTINUOUA CANTAR...

CANTAR...

E A TODOS ENCANTAR,

E VIVEU FELIZ PARA SEMPRE.

FELIZ PARA SEMPRE?

QUE É ISSO?



ESSA HISTÓRIA,

NÃO TINHA PRINCESA NEM ANÃO,

NÃO TINHA MADRASTA,

NÃO TINHA CASTELO NEM DRAGÃO.

SÓ TINHA UM PASSARINHO,

QUE GOSTAVA DE CANÇÃO

E COM UM ENORME CORAÇÃO.

ENTÃO...

VIVEU FELIZ ATÉ SEU CANTO

CESSAR...



AUTORA: TEREZINHA GUIMARÃES - www.poetizarpoetizar.blogspot.com

História enviada por Terezinha das Graças Mendes Guimarães

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Frei João Sem Cuidados



Frei João era um frade muito caridoso e simples e que não se envolvia com os negócios dos outros nem se preocupava com assuntos alheios à sua pessoa. Como dava muitas esmolas era estimado por toda gente que o chamava Frei João sem Cuidados.

Ora uma vez o Rei passou pela terra em que morava Frei João e sabendo da tranqüilidade em que vivia o frade mandou um criado dizer a ele que no outro dia viesse procurá-lo para responder a três perguntas:

- Onde é o meio do mundo?

- Quanto pesa a lua?

- Em que pensa o rei?

O frade ficou desesperado sem atinar com a explicação e passou a noite estudando e chorando. Pela manhã um pastor que trabalhava para ele veio vê-lo e sabendo do caso ofereceu-se para substituí-lo junto ao rei. frei João aceitou e o pastor, vestido de frade, foi onde estava o rei nas horas combinadas. O rei, cercado de seus amigos perguntou:

- Onde é o meio do mundo?

- O meio do mundo fica onde está meu rei senhor.

- Por quê?

- O mundo sendo redondo qualquer lugar é o meio!

- Bem respondido. Quanto pesa a lua?

- Pesa uma libra porque se divide em quatro quartos!

- Respondeu bem. Em que estou pensando?

- Rei meu senhor está pensando que eu sou frei João sem Cuidados e sou apenas o seu pastor!

O rei achou muita graça no desembaraço do pastor, recompensou-o e deixou Frei João sem Cuidados em paz.


(CASCUDO, Luís da Câmara. Contos tradicionais do Brasil)



sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Estrelinha que Reluz




Bia Bedran



Estrelinha que reluz

A primeira que hoje vejo

Com teu brilho e tua luz

Realize o meu desejo



E depois do seu pedido

Não descanse pra esperar

Para que ele se realize

Você tem que trabalhar



Mas agora, a noite escura

É um manto a lhe cobrir

Se aconchegue bem pertinho,

Para eu fazer você dormir



domingo, 28 de agosto de 2011

Lobisomem





— Por um feliz acaso — continuou Niceros —, meu amo tinha ido a Cápua vender alguns ouropéis. Aproveitando-me dessa ocasião, persuadi nosso hospedeiro a me acompanhar até uma distância de cinco milhas dali. Ele era um soldado, bravo como Plutão. Pusemo-nos a caminho ao primeiro cantar do galo (a lua brilhava, e via-se tudo claro como em pleno meio-dia).
A um bom pedaço do caminho, achamo-nos entre túmulos. E, de repente, eis que meu homem se põe a conjurar os astros. Eu me sentei, cantarolei um pouco, e pus-me a contar as estrelas. Depois, voltando-me para meu acompanhante, vi que ele se despojava de todas as suas vestes, deitando-as à beira da estrada. Morto de medo, permaneci imóvel, como um cadáver. Imaginai meu pavor, então, quando ele se pôs a urinar ao redor de suas roupas, e no mesmo instante se transformou num lobo. Não penseis que estou brincando; eu não mentiria nem por todo o ouro do mundo.
Mas onde era que eu estava? Ah, sim. Quando se transformou em lobo, ele começou a uivar e logo fugiu para a floresta. A princípio, eu não sabia nem onde me encontrava. Depois, aproximei-me de suas vestes, para levá-las: haviam-se transformado em pedras. Se algum dia um homem esteve para morrer de medo, esse homem fui eu.
Contudo, tive a coragem de desembainhar minha espada e fender o ar com toda a força, para afastar os maus espíritos ao longo do caminho, até a casa de minha amante. Assim que transpus a soleira da casa, por pouco não entreguei a alma: um suor frio me escorria pêlos membros, meus olhos estavam mortos, e foi preciso um esforço desesperado para me fazer voltar a mim. Minha adorada Melissa não escondeu seu espanto ao me ver chegar a uma hora tão avançada.
"Se houvesse chegado mais cedo", disse-me, "poderias ter-nos prestado uma grande ajuda. Um lobo penetrou no cercado e matou todos os nossos porcos: foi uma verdadeira carni¬ficina. Entretanto, embora houvesse escapado, não teve tempo de comemorar seu feito, porque um de nossos criados lhe atravessou a lança na goela." Ouvindo isso, deixo a vós julgar se abri desmesuradamente os olhos. E, como o dia já vinha surgindo, corri depressa para nossa casa, como um mercador perseguido por ladrões.
Ao chegar ao local onde havia deixado as vestes transformadas em pedra, vi apenas sangue. Entrando em casa, encontrei meu soldado estendido no leito: sangrava como um boi, e um médico lhe passava ataduras em torno do pescoço. Reconheci, então, que ele era um lobisomem, e, a partir daquele dia, preferi morrer de pancadas a comer um pedaço de pão com ele.
Agora, deixo a quem não acreditar em mim a liberdade de pensar o que queira. Mas, se minto, que os génios que velam por vós me esmaguem com sua cólera!



Satiricon, Petrônio, Ed. Abril

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

O Segredo do Boto

Márcio José Rodrigues – Laguna, SC

 
Uma canoa desgarrada descia a maré vazante em direção ao mar.

Sem um remador que a conduzisse, deslizava suave ao sabor da correnteza.

Levava bem acomodada no fundo, uma criança recém nascida, cuidadosamente enrolada em panos de algodão e pelúcia. O ruído das ondas agitadas pelo vento norte não deixariam que alguém pudesse ouvir o choro desesperado.

