segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

A MORTE QUE FEZ UM HOMEM RICO


Um homem tinha muitos filhos, e já todos os homens da freguesia eram seus compadres.
A mulher alcançou outra vez e pronta estava para parir. O homem, que não queria pedir a mais ninguém, abalou de casa.
Encontrou no caminho um homem muito desfigurado, que lhe perguntou aonde ele ia.
Ele contou-lhe, e o homem disse-lhe que voltasse para trás, que ele era o seu padrinho.
Assim foi.
Quando acabou o batizada, o homem disse:
— Compadre, repare bem para mim, para me conhecer onde quer que me encontre. Eu sou a Morte. Tu muda de casa e faz-te médico, que hás-de ganhar muito dinheiro. Em tu me vendo aos pés da cama de qualquer doente, é porque ele escapa. Em tu me vendo à cabeceira, é porque ele morre.
O homem assim fez; começou a ter muita fama e ganhava muito dinheiro e já estava muito rico mais os filhos.
Num dia a Morte chegou-se ao pé dele e disse-lhe:
— Bem, agora já te fiz rico, mas hoje chegou a tua vez e venho matar-te.
O homem pediu muito que o deixasse viver mais um ano.
A Morte consentiu.
O homem então mandou fazer uma torre de bronze, com as paredes muito grossas, para a Morte lá não entrar.
Quando o ano estava quase a acabar, ele mandou fazer um anel de ouro, meteu-o no dedo e fechou-se na torre.
Estava lá a jantar, e apareceu-lhe a Morte ao pé dele.
Ele, muito assustado, perguntou-lhe:
— Ó comadre Morte, tu por onde é que entraste?
A Morte disse que pelo buraco da fechadura.
Ele então lhe disse:
— Já que tu te meteste pelo buraco da fechadura, hás-de meter-se pelo buraco desta cabaça.
A Morte meteu-se e ele tapou a cabaça com uma rolha e disse à Morte:
— Agora sai daí para fora se és capaz.
A Morte disse-lhe:
— Ó compadre, pois eu fiz-te tanto benefício, e tu agora me queres aqui deixar dentro desta cabaça? Tira-me a rolha, que eu não te faço mal.
O homem tomou a perguntar-lhe se ela não lhe fazia mal.
A Morte disse que não.
Ele destapou a cabaça e, ao tempo que destapou, caiu, mas não morto, e a Morte roubou-lhe o anel.
Ele disse:
— Ó comadre, então tu prometeste-me que não me matavas, e agora me queres matar. Deixa-me ao menos rezar um Padre-Nosso e uma Ave-Maria pela minha alma.
A Morte consentiu.
Ele que fez?
Começou a rezar o Padre-Nosso até ao meio e depois tornava a começar.
De modo que a Morte não o podia matar.
O homem então saiu da torre e começou outra vez na sua vida.
Um dia andava ele à caça e a Morte fingiu-se de morta no meio do monte.
O homem chegou e, julgando que era um homem morto, disse:
— Ah! Pobre homem, quem te matou? Deixa-me ao menos rezar um Padre-Nosso e uma Ave Maria pela tua alma.
Rezou, mas ao tempo que acabou, a Morte levantou-se e matou-o.

Consiglieri Pedroso, in Contos Populares Portugueses
(Enviado por Amauri de Oliveira)

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Pense em coisas lindas



Quando anoitece no vale encantado,
Fica só um fiozinho de luz vermelha
Lá no horizonte.
E todas as crianças do mundo param pra ver o pôr do sol.
Ah, o Deus das fadas fica tão triste se a gente deixa
De ver o pôr do sol!
A linha vermelha, puxa uma carruagem cheia de estrelas,
Onde está a deusas dos sonhos e seu pó mágico,
Que faz a gente sonhar coisas lindas...
Quando você estiver triste,
pense em coisas lindas:
Balas, travessuras, carinho, carrinho, beijo de mãe,
Brincadeira de queimado, árvore de natal,
Árvore de jabuticaba, céu amarelo, bolas azuis,
Risadas, história de avó...
Quando você estiver triste e achar que a vida não é linda
Pense em coisas lindas.
Mas pense com força,
com muita força,
Porque aí o céu vai ficar cheio de vacas gordas amarelas,
Cachorro bonzinho, bruxa simpática,
Sorvete de chocolate, caramelos e amigos
Vamos pensar só em coisas lindas!
Brincar na chuva, boneca nova, boneca velha, bola grande,
Mar verde, submarino amarelo, fruta molhada, banho de rio,
Guerra de travesseiro, boneco de areia, princesas,
Heróis, cavalos voadores...
Ih! já tá anoitecendo no vale encantado!
Dorme em paz, minha criança querida
Vamos pensar em coisas lindas até amanhecer


