quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

O REI QUE ERA DONO DO MUNDO

 



 
Alberto Filho 

 Era uma vez um Rei muito rico. Ele era tão rico que suas riquezas eram impossíveis de contar. Mesmo assim ele não estava satisfeito, e queria sempre mais e mais. Por isso ele não se importava com nenhuma outra coisa.

Um dia, ele subiu na mais alta torre do seu castelo, olhou para suas terras sem fim, e disse:

- Tenho muito pouco, preciso conseguir mais. Na verdade acho que preciso de todas as terras e riquezas do Mundo.

Então ele convocou seus exércitos que eram muitos, e lhes ordenou que conquistassem todas as Nações do Mundo, e lhe trouxesse todas as Riquezas existentes.

Assim seu exército partiu para cumprir sua missão. Depois de feito isso, ele disse:

- Agora sim, tenho tudo no Mundo. Na verdade eu tenho o próprio Mundo e também todas as suas riquezas. Nada mais me falta, não preciso de mais nada! E ele se cobriu com seus tesouros. Estava tão contente que dormiu ali mesmo. Então um dia ele viu que não estava mais contente e pensou:

- Eu já tenho todas as riquezas e terras do Mundo, todas as pessoas são meus servos, e ainda assim sinto que me falta mais alguma coisa! Assim ele mandou chamar seus sábios para que descobrissem o que ainda lhe faltava. E eles disseram:

- A coisa mais importante do Mundo é a mais difícil de se conseguir. Não pode ser conseguida com Dinheiro ou Poder. Na verdade o Senhor já possui essa coisa, e Ela lhe foi dada de graça. Mesmo assim ela não pode ser vista ou tocada, e só pode ser vista quando a pessoa perde.

Depois de ouvir isso, o Rei ficou pensativo e sem entender o que os Sábios queriam dizer com aquilo, afirmou:

- É claro que esta Coisa não existe. Qualquer coisa que eu conheço pode ser comprada com meu Dinheiro ou Conquistada por meus Exércitos. Apesar de ganancioso, o Rei era um bom governante para o seu Povo.

Assim, cismado com as palavras dos Sábios, resolveu por um tempo, desistir de querer saber o que faltava conquistar.

Então um dia o Rei amanheceu com febre. Estava doente. Assim, ele mandou chamar os melhores Médicos e Magos do Mundo para cuidar de sua doença. Mas o tempo passava e Ele não melhorava. Então mandou chamar os Sábios para ouvir seus conselhos. E os Sábios disseram:

- Isto Majestade, era a coisa da qual lhe falamos naquele dia. Nós a temos desde o nascimento, e não pode ser vista até o momento que deixa de existir. Essa coisa é nossa SAÚDE. Poucos lhe dão importância, mas, é a coisa mais importante do Mundo, e é IMPOSSÍVEL de se comprar.

Então o Rei compreendeu tudo, e disse:

- Eu com todo o Poder e Riquezas do Mundo não fui capaz de conseguir algo tão simples, que era minha Saúde. Eu fui um TOLO. De que adiantou tanto poder e riquezas se não fui capaz de conquistar algo que me foi dado de Graça.

E o Rei finalmente ficou curado. Então ele disse:

- Agora sei o que é ficar doente. De hoje em diante, meu povo terá os melhores Hospitais, e médicos, e Escolas. Minhas terras e riquezas serão de todos. E ele foi contar a boa nova ao seu Povo. Então ele subiu na torre mais alta do seu Castelo e olhando de cima pensou:

- Como é bonito a paisagem daqui de cima. Eu já subi muitas vezes aqui e nunca tinha visto que era assim. E pensar que esta beleza sempre existiu. O olhar de felicidade vê coisas maravilhosas. Ter saúde é de fato uma benção.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

A ESFINGE

 


A esfinge é uma figura da mitologia egípcia simbolizada por um monstro com cabeça humana e corpo de leão, com asas de pássaro ou cauda de serpente. Dentre todas as estátuas de esfinges do Egito, a mais famosa é a grande esfinge de Giza (ou Gizé), esculpida em rocha natural, e que servia de guardiã da tumba do faraó Quéfren. Para proteger a pirâmide dos demônios, o faraó mandou construir uma grande esfinge, representando o deus do Sol, levante, Harmáquis, que segundo a tradição, tinha forma de leão com a cabeça humana. A grande esfinge de Giza data de aproximadamente 2.300 a.C e possui 60 metros de comprimento por 20 de altura. Entre suas patas dianteiras se localiza um pequeno templo.