Não muito longe, no casebre do pescador Foguinho, a lamparina de querosene ainda não apagara a chama, mal iluminando a pequena peça da cozinha e projetando sombras contra as paredes toscas de tábuas. A corrente de ar filtrada pelas frestas fazia a chama dançar, mudando a tonalidade das imagens mal definidas dos rostos de um casal silencioso e taciturno, que teimava em permanecer fora da cama a horas tardias.

O silêncio desses dos dois personagens escondia um segredo terrível.

Na noite anterior a cena nesse mesmo local, tinha sido muito diferente e conturbada.

A mulher acabara de dar à luz, um menino.

O recém-nascido tinha cabelos negros como o alcatrão, os grandes olhos escuros, a pele morena.

Tudo estaria perfeito, não fossem certos detalhes.

Ora, o apelido que o homem carregava no lugar do nome de batismo, havia recebido pela cor de seus cabelos de fogo, a pele avermelhada salpicada de sardas. A mulher possuía os cabelos ainda mais ruivos. Os filhos, dois pirralhos espertos, tinham bem saído aos pais, com os mesmos cabelos de ferrugem, as mesmas sardas e os olhos mais azuis que o céu do mês de maio.

Não tivesse o próprio pai assistido o parto, cortado ele mesmo o cordão do umbigo a bem medidos cinco dedos de espaço e o amarrado com linha de pesca, diria que o menino teria sido trocado, como coisa de um sortilégio ou feitiço.

– Este menino não parece meu filho!… balbuciou sem jeito.

A mãe nada contestou. Instintivamente, num gesto tão inesperado quanto estranho, estreitou a criança contra o peito, encolhendo-se sobre ela, como a protegê-la de uma já prevista agressão.

O homem implorou por uma explicação.

A mulher encolheu-se ainda mais.

O silêncio constrangedor só fez envenená-lo em suas dúvidas.

A cabeça latejava. O coração ferido ante a expectativa de uma traição, batia desencontrado. Sentimentos de raiva cambiavam com os de tristeza e decepção, enquanto ondas de ciúme e decepção alimentavam uma angústia opressora.

Da mulher não arrancou nenhuma confissão , mesmo diante da faca ainda suja com o sangue do trabalho de parto. A mente do pescador triturava os pensamentos, torturando-o com suspeitas que nenhum homem poderia suportar. Depois ainda viria a humilhação perante os vizinhos e companheiros, o riso disfarçado e a pilhéria no balcão da venda.

Ante o desvairio do homem e uma sombria ameaça contra as crianças, a mulher cedeu.

Mesmo inconsolável, aceitou levar a cabo um plano macabro.

No dia seguinte, entre rezas e lamúrias das velhas carpideiras, uma caixinha com areia foi conduzida ao cemitério da aldeia, simulando o enterro de um natimorto, as crianças levando raminhos de flores do campo.

Passaram-se estações, sucederam-se as temporadas e a faina sem fim das lidas da pesca, mas as noites do casal seriam sempre povoadas de pesadelos.

O remorso é uma dor que só se cura quando a pessoa perdoa a si mesma.

Nos piores momentos, muitas lágrimas para a mulher.

Para o homem, a cachaça.

Alguns anos depois, quando os meninos já eram quase homens feitos, apareceu no pesqueiro, um jovem moreno e forte.

Não possuía canoa nem pertences e ninguém se lembrava já tê-lo visto em um lugar qualquer.

Pescava com habilidade notável e onde andava por aquela barra de rio, sempre havia um grupo de botos por perto. Coisas estranhas que rondavam o jovem pescador levavam a crer que os botos o conheciam e que parecia dirigir-se a eles por meio de sons ininteligíveis.

Por onde pescava sempre havia botos - e tainhas em abundância.

Solitário, só não se esquivava da aproximação dos filhos de Foguinho, que sempre saíam de balaio cheio, enquanto as tarrafas dos outros voltavam vazias.

Ninguém sabia onde dormia ou onde morava. Desaparecia com o anoitecer e se antecipava a todos ao nascer do sol.

A única casa de que se permitia aproximar era a desse pescador.

A mulher costumava observá-lo sem o entender, mas com um sentimento de inexplicáveis ternura e compaixão. Ela já havia percebido em seus olhos, um triste ar de abandono e súplica quando a envolviam com inocência e lhe faziam aflorar sentimentos de mal disfarçada ternura.

Não foi uma vez só, que a quase certeza materna, parecia dizer-lhe que conhecia aquele moço.

Lá fora povo dizia:

– Ele é filho do boto!

E daí, a figura foi se envolvendo cada vez mais em brumas de mistério, até que virasse uma espécie de lenda viva, enriquecida aqui e ali com recortes de imaginação nas rodas de cachaça.

As moças do local espalhavam histórias de um olhar poderoso e irresistível que as deixava enfeitiçadas. Não tardaram a identificá-lo como um mau espírito ou demônio desses povoados açorianos, e logo passou a representar o perigo, o mal personificado saído das artimanhas de alguma bruxa.

E assim, foi:

Um grupo de homens, na calada de uma noite escura, atacou-o de surpresa.

Os demais moradores da aldeia estranharam o súbito desaparecimento, mas acabaram aceitando que ele tivesse ido embora tão misteriosamente quanto havia aparecido um dia.

Só a mulher de Foguinho saía a procurá-lo, mas em suas buscas só encontrou dor de saudade, um sentimento amargo de culpa, que não passaria nunca.

Aquele macabro segredo morreu com aquela gente,

O tempo leva todas as coisas.

Todos eles se foram também.

Só os botos ficaram.

Desde aqueles tempos, nunca mais abandonaram esses lugares e ainda hoje cercam as tainhas para os pescadores de tarrafa do pontal da barra.



terça-feira, 23 de agosto de 2011

Às margens do igarapé




Foi numa noite de festa

que seus olhos se cruzaram

quando a Lua ia alta

a dançar se aproximaram

Ele, alegre e bem gentil

Ela, riso juvenil

e logo se apaixonaram



Brincaram a noite inteira,

ela de saia florida,

ele com seu chapéu branco

Com ternura desmedida,

abraços e cafuné

perto do igarapé

até esquecer da vida...



Antes do amanhecer

revela-se o ignoto

segredo particular:

pula nas águas o boto

Mas sempre retornará

e de novo a amará –

ficou o amor em broto.

