Chuang-Tzu sonhou que era uma borboleta e, ao despertar, não sabia se era um homem que havia sonhado ser uma borboleta ou uma borboleta que agora sonhava ser homem.
Jorge Luis Borges, Buda, Rio de Janeiro: Editora
Bertrand Brasil, 1993
Chuang-Tzu sonhou que era uma borboleta e, ao despertar, não sabia se era um homem que havia sonhado ser uma borboleta ou uma borboleta que agora sonhava ser homem.
Jorge Luis Borges, Buda, Rio de Janeiro: Editora
Contam
os antigos que, num tempo distante e em terras mais distantes ainda, existia no
"Vale do Fogo Ardente", um jovem foguinho conhecido por FOGARÉU. E,
ao sul desse Vale, existia ali a "Terra da Garoa" onde vivia uma
Chuvinha linda, linda! Todas as tardes, Fogaréu observava do alto de uma
encosta rochosa a linda Chuvinha brincando lá longe, lançando suas águas de
encontro à mata, dando assim, com os raios do sol, a ilusão de uma linda
cachoeira de diamantes. Fogaréu se encantava com aquela cena e a cada dia, seu
coração ardia não de fogo, mas de paixão. Do outro lado, Chuvinha também se
derretia de paixão, olhando Fogaréu com suas chamas vermelhas balançando ao
vento.
Certa
vez, Fogaréu resolveu declarar sua paixão por Chuvinha à sua amiga Águia que
também, todas as tardes, sobrevoava lá do alto, o Vale do Fogo Ardente. Muito
comovida, a amiga Águia pensou em promover um encontro entre Fogaréu e
Chuvinha. Em meio a tanta alegria, Fogaréu de repente se abateu, porque não
sabia como isso poderia acontecer, já que no Vale do Fogo Ardente nunca podia
chover e na Terra da Garoa Fogaréu não podia entrar. A amiga Águia pensou,
voou, pensou e num bater de asas, EUREKA!!! Muito animada, lá de cima a amiga
Águia disse a Fogaréu:
-
Querida Chuvinha, queria poder te esquentar em meus braços mas, como o Destino
assim não me permite, saiba que apenas uma de suas gotas que cair sobre meu
coração, servirá como bálsamo para transformar essa paixão ardente em Amor
escaldante.
Todos
os animais se levantaram para aplaudir Fogaréu. A mamãe Ursa, mal se continha
de tanto chorar. O silêncio mais uma vez tomou conta da Terra do Faz de Conta.
Era a vez de todos ouvirem Chuvinha e, foi dessa forma que ela falou:
É
pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o Sol
É a noite, é a morte, é o laço, é o anzol
É peroba do campo, é o nó da madeira
Caingá, candeia, é o Matita Pereira
É madeira de vento, tombo da ribanceira
É o mistério profundo, é o queira ou não queira
É o
vento ventando, é o fim da ladeira
É a viga, é o vão, festa da cumeeira
É a chuva chovendo, é conversa ribeira
Das águas de março, é o fim da canseira
É o pé, é o chão, é a marcha estradeira
Passarinho na mão, pedra de atiradeira
É uma ave no céu, é uma ave no chão
É um regato, é uma fonte, é um pedaço de pão
É o
fundo do poço, é o fim do caminho
No rosto, o desgosto, é um pouco sozinho
É um estrepe, é um prego, é uma ponta, é um ponto
É um pingo pingando, é uma conta, é um conto
É um peixe, é um gesto, é uma prata brilhando
É a luz da manhã, é o tijolo chegando
É a lenha, é o dia, é o fim da picada
É a garrafa de cana, o estilhaço na estrada
É o
projeto da casa, é o corpo na cama
É o carro enguiçado, é a lama, é a lama
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um resto de mato, na luz da manhã
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
É
uma cobra, é um pau, é João, é José
É um espinho na mão, é um corte no pé
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
É
pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um belo horizonte, é uma febre terçã
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
Au,
edra, im, minho
Esto, oco, ouco, inho
Aco, idro, ida, ol, oite, orte, aço, zol
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
Um
sapateiro tinha ficado muito pobre, sem que lhe coubesse a culpa. E, por fim,
só lhe restava um pedaço de couro, para um único par de sapatos. Cortou-o à noite, a fim de aprontá-lo na manhã seguinte
e, como tinha a consciência tranquila, deitou-se
calmamente, fez as suas orações e adormeceu. No outro dia, depois da prece matinal, quando ia sentar-se para iniciar o
trabalho, viu os sapatos, prontinhos, em cima da mesa. Ficou assombrado, sem encontrar
explicação para aquilo. Tomou-os nas mãos e examinou-os cuidadosamente. Haviam
sido feitos com tal capricho, sem nenhum
ponto errado, que pareciam uma verdadeira obra de arte.