Do Egito, a esfinge passou à mitologia grega. Era também uma figura monstruosa, um leão de asas com cabeça de mulher, que vivia num rochedo perto de Tebas. 

Segundo conta a lenda, a deusa Juno, indignada com Tebas, porque a jovem tebana Alcmena aceitara os galanteios de Júpiter, mandou o monstro para cima do monte Citeron. A todos que passavam por ali a esfinge propunha um enigma, ameaçando: "Decifra-me ou devoro-te". 

O enigma consistia em responder qual era o animal que tinha quatro pés pela manhã, dois ao meio-dia e três à tarde. A resposta parece difícil, mas fica evidente em seu sentido figurado. A resposta correta é o homem: pela manhã, ou quando bebê, ele engatinha; ao meio-dia, já crescido, ele caminha ereto; e à tarde, quando velho, anda cansado apoiado a uma bengala. 

A lenda ainda conta que apenas Édipo conseguiu acertar a resposta, e a esfinge, de tanta raiva, saltou do rochedo e morreu.

 


segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

A história da galinha que subiu até o céu

 


(conto de Tarak Hammam, baseado em conto popular africano)

Tradução: Tapetes Contadores de Histórias

 Era uma vez, uma galinha e seu pintinho. Numa certa manhã, a galinha se afastou de sua casa para procurar sementes, seguida por seu pintinho. Eles encontraram uma velha árvore. O pintinho brincava ao pé da velha árvore enquanto sua mãe ciscava sementes pelo caminho.  De repente, um buraco na árvore atraiu o pequeno pintinho. Ele colocou sua cabeça dentro do buraco, depois o pescoço, em seguida as asas, depois o rabo e ... TCHLOULSSZ! O buraco se fechou.  A árvore tinha engolido o pintinho.

- Coot, cot, coot! - suplicou a galinha – Ó, Velha Árvore, por favor, devolva o meu filhote!

 A velha árvore respondeu:

- Traga-me uma cabaça cheia de leite de girafa e eu o devolverei!

 A mamãe galinha não se desencorajou e foi à procura da girafa.

- Por favor, ó Girafa, me dê de seu leite para que a velha árvore que engoliu o meu pintinho devolva o meu filhote!

 A girafa respondeu:

- Peça a árvore da selva para me dar de suas folhas e eu lhe darei do meu leite!

 A galinha então foi à procura da árvore da selva.

- Por favor, ó Árvore da Selva, me dê de suas folhas para que a girafa dê de seu leite, para que a velha árvore que engoliu o meu pintinho devolva o meu filhote!

A árvore da selva respondeu:

- Peça à chuva para cair e eu darei de minhas folhas!

A galinha voou até encontrar a chuva.

- Por favor, ó Chuva, caia sobre a árvore da selva para que ela dê de suas folhas, para que a girafa dê de seu leite, para que a velha árvore que engoliu o meu pintinho devolva o meu filhote!

A chuva respondeu:

- Peça ao céu para mandar suas nuvens e eu cairei sobre a árvore da selva!

A galinha subiu, subiu, voou muito alto até encontrar o céu.

- Por favor, ó Céu, mande suas nuvens para que a chuva caia sobre a árvore da selva, para que ela dê de suas folhas, para que a girafa dê de seu leite, para que a velha árvore que engoliu o meu pintinho devolva o meu filhote!

O céu respondeu:

- Peça ao vento para soprar e eu mandarei as nuvens até a chuva!

A galinha chegou, enfim, até o vento.

- Por favor, ó Vento, sopre o céu para que ele mande suas nuvens até a chuva, para que a chuva caia sobre a árvore da selva, para que ela dê de suas folhas para a girafa, para que a girafa dê de seu leite, para que a velha árvore que engoliu o meu pintinho devolva o meu filhote!

 O vento respondeu:

- Me dê o vento que sai de suas asas e eu lhe ajudarei!

- Está bem! - disse a galinha.

O vento recebeu o vento que saía das asas da galinha e então soprou o céu.  O céu mandou suas nuvens para a chuva. A chuva caiu sobre a árvore da selva. A árvore da selva deu de suas folhas para a girafa que deixou uma cabaça cheia de leite à margem do caminho.

A galinha despencou do céu, caindo como uma pedra. Cambaleando, ela pegou a cabaça cheia de leite de girafa e foi até a velha árvore.

- Aqui está o leite de girafa! Devolva o meu pintinho.

- Muito bem! - disse a velha árvore.