 


Clarice Villac

22.08.2007





domingo, 21 de agosto de 2011

Tangolomango


Eram oito formiguinhas
morando num tagete
Deu tangolomango numa
e das oito ficaram sete.


Das sete que restaram
Uma se afogou no orvalho
Outra partiu com um bem-te-vi e
 ficaram cinco que eu vi.

Dessas cinco que restaram
Uma tropeçou num pato
e das cinco ficaram quatro.

Das quatro que ficaram
Uma foi imitar o cabrito montês
Quebrou o pescoço, meu bem,
e das quatro ficaram três.

Destas três que restaram
Uma foi passear na lua
Deu o tangolomango nela
e eis que ficaram duas.


Destas duas que ficaram
Uma resvalou na espuma
e restou apenas uma.

Esta uma que ficou f
oi jogar paciência
Deu tangolomango nela
e acabou-se a descendência.



sábado, 20 de agosto de 2011

A lenda do Mau Agouro




O POVO ACREDITA que se uma pessoa falando constantemente uma palavra infeliz, atrai as energias negativas. As palavras ditas geralmente são: desgraça, maldito, inferno e outras mais.

No Bairro de São Francisco, existia um homem chamado Zé Bastos que constantemente praguejava. Era um pescador muito corajoso que não tinha medo de nada. Toda madrugada era chamado pelo seu amigo Constantino para pescar.

Constantino todo dia chamava os pescadores, de casa em casa, para saírem para o mar. Certa noite de lua cheia, indo chamar Zé Bastos, que era mestre de rede, apareceu a sua frente um homem estranho. Por mais que Constantino andasse para alcançar o homem todo vestido de preto, a mesma distância continuava entre os dois. Estranho!

Saindo da rua principal, dobrando a esquina, o homem de preto ia na mesma direção de Constantino... estavam na rua do Fogo, perto da casa do Zé Bastos.

Quando Constantino chegou na frente da casa do amigo, a figura humana desapareceu. Melhor assim.

Zé Bastos gostava de ser chamado delicadamente, assim não perdia o bom humor. Sabendo idsso, Constantino olhou por um buraco na parede de barro, para chamá-lo, em voz baixa.

Meu Deus! O que é isso?

No quarto do Zé Bastos, estava o homem de negro com os dedos nos orifícios de seu nariz: parecia estar sufocando-o. Assustado, Constantino chamou o amigo aos gritos. Zé Bastos deu um pulo da cama, preparado para briga, meio acordado, não entendendo nada. O homem de negro sumira.

CONTAM QUE o homem de negro nada mais era do que a "desgraça" que tinha vindo buscar Zé Bastos, pois vivia chamando-a para levá-lo para o outro mundo. Nesta noite, veio buscá-lo para a morte, mas ele foi salvo pelo amigo Constantino.

Zé Bastos nunca mais praguejou.



VIVIANE, Patrícia (org.). Mitos e lendas de São Sebastião. il. Marcelo Brossler Toledo. 3.ed. São Sebastião SP : Secretaria de Cultura e Turismo, 1996. p. 13.


Colaboração: Rosângela Pereira, coordenadora da Escola Municipal Guiomar Aparecida da Conceição Souza, em Boiçucanga, litoral norte de São Paulo.



A Noite do lobisomem


Festa no arraial. Osvaldo, vaqueiro metido a valente, animado, e assim falou com a mulher:

_Maria, aprepara as coisa que precisa, a modi nós ir na quermesse.

_Ce tá doido home! Fora do juízo? Noite de lua cheia! Cê sabe dos boato. Sturdia memo foi os leitão do cumpadi Toizinho...

_Bobage, Maria! Vai falá que ocê aquerdita nessa história de lobisome?

_Querdito sim, home. O povo aumenta, mas num inventa!

_Mais!... lobisome comigo, se é que existe, eu pego ele pras oreia e chuto a bunda dele!

_Credo in cruz, co'essas coisa num se brinca Osvardo!

— Muié, o bão de noite de lua-cheia é que os caminho tá claro, dá pra ir, divirti e dispois vortá tronqüilo.

E tanto insistiu o Osvaldo, que Maria acabou cedendo. Criança no colo, coração apertado, pé na estrada... lá se foi ela junto do marido.

E na festa, vixe! esse Osvaldo divertiu. Dançou catira, cantou moda-de-viola e comeu! Ah! Osvaldo se empanturrou: quentão, cocada, quebra-queixo, canjicada, tudo que tinha direito o Osvaldo experimentou, usou, abusou, deitou e rolou...

Maria, menino nos braços, já cansada:

_Osvardo, óia a hora, home! Ocê sabe dos boato, vamo antes das hora morta,

_Osvardo!

E o Osvaldo ligou? Nem aí! Bebeu, cantou, dançou e comeu que nem um padre.

Já era mais de onze da noite, quando o Osvaldo resolveu ir embora com a pobre da Maria. E ela, coitada! Era purinho medo! Medo de Lobisome. Criança no colo, mão no terço, coração e passo apertados. O Osvaldo, ainda animado, foi junto, cantando estrada afora.

Num determinado ponto do caminho, ele parou. Maria, aflita:

— Num pára, não home de Deus! Óia as hora morta, Osvardo!

Mas, o Osvaldo, clamando dor de barriga, falou pra Maria que esperasse um pouco, que ele ia no mato. E foi...

Maria ali ficou, criança no colo, terço na mão, tremendo que nem corda de violão velho. E o Osvaldo, no mato... demora e demora... Maria, cada vez mais tremendo de medo.

De repente, um barulho no mato. Seu corpo todo se arrepiou.

_Osvardo!

De novo, o barulho e um bufado:

_Osvardo?

Mais uma vez, o barulho, o bufado. E, agora, um uivo.

— Osvardo!!

E, então, aquela coisa medonha veio pra cima de Maria:

_Osvardo, o lobisome! Osvardoooooooooo!

E Maria, criança no colo, terço na mão, coração disparado, atravessou o outro lado da estrada e correu pasto afora. Na nuca o bafo da fera! Maria corria... corria... No caminho, um barranco! Maria subiu o barranco... E o bicho, atrás, roncando. Maria saltou o ribeirão, o bicho, atrás, babando. E Maria gritava:

_Osvardo! O Lobisome, Osvardo!

Maria vazou por uma cerca de arame farpado, a fera, atrás cercando. Por fim, Maria, criança no colo, terço na mão, subiu num coqueiro. O lobisome, atrás, bufando, babando e pulando. E mais uma vez, Maria gritou:

_Osvardo!