Logo
depois entrou um freguês e, como os sapatos lhe agradassem muito, pagou mais por eles. Com esse dinheiro, o
sapateiro pode comprar couro para dois pares.
Cortou-os à noite, disposto a trabalhar neles no dia seguinte. Mas não foi preciso: ao levantar-se, lá estavam eles,
prontinhos da silva. E também não faltaram os compradores, que lhe deram dinheiro suficiente
para que adquirisse couro para quatro pares.
Também a esses ele encontrou terminados no outro dia.
E
assim continuou acontecendo. O calçado que cortava à noite, encontrava
concluído na manhã seguinte.
Começou
a ter boa renda e, por fim, tornou-se um homem rico.
Certa
noite, pouco antes do Natal, o sapateiro, que já havia cortado o couro para o próximo dia, antes de deitar-se, disse
à mulher:
- Que tal se esta noite ficássemos acordados
para ver quem nos presta tão grande
auxílio?
A
mulher concordou e foi acender uma vela. Depois o casal escondeu-se num canto da sala, atrás de umas roupas ali
penduradas.
Ao
soar a meia-noite, apareceram dois ágeis e graciosos homenzinhos, muito pequeninos e sem roupa alguma, que se
sentaram à mesa do sapateiro. Apanharam todo
o couro cortado e, com seus dedinhos, se puseram a costurar, bater e puxar o
fio com tanta ligeireza que o sapateiro,
assombrado, mal podia acreditar nos seus olhos.
Não
cessaram até que tudo estivesse pronto e depois desapareceram rapidamente
No
dia seguinte, a mulher disse:
- Os anõezinhos nos tornaram ricos e devemos
mostrar-lhes a nossa gratidão. Com
certeza sentem muito frio, andando assim nuzinhos, sem nada em cima do corpo. Sabes de uma coisa? Farei para cada um deles
uma camisinha, um casaco, colete e calça, e um par de meias de tricô. Tu
poderás fazer-lhes uns sapatos.
Ao
que lhe respondeu o homem:
- Parece-me boa ideia!
E,
à noite, em vez de couro cortado, puseram os presentes sobre a mesa depois esconderam-se para ver o que fariam os
homenzinhos.
À
meia-noite chegaram eles, saltitando, e logo se dispuseram a começar o trabalho. Quando, porém, em vez de couro
cortado, encontraram as graciosas peças de
roupa, ficaram no princípio admirados, mas logo mostraram imensa alegria.
Vestiram-se
com incrível rapidez e, alisando as roupas no corpo, puseram-se a cantar:
“Não
somos rapazes bonitos e elegantes?
Por
que continuarmos sapateiros como antes?”
Depois
saltaram e dançaram, brincando em cima de cadeiras e bancos. Por fim, saíram dançando
porta fora. Desse dia em diante, nunca mais apareceram. Mas o sapateiro viveu bem pelo resto de sua vida e
sempre teve sorte em todos os negócios que
fez.
Vai-te, coca,
sai daqui
Para cima do telhado
Deixa o menino
Dormir sossegado
Nana, neném
Que a cuca vem pegar
Papai tá na roça
Mamãe foi cozinhar
A cuca é um
papão, um ente fantástico que mete medo às crianças causando pavor. Sua
aparência varia de lugar para lugar, mas a maioria das pessoas diz que ela tem
a forma de uma velha, bem velha e enrugada, corcunda, cabeleira branca,
toda desgrenhada, com aspecto assustador. Ela só aparece à noite, sempre
procurando por aquelas crianças que fazem pirraça e não querem ir dormir cedo.
Então, a cuca as coloca num saco, levando-as embora para não se sabe onde e faz
com elas não se sabe bem o que, mas, com toda certeza, trata-se de algo muito
terrível.
Ela também é
chamada de coca ou coco e assombra crianças de Portugal, Espanha, alguns países
africanos e tribos indígenas brasileiras. Em alguns lugares ela é um velho, em
outros, se parece com um jacaré ou uma coruja.
Existem
muitas canções e versos sobre a cuca. Luís da Câmara Cascudo, em Geografia dos
mitos do Brasil, indica a seguinte cantiga, comum no Nordeste brasileira:
Dorme, neném
Se não a cuca vem
Papai foi pra roça
Mamãe logo vem
Não era muito bonito, pois, como todos os espantalhos, foi feito para espantar pássaros e outros bichos que aparecem nas roças de milho, trigo e outras plantações… Mas esse Espantalho especial era muito especial mesmo.
Ele não queria assustar ninguém. Ele queria mesmo é fazer
amigos. Muitos amigos.