A galinha recuperou o seu filhote e voltou bem rápido para casa.

A partir deste dia, as galinhas não voaram mais, pois não há mais vento em suas asas.

 

sábado, 12 de fevereiro de 2022

O SOLDADO E O DIABO

 

Contam que, em outros tempos, há milhares e milhares de anos, quando nada  existia do que hoje existe, viveu em certa cidade um rico fidalgo, o barão de Macário,  tão poderoso e opulento, quão orgulhoso e mau.

Uma tarde, achava-se ele no seu escritório, contemplando avaramente a grande fortuna que acumulara, roubando aos pobres, às viúvas e aos órfãos, emprestando dinheiro a juros elevados, quando, de súbito, se sentiu tocado por um raio de bondade,  até então jamais experimentado pelo seu coração empedernido.

Lembrou-se que já estava velho; e que, com aquela idade, nunca fizera o menor benefício a pessoa alguma, sem ter dado jamais uma única esmola sequer. Arrependeu[1]se, então, do seu passado.

Nessa mesma tarde, Augusto, um infeliz sapateiro, seu vizinho, que vivia na maior pobreza, carregado de filhos, veio bater à porta, suplicando que lhe emprestasse  cem mil-réis, para se ver livre de uma penhora, e poder comprar o material que precisava para os trabalhos de sua profissão.

– Em vez de cem-mil réis, dar-te-ei um conto de réis, Augusto; disse o barão,  com a condição, porém, que, se eu morrer primeiro, você irá vigiar meu túmulo, nas três  primeiras noites depois do meu enterro.

O sapateiro prometeu, acossado como estava pela necessidade, e o fidalgo deu[1]lhe o conto de réis.

Dois meses depois, o barão de Macário morreu; e Augusto, lembrando-se de sua  promessa, como era homem de promessa, foi cumpri-la.

Duas noites passou ele em claro, no cemitério da cidade, cheio de medo, mas sem que ocorresse novidade alguma.

Na terceira e última, dirigia-se para ir velar junto no túmulo, quando avistou um  soldado encostado a um mausoléu.

– Eh! camarada! bradou. Que fazes aí? Não tens medo de estar no cemitério?

– Eu não tenho medo de coisa alguma, respondeu o militar. Vim para aqui, porque não tenho onde pousar esta noite.

Puseram-se ambos a conversar, enquanto o sapateiro contava ao soldado por que motivo ali se achava.

Passou-se o tempo, sem que eles o sentissem, quando o relógio da torre da igreja bateu compassadamente as doze badaladas fúnebres da hora terrível da meia-noite!...

Então, nesse momento, próximo deles surgiu de súbito, sem que soubessem de onde vinha, um homem vestido de vermelho, com os olhos chispando fogo, e cheirando fortemente a enxofre.

Era o diabo, que lhes ordenou:

– Retirem-se daqui, rapazes! A alma deste homem, que foi um grande usurário na  terra, pertence-me, e eu vim buscá-la.

– Senhor vestido de vermelho, disse o soldado, o senhor não é meu superior, nem mesmo um oficial. Não posso, pois, obedecer-lhe; e, assim, digo-lhe que se retire  daqui, pois aqui chegamos primeiro.

O diabo, vendo aquele militar destemido, não quis puxar barulho, e lembrou-se  de comprá-lo, perguntando-lhe quanto queria para se ir embora.

– Aceito o negócio que me propõe, sr. Satanás. Basta que me dê o dinheiro em  ouro, que uma das minhas botas puder conter.

O diabo saiu, e foi pedir emprestado a um judeu seu amigo, que morava naquela  mesma cidade.

Enquanto não vinha, o soldado puxando o rifle, cortou a sola do pé direito, e  colocou-a por cima de um túmulo aberto.

Quando Satanás chegou, vergado ao peso de um saco de ouro, esvaziou-a, peça  por peça, dentro da bota. O dinheiro caía todo na sepultura.

– Olé! disse o capataz do Inferno, esta bota parece-me mágica!

– Vá buscar mais ... mandou o soldado.

Mais de dez sacos foram assim trazidos pelo diabo. As moedas escorregavam pelo cano da bota, e iam cair no túmulo, de modo que a bota jamais se enchia. Satanás,  desesperado, ia trazendo saco por saco. Na ocasião em que carregava o décimo saco, cheio de moedas de ouro, eis que amanheceu de repente. O galo cantou; o sol rompeu; e o sino da igreja bateu alegremente, chamando para a missa.