E ele? Nada!

Enquanto isso, debaixo do coqueiro, o lobisome tentava subir. Tentou uma... duas... três... Não conseguiu! Então, foi até a uma pedra que tinha por perto e começou a amolar suas garras. E bufando, tentou de novo. Maria, lá de cima, viu que aquela coisa danada conseguia, agora, chegar até a metade do tronco do coqueiro. Então, o lobisome deslizou e caiu lá embaixo. Novamente amolou suas garras na pedra. Pulou, bufando e roncando! Dessa vez, conseguiu chegar mais perto da pobre mulher. Deslizou de novo até chegar ao chão. E, outra vez, foi até a pedra. Amolou suas garras. E, de novo, tomou impulso... Agora, pulou, bufando roncando e babando, Maria sentiu aquele bafo e o bicho bem perto. Maria viu a enorme boca, buscando a criança. E a fera mordeu, Maria gritou, não pelo Osvaldo, mas pelo Divino Pai Eterno. E o lobisome caiu, levando na boca um pedaço da manta que envolvia o bebê. Maria, criança chorando no colo, terço na mão, coração quase pulando fora do peito, rezava, rezava... Em baixo, o lobisome: bufando, roncando, babando e esperando que Maria cansasse e descesse. Mas Maria ficou firme.

Madrugada se foi... O Lobisome já tinha ido embora. Ela sabia: Lobisome não tolera a luz do dia... Então, desceu do coqueiro. No seu colo, o menino dormia tranqüilo. A pobre mulher tomou o rumo de casa. Lá chegando, encontrou o Osvaldo, na cama, dormindo. Roncava que nem um porco. "Na hora do Lobisome, ocê mostrou que é memo um cagão" — pensava ela. E chegando mais perto, de repente, gritou:

_Osvardo!

Ele roncava de boca aberta e Maria acabava de perceber que, por entre seus dentes, estava preso um fiapo de coberta, a coberta que enrolava seu bebê na hora em que o lobisome atacou...

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Boi Bumbá


 Letra e Música de Waldemar Henrique
 do ciclo de Canções Amazônicas



Ele não sabe que seu dia é hoje

Ele não sabe que seu dia é hoje

Ele não sabe que seu dia é hoje

Ele não sabe que seu dia é hoje



O céu forrado de veludo azul-marinho

Venho ver devagarinho

Onde o boi ia dançar

Ele pediu pra não fazer muito ruído

Que o santinho distraído

Foi dormir sem celebrar



E vem de longe o eco surdo do bumbá sambando

A noite inteira encurralado batucando

Bumba meu boi do campo

Bumba me boi bumbá



La liá liá liá

E sabiá da mata cantador

La liá liá liá liá liá

E o sabiá da mata sofredor

Irerê meu passarinho no sertão do Cariri

Irerê meu companheiro

Cadê viola?

Cadê meu bem?

Cadê Maria?



A Estrela Dalva lá no céu já vem surgindo

Acordou quem tá dormindo

Para ouvir galo cantar

Na minha rua resta cinza da fogueira

Que passou a noite inteira

Fagulhando para o ar



E vem de longe o eco surdo do bumbá sambando

A noite inteira encurralado batucando...

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Uma história de Saci





Todo o pessoal da floresta tem bronca do Saci. É que ele vive aprontando com os outros, como a gente sabe. É levado mesmo.

Um dia deu um nó no rabo da onça.

Outro dia passou batom vermelho na bocona do jacaré. E pra tirar foi um sufoco

danado! Só dava aquela bocarra vermelha, com tanto dente branco dentro.

Na mesma semana, o danado do Saci passou cola num galho de árvore e uma coruja ficou lá grudada! Parece que ele já acordava com uma idéia de aprontar na cabeça.

Mas, um belo dia, chegou a hora do troco. O Saci-Pererê recebeu uma carta. Era um convite para ser entrevistado no programa do Jô Soares, em São Paulo.

Ele ficou todo orgulhoso, claro!

Seria o representante do folclore brasileiro, falando para o País inteiro, via satélite. Então, ele pensou em colocar uma roupa bem bonita e também um

sapato chique, de verniz preto. Até comprou um gorro vermelho novo.

No grande dia, ele se vestiu, passou perfume... Mas aí chegou a hora de

colocar o sapato! Não tinha jeito. Todo mundo coloca o sapato ficando em pé na outra perna. Mas o Saci só tem uma perna, ora!

Daí, pediu ajuda para a onça. Ela, é claro, deu a maior gargalhada!

– Agora você vai ver que onça é pior que amigo da onça, seu bobão! – disse a

pintada.

Então o Saci foi pedir uma mãozinha para o jacaré.

– Quiá, quiá, quiá! – riu o bicho com seu bocão cheio de dentes. – Se depender

de mim, você vai descalço mesmo!

E o Saci tentou de novo:

– Ô dona Coruja, me ajuda a calçar este sapato, vai! É só unzinho.

A coruja pensou e respondeu que só ia ajudar se o Saci prometesse não aprontar mais com ninguém. Ele já estava ficando atrasado pra sair. Desse jeito ia atrasar mais ainda o programa que já é atrasado sempre!

_Olha aqui, dona Coruja, eu vou dizer uma coisa pra senhora. Se eu ficar bonzinho e comportado, ninguém vai me reconhecer. A senhora vai acabar

com o folclore, sabia?

E era verdade. Saci-Pererê é Saci-Pererê!

Então a coruja, muito sábia, ajudou e, de sapato e cheiroso, o Saci se mandou.

Mas a verdade é que, com a coruja, ele nunca mais aprontou

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Passando a perna no Saci




Conta-se que numa noite, há muito tempo atrás, em que outros homens se divertiam, depois do trabalho, um deles, chamado Felício, resolveu dar umas voltar e apreciar o luar. Sentou-se num grosso tronco de ipê, a beira do riacho e começou a admirar a lua cheia no céu. Foi quando ouviu uma vozinha:

- Moço, o que faz aí?.

Pensando que fosse um de seus amigos, virou-se para responder, quando deu com o Saci. Ele lhe sorria segurando um cachimbinho vazio.

Felício, ficou branco, depois verde, um arco-íris de cores, tamanho foi seu susto. Quis gritar, mas sua voz sumiu por encanto, ou medo mesmo. O Saci chegou mais perto e disse:

- "Não tenha medo, meu amigo. Só quero saber o que está fazendo tão longe de casa?