Então tentou colocar um sorriso estampado na cara, para se mostrar amigável,
mas os pássaros, muito ariscos, não acreditaram e nem se aproximaram, mas o
nosso Espantalho especial não desistiu, e continuou com o sorriso.
Muito tempo se passou e certo dia, algumas borboletas batiam
as asas por aquele milharal, quando perceberam o sorriso estampado na cara.
Ficaram muito curiosas.
Imaginem só!
Onde já se viu um Espantalho com tamanho sorriso estampado na
cara?
Aproximaram-se, o Espantalho abriu ainda mais o sorrisão e elas quiseram saber
o porquê de tal sorriso e o Espantalho respondeu: - Ah! É que eu quero muito,
muito mesmo, ter um montão de amigos, mas todo mundo se assusta quando me vê!
- Mas com esse sorrisão todo… Tenho certeza que logo, logo vai estar cercado
por um montão de amigos.
Não deu outra. Nosso Espantalho continuou com aquele sorriso
estampado na cara e logo estava mesmo por um montão de amigos. O Espantalho
ficou muito feliz.
Quem não ficou nada feliz foi o dono do milharal.
Ah! Ele ficou muito zangado quando viu aquele bando de
pássaros, toupeiras e outros bichos, brincando e devorando seus milhos.
De tão zangado, arrancou o Espantalho do pau onde ficava preso e o deixou caído no meio da plantação. Logo veio uma chuva forte e os bichos correram para se abrigar, mas o pobre Espantalho não podia correr, não podia se voar e nem mesmo se arrastar. Foi aí que todos os bichos se juntaram e foram buscar o novo amigo para se abrigar com eles e desde então, nunca se sabe onde o nosso Espantalho pode estar, pois os bichos gostaram tanto dele e ele dos bichos, que agora ele vive assim…
Hora voando com os pássaros, hora debaixo da terra com as toupeiras e onde mais
seus amigos bichos puderem leva-lo, transformando-o no Espantalho mais alegre,
e sorridente, de todo o mundo.
MARIA HELENA CRUZ
Houve outrora,
na Babilônia, um pobre e modesto alfaiate chamado Enedim, homem inteligente e trabalhador,
que não perdia a esperança de vir a ser riquíssimo.
Como e onde,
no entanto, encontrar um tesouro fabuloso e tornar-se, assim, rico e poderoso?
Um dia, parou
na porta de sua humilde casa, um velho mercador da fenícia, que vendia uma
infinidade de objetos extravagantes.
Por
curiosidade, Enedim começou a examinar as bugigangas oferecidas, quando
descobriu, entre elas, uma espécie de livro de muitas folhas, onde se viam
caracteres estranhos e desconhecidos.
Era uma
preciosidade aquele livro, afirmava o mercador, e custava apenas três dinares.
Era muito
dinheiro para o pobre alfaiate, razão pela qual o mercador concordou em vender-
lhe o livro por apenas dois dinares.
Logo que ficou
sozinho, Enedim tratou de examinar, sem demora, o bem que havia adquirido.
Qual não foi
sua surpresa quando conseguiu decifrar, na primeira página, a seguinte legenda:
"o segredo do tesouro de Bresa."
Que tesouro
seria esse
Enedim
recordava vagamente de já ter ouvido qualquer referência a ele, mas não se
lembrava onde, nem quando.
Mais adiante
decifrou: "o tesouro de Bresa, enterrado pelo gênio do
mesmo nome
entre as montanhas do Harbatol, foi ali esquecido, e ali se acha ainda, até que
algum homem esforçado venha encontrá-lo."
Muito
interessado, o esforçado tecelão dispôs-se a decifrar todas as páginas daquele
livro, para apoderar-se de tão fabuloso tesouro.
Mas, as
primeiras páginas eram escritas em caracteres de vários povos, o que fez com
que Enedim estudasse os hieróglifos egípcios, a língua dos gregos, os dialetos
persas e o idioma dos judeus.
Em função
disso, ao final de três anos Enedim deixava a profissão de alfaiate e passava a
ser o intérprete do rei, pois não havia na região ninguém que soubesse tantos
idiomas estrangeiros.
Passou a
ganhar muito mais e a viver em uma confortável casa.
Continuando a
ler o livro encontrou várias páginas cheias de cálculos, números e figuras.
Para entender
o que lia, estudou matemática com os calculistas da cidade e, em pouco tempo,
tornou-se grande conhecedor das transformações aritméticas.
Graças aos
novos conhecimentos, calculou, desenhou e construiu uma grande ponte sobre o
rio Eufrates, o que fez com que o rei o nomeasse prefeito.
Ainda por
força da leitura do livro, Enedim estudou profundamente as leis e princípios
religiosos de seu país, sendo nomeado primeiro-ministro daquele reino, em
decorrência de seu vasto conhecimento.