Satanás deu um berro e desapareceu...

Estava salva a alma do barão de Macário...

O soldado e o sapateiro Augusto repartiram entre si a grande fortuna que o diabo deixara na cova; e foram viver ricos e felizes, empregando uma boa parte do dinheiro em dar esmolas aos pobres.

 

HISTÓRIAS DA AVOZINHA - Figueiredo Pimentel

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

A Roupa de Gandhi

 


 

Mahatma Gandhi provou que a "roupa não faz o homem". 

Ele só usava uma tanga a fim de se identificar com as massas simples da Índia.

Certa vez ele chegou assim vestido numa festa dada pelo governador inglês. 

Os criados não o deixaram entrar.

Ele voltou para casa e enviou um pacote ao governador, por um mensageiro.

Dentro continha um terno.

O governador ligou para a casa dele e perguntou-lhe o significado do embrulho.

O grande homem respondeu:

- Fui convidado para a sua festa, mas não me permitiram entrar por causa da minha roupa. 

Se é a roupa que vale, eu lhe enviei o meu terno.

 

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

Conversinha mineira

 


Conversinha mineira

- É bom mesmo o cafezinho daqui, meu amigo?

- Sei dizer não senhor: não tomo café.

- Você é dono do café, não sabe dizer?

- Ninguém tem reclamado dele não senhor.

- Então me dá café com leite, pão e manteiga.

- Café com leite só se for sem leite.

- Não tem leite?

- Hoje, não senhor.

- Por que hoje não?

- Porque hoje o leiteiro não veio.

- Ontem ele veio?

- Ontem não.

- Quando é que ele vem?

- Tem dia certo não senhor. Às vezes vem, às vezes não vem. Só que no dia que devia vir em geral não vem.

- Mas ali fora está escrito "Leiteria"!

- Ah, isto está sim senhor.

- Quando é que tem leite? 

- Quando leiteiro vem.

- Tem ali um sujeito comendo coalhada. É feita de quê? 

- O quê: coalhada? Então o senhor não sabe de que é feita a coalhada?

- Está bem, você ganhou. Me traz um café com leite sem leite. Escuta uma coisa: como é que vai indo a política aqui na sua cidade? :

- Sei dizer não senhor: eu não sou daqui.

- E há quanto tempo o senhor mora aqui?

- Vai para uns quinze anos. Isto é, não posso garantir com certeza: um pouco mais, um pouco menos.

- Já dava para saber como vai indo a situação, não acha?

- Ah, o senhor fala a situação? Dizem que vai bem.

- Para que Partido.

- Para todos os Partidos, parece.

- Eu gostaria de saber quem é que vai ganhar a eleição aqui.

- Eu também gostaria. Uns falam que é um, outros falam que outro. Nessa mexida...

- E o Prefeito?

- Que é que tem o Prefeito?

- Que tal é o Prefeito daqui?

- O Prefeito? É tal e qual eles falam dele.

-  Que é que falam dele?

- Dele? Uai, esse trem todo que falam de tudo quanto é Prefeito.

-Você, certamente, já tem candidato.

-Quem, eu? Estou esperando as plataformas.

- Mas tem ali o retraio de um candidato dependurado na parede, que his­tória é essa?

- Aonde, ali? Ué, gente: penduraram isso aí...

 

(Em Para Gostar de Ler, v. 7. São Paulo, Ática, 1979.)


terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

A lenda "O pacto do Gato com o Diabo"

 

Era uma vez uma mulher que morava sozinha com seu bebê e seu gato, em uma casinha no meio da floresta.

Um dia ela teve que sair, mas estava muito preocupada porque não queria deixar o bebê sozinho, mas também não podia levá-lo para onde estava indo. Então ela olhou para seu animal de estimação e disse:

"Meu gatinho, por favor, cuide do meu bebê, estarei de volta em breve." e saiu de casa.

Logo após a saída da mulher, o diabo apareceu na casa e o gato, ao vê-lo, pulou na frente do berço da criança sem se intimidar (pois é certo que os gatos são os únicos animais que não têm medo desse ser tão malvado).

-Que é o que você quer? - O gato perguntou.

"Eu vim levar esse bebê comigo!"

"Bem, você não pode, porque estou cuidando dele", disse o gato pouco antes de lamber a pata.

- Animal insolente, você não pode fazer nada para evitá-lo-.