Felício explicou então que trabalhava com madeiras e foi contando sua história... No final o Saci deu uma grande risada e disse:

- "Madeira, não é mesmo? Pois é justamente o que eu estava procurando..."

- "Mas para que?" Pergunta Felício.

- "Olhe, pois vou lhe confessar uma coisa, as vezes tenho muita vontade de ser como as outras pessoas e ter duas pernas, entende?

- "Ah!". Respondeu, compreendendo a intenção do Saci. "Você quer que eu lhe faça uma perna de pau, não é mesmo?"

- "Pois é isso mesmo e te darei três dias para que esteja pronta, senão não darei sossego a você e seus companheiros!" Em seguida saiu pulando e sumiu no meio do mato.

Felício voltou ao seu barracão e contou aos companheiros o acontecido. Uns acreditaram ,outros acharam que tinha bebido demais.. Até que Felício acabou esquecendo o caso. No terceiro dia, conforme prometido, quando os homens estavam em pleno trabalho, eis que um menino de gorro vermelho surgi à porta do barracão. Quando deram com ele..vocês nem podem imaginar..uns empurravam os outros, caiam, levantavam-se e acabaram saindo todos pela abertura da janela. Apenas Felício ficou lá, estarrecido! Daí perguntou:

- "O que você quer?"

- "Ora, ora. Então não sabe? Vim buscar minha perna de pau, lembra-se? Não vá dizer que ainda não está pronta?"

Felício gaguejou, atrapalhou-se todo até que consegui dizer que ainda não estava pronta. O Saci xingou, esbravejou, mas acabou indo embora com a promessa que tudo estaria pronto dentro de mais três dias.

Felício saiu atrás dos homens. Gritou um tempão até conseguir reunir todos. Eles não queriam ficar mais no barracão. Não queriam nada com o Saci. Ajudar a fazer a perna dele? Nem sonhando! Mas acabaram concordando, pois era a única maneira de se livrar do diabinho.

Trabalharam com afinco. No dia marcado, o Saci voltou e ficou muito contente. Todos suspiraram aliviados. Mas pensam que a estória acaba assim? Que nada! Ele falou que desejava uma perna para cada Saci de sua família. Não esperou resposta, deu um assobio e logo o barracão ficou cheio de sacis. É claro que Felício ficou sozinho! Não vendo outra saída, ele concordou em fazer as pernas de pau, mas ia levar anos. Quis saber então quais os Sacis que iam ser atendidos primeiro. Aí sim o tumulto foi grande, ninguém queria ser o último.

Foi quando Felício teve uma idéia. Ele viu uma enorme arca que haviam trazido para deixar no rancho e mentalmente resolveu a situação.

Dirigiu-se ao Saci-chefe:

- "O melhor modo de resolver quais serão os primeiros é este..." Pegou um punhado de feijão e esparramou no fundo da arca. Depois disse que quem pegasse mais grãos seriam os primeiros. Todos os Sacis concordaram e mergulharam na arca. Mas Felício havia esquecido do Saci-chefe. Foi quando então tirou-lhe da mão a perna de pau e atirou-a dentro da arca. O Saci nem piscou e também se jogou dentro da arca. O Felício então fechou-a. Chamou os homens e levaram a arca o mais longe possível. Desde então nenhum Saci apareceu mais por aquelas bandas.

Foi assim que Felício passou a perna no saci pererê.

 

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

A colheita do saci


Joaquim Ribeiro

No tempo das colheitas, já meu pai dizia: Aparecem, às vezes, pés de café sem grãos. Não é praga da planta, não. As cerejas foram colhidas à mão. O pé só fica com as folhas.

Sabem que colheu? O saci.

O saci só colhe de noite. E faz o trabalho num átimo. Lá numa fazenda da Mantiqueira, o diabo do saci colheu, de um dia para outro, todas as cerejas de um cafezal, deixando o fazendeiro na mais negra miséria.

Sabem por quê?

Não deixaram um pé de café para o saci, na safra anterior.

Em toda colheita, não se deve esquecer de deixar um pé de café para o negrinho de um pé só e de carapuça vermelha.

Quem se esquecer, está arriscado a perder todo o seu cafezal.

 
Observação: Esta história se prende ao "ciclo do saci".

(Ribeiro, Joaquim. Os brasileiros. Rio de Janeiro, Palas; Brasília, Instituto Nacional do Livro, 1977, p.279)

sábado, 13 de agosto de 2011

A serra do rola-moça





Mário de Andrade

A Serra do Rola-Moça
Não tinha esse nome não...


Eles eram do outro lado,
Vieram na vila casar.
E atravessaram a serra,
O noivo com a noiva dele
Cada qual no seu cavalo.


Antes que chegasse a noite
Se lembraram de voltar.
Disseram adeus pra todos
E se puserem de novo
Pelos atalhos da serra
Cada qual no seu cavalo.


Os dois estavam felizes,
Na altura tudo era paz.
Pelos caminhos estreitos
Ele na frente, ela atrás.
E riam. Como eles riam!
Riam até sem razão.

A Serra do Rola-Moça
Não tinha esse nome não.


As tribos rubras da tarde
Rapidamente fugiam
E apressadas se escondiam
Lá embaixo nos socavões,
Temendo a noite que vinha.


Porém os dois continuavam
Cada qual no seu cavalo,
E riam. Como eles riam!
E os risos também casavam
Com as risadas dos cascalhos,
Que pulando levianinhos
Da vereda se soltavam,
Buscando o despenhadeiro.



Ali, Fortuna inviolável!
O casco pisara em falso.
Dão noiva e cavalo um salto
Precipitados no abismo.
Nem o baque se escutou.
Faz um silêncio de morte,
Na altura tudo era paz ...
Chicoteado o seu cavalo,
No vão do despenhadeiro
O noivo se despenhou.


E a Serra do Rola-Moça
Rola-Moça se chamou.