(Oswaldo Montenegro)

(texto enviado por Amauri de Oliveira)

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

O Galinheiro de Bartolomeu


Bartolomeu cria galinhas desde muito pequeno.
Galinhas brancas e iguais. Tão iguais que nem nomes elas têm.
Bartolomeu também cuida do jardim e um dia escolheu sua cor favorita para pintar o galinheiro.
Enquanto estava pintando, tropeçou numa galinha, que bateu no poleiro, que caiu sobre o ninho, que bateu no balde que despejou tinta sobre os ovos que estavam por perto.
Mamãe galinha levou um susto, mas seguiu chocando seus ovos.
O tempo passou, o ovo rachou, o pintinho nasceu...
Azul. Um pintinho azulzinho. Bartolomeu gostou tanto, que usou várias cores para pintar o galinheiro e nas horas livres, pintava os ovos também.
Ao nascer, os pintinhos, tinham as cores dos ovos.
Ao ver as galinhazinhas assim, todas coloridas, Bartolomeu passou a chamá-las com nomes de flor.
Margarida era amarela e branca, rosa amarela, rosa vermelha e rosa, ora, rosa mesmo.
Quem via de longe, pensava que o galinheiro era um verdadeiro jardim.
Que penas eram pétalas.
Bartolomeu vivia feliz no seu jardim de galinhas. Mas um dia...
Estava anunciado um temporal e Bartolomeu fechou bem portas e janelas.
O vento começou lento e foi crescendo. Aproximando-se do galinheiro. Chegou tão perto e sacudiu tudo. Rompeu trancas, abriu portas e janelas. O telhado foi levado e num instante o céu ficou todo colorido. Com galinhas formando um arco-íris em movimento. Todo barulhento.
O vento passou e foi sacudir outros ares.
Quanto ao Bartolomeu, não ficou triste não, pegou tinta e pincel e saiu pintando o sete por esse mundão.
Ah, se você encontrar uma galinha colorida, pode ser que seja uma daquelas, revoada do jardim do Bartolomeu. Você viu? Não? Nem eu!

Christina Dias, O Galinheiro de Bartolomeu, Editora Nova América

(História enviada por Roberto Isler)

sábado, 11 de outubro de 2008

O Sapo com Medo d'Água


O sapo é esperto. Uma feita o homem agarrou o sapo e levou-o para os filhos brincarem.
Os meninos judiaram dele muito tempo e, quando se fartaram, resolveram matar o sapo.
Como haviam de fazer?
- Vamos jogar o sapo nos espinhos!
- Espinho não fura meu couro - dizia o sapo
- Vamos queimar o sapo!
- Eu no fogo estou em casa!
- Vamos sacudir ele nas pedras!
- Pedra não mata sapo!
- Vamos furar de faca!
- Faca não me atravessa!
- Vamos botar o sapo dentro da lagoa!
Aí o sapo ficou triste e começou a pedir, com voz de choro:
- Me bote no fogo! Me bote no fogo! N'água eu me afogo! N'água eu me afogo!
- Vamos para a lagoa - Gritaram os meninos.
Foram, pegaram o sapo por uma perna e, t'xim bum, rebolaram lá no meio. O sapo mergulhou, veio em cima d'água, gritando, satisfeito:
- Eu sou bicho d'água! Eu sou bicho d'água!
Por isso quando vemos alguém recusar o que mais gosta, dizemos:
- É sapo com medo d'água...