-Muito bem-. disse o gato astutamente, "Eu proponho uma coisa a você: se você adivinhar o número exato de pelos que eu tenho em todo o meu corpo, você pode levar o bebê com você." Mas se você falhar, irá embora e nunca mais aparecerá por aqui. Vou te dar três chances de adivinhar. Nós temos um acordo?-.

O diabo, que nunca resistiu aos desafios, aceitou achando que seria fácil. E com muita paciência, ele começou a contar os pelos do gato.

"Um ... dois ... três ..." então um pássaro cantou na janela, distraindo-o e fazendo-o perder a conta.

"Você desperdiçou uma chance." disse o gatinho.

Zangado, o diabo começou a contar novamente.

-Duzentos ... trezentos- ... quatrocentos...

Naquele momento, o vento entrou pela janela e bagunçou os pêlos do gato, fazendo com que o malvado perdesse o rastro mais uma vez.

"Você já teve duas chances." o gato o lembrou.

Nervoso, o diabo começou a contar novamente, prometendo a si mesmo que nada o distrairia.

-Um milhão ... dois milhões ... três milhões- ...

Então o gato abanou suavemente o rabo, escovando o nariz, e o diabo espirrou ruidosamente, fazendo com que o gato soltasse os pelos.

-Você perdeu sua última chance. Agora saia desta casa e nunca mais volte.

O diabo ficou tão furioso por ter perdido, que ali mesmo deu um chilique de proporções épicas ... mas não podia tocar no bebê, porque um trato com o diabo é sempre cumprido ... por ambas as partes. Claro, ele voltou para o inferno jurando para o gato que um dia ele iria adivinhar quantos pelos ele tinha e quando isso acontecesse, sua vingança seria terrível.

Quando a mulher voltou para casa, sem saber de nada do ocorrido, ela beijou e abraçou seu filhinho, agradecendo o gatinho com um carinho atrás das orelhas por ser uma babá tão boa.

É por isso que os gatos até hoje trocam de pelos o tempo todo. Pois assim o diabo nunca cumprirá sua vingança por não saber quantos fios de pelos ele realmente tem.

Crédito: fatos reais e sobrenaturais

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

A VOZ QUE VEIO DO ALÉM

 


Em Santa Maria do Tabuí há muito tempo atrás, Seu Nicolino era o padeiro. Baixinho,  rechonchudo e careca. Um batalhador. De domingo a domingo, saía no lusco-fusco da madrugada para entregar o pão que iria forrar o estômago de muito cidadão tabuiense.

Seis horas de uma manhã cinzenta e triste, daquelas que prenunciam tempestade. Lá ia o Nicolino, passando pelo velho cemitério, carregando nas costas um bitelo dum jacá cheio de pães ainda  quentinhos. Ninguém pelas redondezas. Nenhuma alma viva a não ser ele. De vez em quando seu Nicolino, como que para espantar algum fantasma, gritava:

- Padeiro-ô-ô!...

Bem ao lado do cemitério mal cuidado, com os muros caindo, seu Nicolino, meio ressabiado, teve a impressão de ter sido chamado lá de dentro. Arrepiou-se todo. Mas controlou-se, equilibrou o coração e o jacá na cabeça. Ia saindo de fininho quando ouviu uma voz fraquinha, como um sopro de alma sem descanso, perguntar de dentro  do cemitério:

- Tem pão dormido?...

Seu Nicolino empacou. Cortou a respiração enquanto o coração ficava todo descontrolado, a mente queria ganhar mundo e as pernas viravam molambo. Queria andar mas não conseguia. O jacá de pães parecia pesar toneladas.

Assim que conseguiu botar em ordem o pensamento e começar a ganhar cor novamente, ouviu a mesma vozinha sem-vergonha:

- Tem pão dormido?...

Foi a conta para o coitado do padeiro. Pinchou bem longe o jacá de pães e... sebo nas canelas rua abaixo, numa correria despinguelada. Os cabelos que ainda restavam na cabeça lustrosa  lembravam um porco espinho.

E enquanto corria com as pernas curtas e balançando a pança, uma sonora gargalhada estridente quebrou o silêncio do cemitério deserto. Mais tarde, quando tudo se esclareceu, seu Nicolino queria porque queria dar um tiro no pobre do coveiro  que acordara de madrugada para trabalhar, estava com fome e apenas queria comer um pãozinho mais barato, o pão dormido...

domingo, 6 de fevereiro de 2022

A lição dos balões

 




Era uma tarde de domingo e o parque estava repleto de pessoas que aproveitavam o dia ensolarado para passear e levar seus filhos para brincar.