 

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

A Pulseira da Rainha



Essa história vem de muito longe. De uma aldeia lá pros lados da África. Lá havia o rei Quitamba, que vivia numa alegria danada. Todo dia ele dava festas na aldeia. Aquela alegria foi durando, durando, durando... Até o dia em que a sua mulher, a rainha, morreu. No dia em que isso aconteceu, o rei caiu numa tristeza danada. Foi uma tristeza tão grande que ele baixou um luto lá na aldeia. A partir daquele dia, ninguém poderia cantar, correr, moer farinha, casar, nada! Tinha que ficar todo mundo caladinho. O tempo foi passando e a aldeia naquele luto pesado; num silêncio total. Porém, um dia os homens da aldeia resolveram se reunir para conversar com o rei e tentar assuntar; inventar alguma coisa para acabar com a tristeza.

Foi quando o rei Quitamba falou:

- Eu só acabo com esse luto se vocês ressuscitarem a rainha!

Os homens abaixaram a cabeça pensando em como ressuscitar uma morta. Foi quando tiveram uma idéia. Perto da aldeia havia um feiticeiro. Eles mandaram presentes para o feiticeiro e o convidaram para vir até a aldeia. Mataram uma vaca, fizeram uma comida muito boa e deram para o convidado. Quando esse estava bem alegre, eles lhe contaram toda a história. Falaram que precisavam da ajuda do feiticeiro para ressuscitar a rainha.

O feiticeiro disse que ajudaria aqueles homens. Foi ao mato, colheu uma porção de ervas, entregou para cada um e disse:

- Vocês vão levar essa raiz, dar para o rei e falar que todos os dias ele terá que tomar banho com ela.

Após falar isso, o feiticeiro disse que acenderia uma fogueira e que no local do fogo, era para os homens cavarem uma cova. Assim foi feito. O feiticeiro chamou sua mulher e disse:

- Agora, eu vou entrar com meu filho nessa cova. Depois que eu entrar você tampa e vai regando com água todos os dias. Passou a mão no menino e foi entrando para dentro da cova. A mulher fechou o buraco. Eles andaram, andaram e chegaram numa aldeia. Era a aldeia de Calunga. Nisso eles viram a rainha, que estava sentada. Ela ficou assustada e perguntou:

De onde vocês vieram? O que estão fazendo aqui?

O feiticeiro, então, contou tudo o que se passara na aldeia.

A rainha, apontando para um lado disse:

-Você está vendo aquele ali? Ele é o Calunga. É ele que toma conta de nós aqui. Depois que se entra aqui ninguém mais sai!

Em seguida, a rainha apontou para o outro lado e disse:

- Agora você esta vendo aquele ali?

O feiticeiro olhou, olhou e reconheceu, dizendo:

- Aquele é o rei Quitamba!

A rainha explicou que aquele não era o rei, mas sim sua imagem, pois esse não viveria por muito tempo, indo, em alguns anos, ficar com ela naquele lugar.

A rainha disse ao feiticeiro:

- Você volta para o reino, conta ao rei Quitamba toda essa história.

E para certificar o rei de que o feiticeiro estava falando a verdade, a rainha lhe entregou uma pulseira com a qual havia sido enterrada.

Eles se despediram e o feiticeiro foi embora levando a pulseira.

Do lado de fora, no mundo dos vivos, a mulher do feiticeiro passou dias a regar a cova. Foi quando ela viu a terra rachando e a cabeça do seu marido e seu filho aparecerem em meio à terra. Ela puxou os dois para fora.

No outro dia, o feiticeiro reuniu novamente os homens, entregou a pulseira da rainha e mandou que eles a levassem ao rei. Assim foi feito. O rei, ao ouvir toda aquela história, ficou um pouco desconfiado. Mas, quando viu a pulseira constatou que era tudo verdade. A partir daquele dia a tristeza foi acabando porque o rei tinha agora a certeza de que um dia iria reencontrar sua rainha. Novas festas voltaram a acontecer e a alegria tomou conta do reino novamente. Porém, chegou o dia em que o rei teve que ir para a terra de Calunga. E dizem que ele está lá até hoje, alegre, ao lado da sua rainha!

(História gravada por Ana Paulo Oliveira, contada por Josiley Souza, em Belo Horizonte)

*O título dessa história não corresponde ao verdadeiro



sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Maria Vai com as Outras

                                                                                                                                            
                                                                                                                                               Sylvia Orthof

Era uma vez uma ovelha chamada Maria. Onde as outras ovelhas iam, Maria ia também. As ovelhas iam para baixo Maria ia também. As ovelhas iam para cima, Maria ia também.

Um dia, todas as ovelhas foram para o Pólo Sul. Maria foi também. E atchim! Maria ia sempre com as outras.

Depois todas as ovelhas foram para o deserto. Maria foi também.

- Ai que lugar quente! As ovelhas tiveram insolação. Maria teve insolação também. Uf! Uf! Puf!

Maria ia sempre com as outras.

Um dia, todas as ovelhas resolveram comer salada de jiló.

Maria detestava jiló. Mas, como todas as ovelhas comiam jiló, Maria comia também. Que horror!

Foi quando de repente, Maria pensou:

“Se eu não gosto de jiló, por que é que eu tenho que comer salada de jiló?”

Maria pensou, suspirou, mas continuou fazendo o que as outras faziam.

Até que as ovelhas resolveram pular do alto do Corcovado pra dentro da lagoa. Todas as ovelhas pularam.

Pulava uma ovelha, não caía na lagoa, caía na pedra, quebrava o pé e chorava: mé! Pulava outra ovelha, não caía na lagoa, caía na pedra e chorava: mé!

E assim quarenta duas ovelhas pularam, quebraram o pé, chorando mé, mé, mé! Chegou a vez de Maria pular. Ela deu uma requebrada, entrou num restaurante comeu, uma feijoada.Agora, mé, Maria vai para onde caminha seu pé.