(In: Contos tradicionais do Brasil de Luís da Câmara Cascudo postado por Amauri de Oliveira)

domingo, 28 de setembro de 2008

O sábio catador de palavras


--Ernesto Rodríguez Abad


Há muitos anos viveu um sábio que queria colecionar todas as palavras do mundo.Procurou pelos países longínquos, falou com reis, rainhas, princesas, heróis e vilões de todo o mundo.
Havia tantas palavras.Eram tão estranhas algumas, tão enigmáticas outras, tão mágicas e loucas outras....
Procurou nas tribos perdidas nas selvas.Subiu as montanhas mais altas,submergiu mares.... e em algumas árvores encontrou entre as folhas palavras tímidas, enroladas como lagartas.Nas flores dos parques viu as mais ternas e delicadas e entre o fogo das fogueiras as mais fortes e ardentes.
Porém o sábio não soube o que fazer com elas e guardou-as dentro de caixas.Elas desorganizadas ou chateadas, sem saber o que fazer e nem como se relacionar, gritavam e pedia liberdade.
Faltava imaginação.
Essa não pode encontrar aquele sábio obstinado pelas palavras estranhas, pelos sons mais cativantes.
Assim, teve que sair em busca daquele ingrediente fundamental para poder brincar com as palavras.
Percorreu sete vezes o mundo,porque nunca se sabe onde encontraremos o que procuramos.Sete noites passou sonhando, mas a imaginação não apareceu em nenhum dos sete sonhos.
Ficou velho e nasceu uma barba branca que arrastava pelo chão. E voava com o vento.Um dia pensou que jamais encontraria a imaginação e sentou-se para descansar.
Diante dele havia um campo cheio de trigo que se movia com o vento e a cada ondulação surgiam desenhos de duendes, fadas, aviões, trens, carruagens de ouro que levavam princesas a bailes encantados.O bater das folhas e dos ramos, parecia uma música que vinha das entranhas da terra.
A imaginação, pela primeira vez, se divertia com o sábio.Ele , correu para casa abriu a biblioteca, tirou o pó das prateleiras e destampou as caixas.
A primeira palavras a sair foi liberdade e depois atropeladas, saíram todas.Emaranhavam-se pelas barbas do sábio; algumas preguiçosas e lentas, outras divertidas e descaradas e outras ousadas meteram-se pelos ouvidos do sábio dizendo-lhes segredos que ninguém sabia.
Dentro do sábio amontoaram-se histórias, se organizaram sons, frases, versos.Entretanto faltava uma voz.Sem ela , as palavras não podiam sair e brincar com o ar.
Faltava que aqueles contos recebessem vida e se emocionassem com os sons carregados de sentimentos.
Contam que não se soube nunca de onde veio.
Contam que um ser com a voz cheia de sóis e de luas, de estrelas , de mares e de arco-íris apareceu para cantar e contar as palavras do sábio.
Contam que há muitos séculos nasceu o primeiro narrador oral ou contador de histórias.


(história enviada por Amauri de Oliveira)

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Um amor de confusão

Dona galinha um ovo botou.
Mas, quando foi passear, outros dois ovos no caminho ela encontrou.
Um ovo mais dois ovos, com três ovos ela ficou.
Dona galinha os três ovos em seu ninho colocou.
Mas, quando foi passear, outros dois ovos no caminho ela encontrou.
Três ovos mais dois ovos, com cinco ovos ela ficou.
Dona galinha os cinco ovos em seu ninho colocou.
Mas, quando foi passear, mais três ovinhos ela encontrou.
Cinco ovos mais três ovos, com oito ovos ela ficou.
Dona galinha os oito ovos em seu ninho arrumou.
Mas, quando foi passear, mais um ovo ela achou, com nove ovos ela ficou.
Dona galinha os nove ovos em seu ninho ajeitou.
Mas, quando foi passear, um ovo enorme ela encontrou.
Nove ovos mais um ovo, com dez ovos ela acabou. E, com paciência e carinho, os dez ovos dona galinha chocou.
Mas que surpresa não foi, no dia em que os ovos se abriram.
Vocês nem podem imaginar os bichos que das cascas saíram.
Nasceu ganso, pato, marreco e tartaruga.
Apareceu codorna, perdiz, pintinho e até um jacaré.
Agora eu só quero ver a confusão que vai ser na hora que essa turma sair para comer...