O vendedor de balões havia chegado cedo, aproveitando a clientela infantil para oferecer seu produto e defender o pão de cada dia.

Como bom comerciante, chamava atenção da garotada soltando balões para que se elevassem no ar, anunciando que o produto estava à venda.

Não muito longe do carrinho, um garoto negro observava com atenção.

Acompanhou um balão vermelho soltar-se das mãos do vendedor e elevar-se lentamente pelos ares.

Alguns minutos depois, um azul, logo mais um amarelo, e finalmente um balão de cor branca.

Intrigado, o menino notou que havia um balão de cor preta que o vendedor não soltava. Aproximou-se meio sem jeito e perguntou: "moço, se o senhor soltasse o balão preto, ele subiria tanto quanto os outros?"

O vendedor sorriu, como quem compreendia a preocupação do garoto, arrebentou a linha que prendia o balão preto e, enquanto ele se elevava no ar, disse-lhe:

"Não é a cor, filho, é o que está dentro dele que o faz subir."

O menino deu um sorriso de satisfação, agradeceu ao vendedor e saiu saltitando, para confundir-se com a garotada que coloria o parque naquela tarde ensolarada.


// fonte :
http://www.melodia.com.br



sábado, 5 de fevereiro de 2022

A Lenda das Areias

 


Vindo desde as suas origens nas distantes montanhas e após passar por inúmeros acidentes de terrenos nas regiões campestres, um rio finalmente alcançou as areias do deserto. E do mesmo modo como vencera as outras barreiras o rio tentou atravessar esta de agora, mas se deu conta de que mal suas águas tocavam a areia nela desapareciam.

Estava convicto, no entanto, de que fazia parte de seu destino cruzar aquele deserto, embora não conseguisse fazê-lo. Então uma voz misteriosa, saída do próprio deserto arenoso, sussurrou:

- O vento cruza o deserto, o mesmo pode fazer o rio.

O rio objetou estar se arremessando contra as areias, sendo assim absorvido, enquanto o vento podia voar, conseguindo dessa maneira atravessar o deserto.

- Arrojando-se com violência como vem fazendo não conseguirá cruzá-lo. Assim desaparecerá ou se transformará num pântano. Deve permitir que o vento o conduza a seu destino.

- Mas como isso pode acontecer?

- Consentindo em ser absorvido pelo vento.

Tal sugestão não era aceitável para o rio. Afinal de contas, ele nunca fora absorvido até então. Não desejava perder a sua individualidade. Uma vez a tendo perdido, como se poderá saber se a recuperaria mais tarde?

- O vento desempenha essa função – disseram as areias. – Eleva a água, a conduz por sobre o deserto e depois a deixa cair. Caindo na forma de chuva, a água novamente se converte num rio.

- Como é que posso saber que isto é verdade?

- Pois assim é, e se não acredita não se tornará outra coisa senão um pântano, e ainda isto levaria muitos e muitos anos; e um pântano não é certamente a mesma coisa que um rio.

- Mas não posso continuar sendo o mesmo rio que sou agora?

- Você não pode, em caso algum, permanecer assim – retrucou a voz. – Sua parte essencial é transportada e forma um rio novamente. Você é chamado assim ainda hoje por não saber qual é a sua parte essencial.

Ao ouvir tais palavras, certos ecos começaram a ressoar nos pensamentos mais profundos do rio. Recordou vagamente um estágio em que ele, ou uma parte dele, não sabia qual, fora transportada nos braços do vento. Também se lembrou, ou lhe pareceu assim, de que era isso o que devia fazer, conquanto não fosse coisa mais natural.

Então o rio elevou seus vapores nos acolhedores braços do vento, que suave e facilmente o conduziu para o alto e para bem longe, deixando-o cair suavemente tão logo tinham alcançado o topo de uma montanha, milhas e milhas mais longe. E porque tivera suas dúvidas o rio pôde recordar e gravar com mais firmeza em sua mente os detalhes daquela sua experiência. E ponderou:

- Sim, agora conheço a minha verdadeira identidade.

O rio estava fazendo seu aprendizado, mas as areias sussurraram:

- Nós temos o conhecimento porque vemos essa operação ocorrer dia após dia, e porque nós, as areias, nos estendemos por todo o caminho que vai desde as margens do rio até a montanha.

E é por isso que se diz que o caminho pelo qual o Rio da Vida tem de seguir em sua travessia está escrito nas Areias.

 

Do livro: Histórias da Tradição Sufi - Editora Dervish