quinta-feira, 28 de julho de 2011

O Rei Leão e o Macaco


Tempos atrás, os bichos falavam. Pois bem, nesse tempo havia um leão que vivia numa alegria danada, dando festas todos os dias. Porém, um dia sua esposa, a leoa, morreu. Nesse dia, o leão baixou um luto na mata. Ele disse:
- A partir de hoje eu não quero ouvir passarinho algum cantando, não quero bicho pulando, coelho correndo... Vai todo mundo ficar calado e quieto.
O tempo foi passando e aquela tristeza danada invadiu a mata. Mas, acontece que o macaco não estava gostando muito dessa história e resolveu quebrar o luto. Começou a subir em árvores, gritar, pular. Só que essa confusão chegou aos ouvidos do leão, que ficou irado. Ele reuniu todos os bichos e mandou que trouxessem o macaco para averiguar essa história de desrespeitar sua ordem.
Ao chegar, o macaco ficou assustado parado na frente do leão, que perguntou:
- Eu estou sabendo que o senhor está na maior festa, desobedecendo minha ordem. Que negócio é esse?
O macaco respondeu:
- É verdade sim senhor leão. Mas, eu estou fazendo isso porque sua esposa mandou. Ela apareceu pra mim e falou que lá onde ela está é uma alegria danada! Que lá é bom demais e que é pro senhor ficar alegre, comemorar e chamar os outros bichos todos para comemorarem também. Ela mandou um recado pro senhor...
O leão, assustado, quis saber do recado. O macaco, então, disse:
- Ela disse pro senhor deixar de ser bobo, fazer a barba, tomar um banho, arrumar uma leoa nova e casar!
O leão ficou numa alegria danada. Tomou seu banho, fez a barba e em pouco tempo estava até com uma nova esposa.
Dizem que até hoje eles estão lá na mata e muito felizes!


(História Gravada por Ana Paula Oliveira, contada por Josiley Souza, em Belo Horizonte)
*O título dessa história não corresponde ao verdadeiro

terça-feira, 26 de julho de 2011

A Descoberta da Joaninha


Dona Joaninha vai a uma festa em casa da lagartixa.


Vai ser uma delícia!

Todos os bichinhos foram convidados...

Dona Joaninha quer ir muito bonita!

Porque, assim, todo mundo vai querer dançar e conversar com ela!

E ela poderá se divertir a valer!...

Por isso, colocou uma fita na cabeça, uma faixa na cintura, muitas pulseiras nos braços e ainda levou um leque para se abanar.

No caminho encontrou Dona formiga, na porta do formigueiro, e disse:

- Bom dia, Dona Formiga!

Não vai à festa da lagartixa?

- Não posso, minha amiga. Ontem fizemos mudança e eu não tive tempo de me preparar...

- Não tem problema! Tudo bem! Eu posso emprestar a fita que tenho na cabeça e você vai ficar linda com ela! Quer?

- Mas que legal, Dona Joaninha!

Você faria isso por mim?

- Claro que sim! Estou muito enfeitada! Posso dividir com você.

E lá se foram as duas. A formiga radiante com a fita na cabeça.

Dali a pouco encontraram Dona Aranha, na sua teia, fazendo renda.

Ao ver as duas, a aranha falou:

- Oi! Onde vão vocês duas tão bonitas?

- À festa da lagartixa! Você não vai?

_ Sinto muito! Não posso...tive muitas despesas e sem dinheiro não pude me preparar para a festa!

Não seja por isso! disse a Joaninha - Estou muito enfeitada! Posso bem emprestar as minhas pulseiras...Vão ficar lindíssimas em você!

- Que maravilha! disse a aranha entusiasmada.

- Sempre tive vontade de usar pulseiras nos braços! Dona Joaninha, você é legal demais! Sabia?

E dona Aranha, muito beliz, acompanhou as amigas.

Logo adiante encontraram a taturana. Como sempre, morrendo de calor!

- Oi, Dona Taturana! Como vai?

- Mal! Muito mal com esse calor!...Sabe que nem tenho coragem de ir à festa da lagartixa?

- Ora! Mas para isso dá-se um jeito! disse a Joaninha muito amável. - Poderei emprestar o meu leque.

E lá se foi também a taturana, felicíssima, abanando-se com o leque e encantada com a gentileza da amiga.

Mas, logo depois, deram de cara com a minhoca, que tinha posto a cabeça para fora da terra para tomar um pouco de ar.

- Dona Minhoca não vai à festa? disse a turminha ao passar por ela.

- Não dá, sabe? Eu trabalho demais! Quase não tenho tempo para comprar as coisas de que preciso... E, agora, estou sem ter uma roupa boa para vestir! Sinto bastante! Porque sei que a festa vai ser muito legal! Mas, que se vai fazer...

- Ora, Dona Minhoca - disse a joaninha com pena dela. - Dá-se um jeito...Posso emprestar a minha faixa e com ela você ficará muito elegante!

A minhoca ficou contentíssima! E seguiu com as amigas para a festa.

Dona Joaninha estava tão feliz com a alegria das outras que nem reparou ter dado tudo o que ela havia posto para ficar mais bonita.

Mas, a alegria do seu coração aparecia nos olhos, no sorriso, e em tudo o que ela dizia! E isso a fez tão linda, mas tão linda que ninguém na festa dançou e se divertiu mais do que ela!

Foi então que a Joaninha descobriu que para a gente ficar bonita e se divertir, não é preciso se enfeitar toda.

Basta ter o coração bem alegre, que essa alegria de dentro deixa a gente bonita por fora! E ela conseguiu essa alegria fazendo todo aquele pessoal ficar feliz!

 - Bellah Leite Cordeiro
(História enviada por Meire  de Monte Mor)

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Bolhas de sabão.

Desfolha no canudo

e espalha-se no ar,

acima de tudo.



Voa sobre o galho

e espelha brilhando

a gota de orvalho.



Olha para a folha

vermelha de encanto

e sobe sem escolha.



O velho

debulha o sorriso

e esquece o trabalho

vendo a bolha voar.



(Dulce)

sexta-feira, 15 de julho de 2011

CORDEL CHAPÉUZINHO



A estória de chapeuzinho vermelho



O lobo mau esperava

O chapeuzinho vermelho

Na estradinha do bosque

Olhava pelo um espelho

Queria lhe devorar

Pra sua fome aplacar

Da barriga ouvia conselho.



Por outra estrada ela foi

Sem atentar pro perigo

Cantando pela vereda

Procurava seu abrigo

Na casa da vovozinha

Que ali morava sozinha

Sem vizinho e sem amigo.



O lobo mau foi na frente

A vovozinha devorou

Vestindo a roupa dela

Na vovó se transformou

A menina chegou cansada

Não desconfiou de nada

E logo na casa entrou.



Mas que olhos imensos

A menina perguntou

É para te ver melhor

O lobo arrematou

E essa orelha grande

Esse chapéu não esconde

Chapeuzinho estranhou.



E pra te ouvir bastante

Disse o lobo descarado

Nossa que nariz enorme

Pra ele foi perguntado

É pra te da muito cheiro

Sentir teu aroma inteiro

Respondeu o lobo danado.