Dulce Rangel
(História enviada por Neusa Lúcia Braga Cia)

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

A MARGARIDA FRIORENTA


(Fernanda Lopes de Almeida)

Era uma vez uma margarida em um jardim.
Quando ficou de noite a margarida começou a tremer.
Ai passou a Borboleta Azul. A borboleta parou de voar.
- Por que você esta tremendo?
- Frio!
- Oh! E horrível ficar com frio! E logo em uma noite tão escura!
A Margarida deu uma espiada na noite.E se encolheu nas suas folhas.
A Borboleta teve uma idéia:
- Espere um pouco! E voou para o quarto de Ana Maria.
-Psiu, acorde
-Ah? E você, Borboleta? Como vai?
- Eu vou bem. Mas a Margarida vai mal.
- O que e que ela tem?
- Frio coitada!
- Então já sei o remédio. É trazer a Margarida para o meu quarto.
- Vou trazer já.
A Borboleta pediu ao cachorro Moleque:
- Você leva esse vaso para o quarto da Ana Maria?Moleque era muito inteligente e levou o vaso muito bem.
Ana Maria abriu a porta para eles. E deu um biscoito para Moleque.
A Margarida ficou na mesa de cabeceira.Ana Maria se deitou.Mas ouviu um barulhinho. Era o vaso balançando. A Margarida estava tremendo!
- Que e isso?
- Frio!
- Ainda? Então já sei! Vou arranjar um casaquinho para você.Ana Maria tirou o casaquinho da boneca. Porque a boneca não estava com frio nenhum.E vestiu o casaquinho na Margarida.
- Agora, você esta bem. Durma e sonhe com os anjos.
Mas quem sonhou com os anjos foi Ana Maria. A Margarida continuou a tremer.Ana Maria acordou com o barulhinho
Outra vez? Então já sei. Vou arranjar uma casa para você!
E Ana Maria arranjou uma casa para Margarida.Mas quando ia adormecendo ouviu outro barulhinho...
Era a Margarida tremendo.
Então Ana Maria descobriu tudo.
Foi lá e deu um BEIJO na Margarida.
A Margarida parou de tremer.
E dormiram muito bem a noite toda.
No dia seguinte Ana Maria disse para a Borboleta Azul:
-Sabe Borboleta? O frio da Margarida não era frio de casaco não!
E a Borboleta respondeu:
- Ah! Entendi!

POR QUE O CACHORRO É INIMIGO DE GATO...E GATO DE RATO


Antigamente todos os bichos eram amigos e o leão governava todos. Cachorro, gato, rato, ovelha, onça, raposa, timbu, pinto, tudo vivia junto e sem briga.

Uma feita Nosso Senhor mandou o leão libertar os bichos, passando carta de alforria a todos, para que pudessem ir onde quisessem. Havia muita contenteza. O leão chamou os bichos mais ligeiros e entregou as cartas de liberdade para ir dando aos outros animais.

Chamou o gato e deu a ele a carta de alforria do cachorro. O gato saiu numa carreira danada. No caminho encontrou o rato que estava entretido bebendo mel de abelhas.

- Camarada gato! Para onde vai nesse desadoro?

- Vou entregar essa carta ao camarada cachorro!

- Deixe de vexame! Descanse e beba esse melzinho gostoso.

O gato foi lamber o mel e tanto lambeu e gostou que acabou enfarado e dormindo. O rato, de curioso, foi cascavalhar a bruaca que o gato trazia a tiracolo e encontrou uns papéis. Meteu o dente, roendo, roendo, roendo, e deixou tudo virado em bagaço. Vendo que fizera uma desgraça, fez um bolo e sacudiu dentro da bruaca do gato e ganhou a mata.

O gato, acordando, largou numa carreira "timive" até encontrar o cachorro, a quem entregou o papel. O cachorro foi ler e viu que tudo estava esbagaçado e roído. Não podia provar ao homem que era bicho-livre e ficou zangado de ferro e fogo com o gato, dando uma carreira atrás dele para matá-lo. O gato, por sua vez, sabendo que aquilo era trabalho do rato, não procurou coisa senão passar-lhe o dente para vingar-se.

E até hoje, cachorro, gato e rato, são inimigos até debaixo dágua.

(Cascudo, Luís da Câmara. Contos tradicionais do Brasil enviado por Amauri de Oliveira)

domingo, 24 de agosto de 2008

Caçando sapo, comendo mosca


Um dia me falaram:
- Vá caçar sapo!
E eu fui.
Peguei lanterna e um saco e me mandei. Andei, andei, até que cheguei.
Era um brejo cheio de coaxos e cricrilos. Olhei, procurei, espiei. E de repente encontrei. É, de olhos esbugalhado, lá estava ele, um gordo e rugoso sapo. Quando apontei a lanterna na cara do bicho, o danado gritou:
- Apaga o facho.
Então, também de olhos esbugalhado, gaguejei :
- Vo...você fa... Fala?
o danado boquejou :
- Vo... Você escuta? Então apaga!
Mais que depressa, apaguei a lanterna.
- Assim é melhor, tenho olhos sensíveis, sabia?
Naquela altura do campeonato, eu não sabia de mais nada.
- O que você veio fazer aqui? O sapo quis saber.
Tentei disfarçar, escondi o saco e respondi :
- Vim tomar um ar.
Mas já era tarde, pois ele tinha espichado os olhos e visto o saco.
- Sei. E aproveitou pra trazer o saco pra apanhar vento?
Corei de vergonha e confessei:
- A verdade é que me mandaram caçar sapo, seu sapo.
- E pra quê?
- Sei lá.
- Se não sabe, quem sabe?
- Não sei, só sei que não sei.
- Não sei não. Um saco para por um sapo...
- Só se for pra bater o papo.
- Mas sapo não bate papo.
- Mas nós não estamos batendo, seu sapo?
- É, estamos. Concordou o sapo.
- Então, não quer entrar no saco?
- Pra quê?
- Pra ver o por quê.
- Não sei, só sei que não sei.
- Então, dá uma sacada. Abri o saco pro sapo.
Ele espiou, espiou e falou :
- Não. Não entro no saco e fim de papo.
E saiu saltando.
Eu fiquei ali, comendo moscas.
Mas que sapo sabido.
- Hei, seu sapo. O senhor é um sábio?
Ele, de longe, coaxou:
- Não, não sei se sou.
E sumiu na escuridão.
Voltei com o saco sem o sapo, só matutando...
-“Eita” sapo sortudo sô.
(História escrita e enviada por Roberto Isler)