E essa boca gigantesca

De longe dá para vê

O lobo se apresentou

Falou o que veio fazer

Arreganhando o dente

A Boca aberta e contente

A menina quis comer.



De repente ela viu

Que a sua vó era o lobo

Começou logo a gritar

Fazendo a fera de bobo

Os caçadores ouviram

Mataram o lobo de tiro

E contaram para o povo.



Abriram a barriga do lobo

E salvaram a vovozinha

Que foi engolida inteira

Mas ainda tava vivinha

Chapeuzinho ficou feliz

É isso que o conto diz

Nessa bonita estorinha.


Autor: Daniel Fiuza


10/11/2001

Cordel baseado numa estória muito conhecida da gente.escrita por :

CHARLES PERRAULT

quarta-feira, 13 de julho de 2011

História do Porco



Um fazendeiro colecionava cavalos e só faltava uma determinada raça. Um dia ele descobriu que seu vizinho tinha este determinado cavalo. Assim, ele atazanou seu vizinho até conseguir comprá-lo. Um mês depois o cavalo adoeceu, e ele chamou o veterinário que disse:

- Bem, seu cavalo está com uma virose, é preciso tomar este medicamento durante três dias. No 3º dia eu retornarei e caso ele não esteja melhor será necessário sacrificá-lo.

Neste momento, o porco escutava a conversa.

No dia seguinte, deram o medicamento e foram embor a. O porco se aproximou do cavalo e disse:

-Força amigo, levanta daí senão será sacrificado!!!.

No segundo dia, deram o medicamento e foram embora. O porco se aproximou novamente e disse:

- Vamos lá amigão, levanta senão você vai morrer! Vamos lá, eu te ajudo a levantar.

Upa! Um, dois, três...

No terceiro dia, deram o medicamento e o veterinário disse:

- Infelizmente vamos ter que sacrificá-lo amanhã, pois a virose pode contaminar os outros cavalos.

Quando foram embora, o porco se aproximou do cavalo e disse:

- Cara, é agora ou nunca! Levanta logo, upa! Coragem! Vamos, vamos! Upa! Upa! Isso, devagar! Ótimo, vamos, um, dois, três, legal, legal, agora mais depressa, vai....fantástico! Corre, corre mais! Upa! Upa! Upa! Você venceu campeão!!!.

Então, de repente o dono chegou, viu o cavalo correndo no campo e gritou:

- Milagre!!! O cavalo melhorou, isso merece uma festa!Vamos matar o porco!..

sábado, 9 de julho de 2011

O mistério das ondas do mar


Há muito tempo atrás, os mares do mundo inteiro paralisaram. Não se movia uma ondinha sequer. Em uma cidadezinha muito pobre, um jovem curioso pescava à beira do mar tentando entender aquele mistério quando, de repente, começou a escutar um estranho coaxar angustiado.

Ele apurou o ouvido e foi caminhando em direção de onde vinha aquele som. Foi então que pulou na sua frente uma sapa enorme que lhe implorou:

— Por favor, estou me escondendo de uma cobra que deseja me devorar. Me proteja, pois eu não quero morrer.

Dizendo isso, surgiu de repente uma cobra que imediatamente deu um bote em direção à indefesa sapinha. O rapaz, sem ter muito tempo para pensar, lutou com a cobra e sacando de uma faca que utilizava sempre
em sua pescaria, conseguiu dar um fim àquela serpente depois de muita luta.

Muito agradecida a sapa lhe fez um pedido muito estranho:

— Para completar a sua ajuda, gostaria que você me desse um beijo, pois tenho sofrido muito estes últimos dias e preciso do carinho.

O rapaz então, impulsionado desta vez por sua bondade, atendeu ao pedido da sapa que, após o beijo, transformou-se numa belíssima jovem. Imediatamente, surgiram lindas ondas no mar que pareciam cantar agradecidas por ele ter libertado sua princesa. As ondas batiam com alegria na areia aquecida pelo Sol.

A princesa explicou que em seu reinado, lá no fundo do mar, ela era a responsável pelas beleza das ondas e contou que elas haviam parado por causa de um feitiço que uma bruxa invejosa havia lhe jogado.

Feliz e agradecida, a princesa, antes de retornar para o mar, prometeu a ele que nunca mais faltaria peixes para alimentar seu povo.

Foi assim que tudo aconteceu. Aquele povoado se tornou próspero e todos viveram felizes por lá. Dizem que até hoje este rapaz pára aos finais da tarde e fica escutando as ondas do mar, na esperança de que
apareça outra sapinha lhe pedindo um beijo encantado.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

A LENDA DA ÍNDIA NAIÁ



ERA FESTA NUMA NOITE DE LUAR

NA ALDEIA DOS MAUÊS

AO SOM DE TORÉS E MARACÁS

DANÇAVAM OS BRAVOS GUERREIROS.



ENQUANTO EM UM CANTINHO QUALQUER

SONHAVA A ÍNDIA NAIÁ

COM SEU GUERREIRO BRANCO

QUERENDO COM ELE ENCONTRAR.



NO CÉU A LUA BRILHAVA

LHE CONVIDANDO O TEMPO INTEIRO

PARA IR AO LAGO SE ENTREGAR

AO SEU AMADO GUERREIRO.



A ÁGUA ESTAVA CRISTALINA

REFLETINDO TODAS AS ESTRELAS

E A LUA PRATEADA

REPRESENTANDO O SEU GRANDE GUERREIRO.



E AOS SEUS SENTIMENTOS

A ÍNDIA SE ENTREGOU

DE ENCONTRO AO SEU GUERREIRO

NO LAGO SE ATIROU.



FOI ASSIM

FOI ASSIM

QUE NUMA FLOR

A ÍNDIA NAIÁ SE

TRANSFORMOU

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Encontro Regional de Contadores de Histórias


Em março acontece o 6º Encontra Conto - Encontro Regional de Contadores de Histórias.
Todas as informações no http://www.encontraconto.blogspot.com/

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Vento

O vento

venta

e invente

mil maneiras de ventar:



*venta fraco,

*vento forte,

*vento gostoso,

*feito um beijo antes de dormir.



Se enrola

feito um gato

(Ai, que sono!).



De repente

acorda

e roda feito um redemoinho.



(Luís Camargo - Cata vento e o ventilador, S.Paulo, FTD, 1986).