domingo, 17 de agosto de 2008

A Galinha dos Ovos de Ouro


Era uma vez um homem muito pobre. Tão pobre que, na sua casa - uma cabaninha de pedra no limiar do bosque - não havia sequer uma cama. O recheio da casa consistia numa mesa, uma cadeira, uma tigela e uma colher de madeira. Além disso, fosse de Verão ou de Inverno, o pobre homem trazia sempre vestida a única roupa que possuía: farrapos. Em relação à alimentação, não se pode dizer que as coisas corressem melhor, pois passava o ano a comer frutos silvestres, raízes e chicória. Só com a chegada do Outono é que variava, comendo as castanhas que ia apanhando aqui e ali. Com fartura apenas tinha água, pois corria um riacho ao lado da sua cabana.Certa tarde em que se anunciava uma violenta tempestade, o pobre homem, de estômago vazio, tremia de frio deitado na enxerga. Foi nessa altura que bateram suavemente na porta três vezes.«Quem será?» - perguntou a si mesmo. - «Nunca vem ninguém para estes lados... e ainda por cima com este tempo!»Levantou-se e foi abrir a porta.Encontrou um velho com uma longa barba branca, envolto num pesado manto, com um grande alforje a tiracolo.- Bom dia - disse. - Espero não vir incomodá-lo. Ia a passar e fui surpreendido pela tempestade. Posso descansar durante algum tempo e sentar-me à beira do lume?- Claro! Entre! - respondeu o pobre. - Mas não pense que vai encontrar aqui calor ou um banco onde se possa sentar... Como vê, aqui não há nada, mesmo nada... No entanto, se quiser, pode acomodar-se.O velho sentou-se e começou a falar disto e daquilo. Enquanto conversava, os seus olhos iam inspecionado o casebre. Por fim, comentou:- Você não deve passar nada bem, vivendo aqui...
- Só por milagre é que ainda não morri de fome. Não como há quase dois dias.- Ah, lá por isso...O velhote tirou então do alforje pão, queijo e um cantil de pele cheio de vinho que, de seguida, dividiu com o dono da casa. Este, só de ver comida, quase ia perdendo os sentidos.Terminada a refeição, o velho levantou-se e disse: - Agora tenho de o deixar, bom homem. A minha estrada é longa, muito longa...Em seguida, meteu a mão numa dobra do grande manto, até àquele momento cuidadosamente fechado, e retirou algo que, depois, pousou no chão de terra batida.O pobre homem ficou surpreendido. Tratava-se de uma galinha, de uma linda galinha vermelha que, mal se viu livre, começou a saltitar pelo quarto, debicando as migalhas de pão que haviam ficado do jantar.- Trate bem dela, peço-lhe. Resista à tentação de a comer, pois, como verá, ela põe um ovo todos os dias.Dizendo estas palavras o velho sorriu e pareceu-me piscar o olho, mas talvez tenha sido apenas uma impressão. Depois, acrescentou:- Há-de ver que ela lhe dará muitas alegrias.Fez um último aceno de despedida, abriu a porta e desapareceu no meio da tempestade.«Uma galinha, uma galinha...», ia repetindo de si para si o homem. «Como terá ele conseguido mantê-la sossegada durante aquele tempo todo debaixo do seu manto? Isto é tudo muito esquisito!» Estendeu-se de novo na enxerga e adormeceu profundamente. Na manhã seguinte, ao acordar, nem sequer se lembrava que tinha um animal em casa. Mas, quando esticou as pernas para se espreguiçar, sentiu que havia qualquer coisa fria e lisa aos pés da sua pobre cama. Levantou a cabeça olhou para o fundo da sua enxerga e viu um grande ovo. Mas não era um ovo branco como os outros; era amarelo e brilhante... de ouro! Era de ouro maciço!com as suas mãos, de verificar o seu peso, de o polir com uma ponta da sua túnica esfarrapada, enquanto a galinha saltitava à sua volta como se não fosse nada.À noite o pobre quase não conseguiu dormir, tal a excitação que sentia. E maior foi o seu espanto quando, ao acordar, encontrou um segundo ovo na enxerga.Foi então que pensou: «Vou esperar por ter uma dúzia e, depois, irei à cidade vendê-la. E assim fez. Com o dinheiro que ganhou comprou uma casinha com um terreno que começou a cultivar. Contudo, ao fim de um mês disse para si próprio: «Que tolo eu sou! Para quê trabalhar se agora sou rico?»Então, vendeu a casa e o terreno e comprou um palácio. Tinha muitos criados, passeava de liteira, dava jantares e festas suntuosas e rapidamente conheceu os cidadãos mais poderosos.Mas depressa sentiu que nem toda esta riqueza lhe bastava. O seu desejo era tornar-se o rei da região. Para o conseguir teria que formar um exército e marchar em direção à capital. Quantos ovos de ouro seriam necessários para comprar todos aqueles soldados? E quanto tempo de espera?Um dia pôs-se a pensar: «É evidente que, se esta galinha põe ovos de ouro, deve ter ouro na barriga...e deve ser tanto, tanto... Que estúpido sou eu em esperar, quando posso conseguir tudo de uma só vez!»Sem pensar duas vezes subiu em direção ao grande terraço onde, às escondidas dos criados e dos amigos, guardava a galinha. Então, prendeu o animal e, sem piedade e nenhum reconhecimento pelo que ele lhe fizera, cortou-lhe o pescoço.E eis que, como por encanto, tudo desapareceu: desapareceu o palácio, desapareceu a criadagem, desapareceram os cofres cheios de dinheiro e até as ricas roupas que vestia desapareceram. Deu consigo envolto pela escuridão e acossado pela tempestade, só e andrajoso, diante da porta da sua cabana, mais pobre que nunca.

FIM

Moral da história: «quem tudo quer, tudo perde».
(História enviada por Amauri de Oliveira)