Passou a viver
em suntuoso palácio e recebia visitas dos príncipes mais ricos e poderosos do
mundo.
Graças a seu
trabalho e ao seu conhecimento, o reino progrediu rapidamente, trazendo
riquezas e alegria para todo seu povo.
No entanto,
ainda não conhecia o segredo de Bresa, apesar de ter lido e relido todas as
páginas do livro.
Certa vez,
teve a oportunidade de questionar um venerando sacerdote a respeito daquele
mistério, que sorrindo esclareceu:
"O
tesouro de Bresa já está em seu poder, pois graças ao livro você adquiriu
grande saber, que lhe proporcionou os invejáveis bens que possui. Afinal, Bresa
significa saber e Harbatol quer dizer trabalho."
Com estudo e
trabalho pode o homem conquistar tesouros inimagináveis.
O tesouro de
Bresa é o saber, que qualquer homem esforçado pode alcançar, por meio dos bons
livros, que possibilitam "tesouros encantados" àqueles que se dedicam
aos estudos com amor e tenacidade.
Uma menina estava conversando com a sua professora.
A professora disse que era fisicamente impossível que uma baleia engula um ser humano porque apesar de ser um mamífero muito grande, a sua garganta é muito pequena.
A menina afirmou que Jonas foi engolido por uma baleia.
Irritada, a professora repetiu que uma baleia não poderia engolir nenhum ser humano; era fisicamente impossível.
A menina, então disse: - 'Quando eu morrer e for ao céu, vou perguntar a Jonas'.
A professora lhe perguntou:- 'E o que vai acontecer se Jonas tiver ido ao inferno?
'A menina respondeu: - 'Aí a senhora pergunta.'
Revista 'Pais e Filhos', Pedro Bloch
Ary Lobo
Caveira quem te matou
Olha foi a língua meu senhor
Eu bem que te dizia
Que deixasse a vida alheia
Que a justiça divina vê tudo e não se encandeia
Quem faz mal ao seu vizinho
Seu mal já vem no caminho
Você hoje esta penando
Por ser falso e ser ruim
Quando eu te avisava você se virava contra mim
Eu bem que te dizia
Inveja matou Caim
Relatada por Zimmer em Filosofias da Índia, a partir de The Gospel of Sri Ramakrishna
Um filhote de tigre fora criado entre cabras. Prenhe e balofa, sua mãe passara vários dias à procura de uma presa sem nada conseguir, até que deparou com um rebanho de cabras selvagens. Estava faminta, o que explica a violência de sua investida. O esforço do ataque precipitou o parto e ela acabou morrendo de esgotamento. As cabras, que haviam se dispersado, retornaram ao lugar e lá encontraram um filhote de tigre choramingando ao lado de sua mãe. Levadas pela compaixão maternal adotaram a débil criatura; amamentaram-na junto com suas próprias crias e dela cuidaram ternamente. O animal cresceu e sobreveio a recompensa pelos cuidados dispensados, pois o pequeno companheiro aprendeu a linguagem das cabras, adaptou sua voz àquele som suave e mostrou tanto afeto quanto qualquer cabrito. A princípio teve alguma dificuldade para mastigar com seus dentes pontiagudos as tenras folhas do pasto, mas logo se acostumou. A dieta vegetariana o mantinha enfraquecido, conferindo ao seu temperamento uma notável doçura.
Certa
noite - quando o órfão, crescido entre as cabras, já havia alcançado a idade da
razão - o rebanho foi atacado, desta vez por um velho e feroz tigre. As cabras
se dispersaram, porém o jovem permaneceu onde estava, sem medo ainda que
surpreso. Achando-se face a face com a terrível criatura da selva, fitou-o
estupefato. Passado o primeiro impacto, começa a tomar consciência de si.
Desamparado, berra, arranca folhas de pasto e se põe a mastigar, ante o olhar
perplexo do outro.
De
repente, o poderoso intruso pergunta:
_ Que fazes aqui entre as cabras?! Que estás mastigando?!
A resposta foi um berro. O outro, indignado, disse num rugido:
_ Por que emites este som estúpido?!
E antes que o pequeno pudesse responder, apanhou-o pelo cangote e o sacudiu
como se quisesse fazê-lo recobrar a lucidez. O tigre da selva carregou o
assustado animal até um lago próximo, soltando-o na margem e obrigando-o a
olhar para a superfície espelhada da água, então iluminada pela lua.
_ Vê estas duas imagens! Não são semelhantes? Tens a cara típica de um tigre, é
como a minha. Por que te iludes pensando seres um cabrito? Por que berras? Por
que mastigas pasto?!
O
tigrezinho, incapaz de responder, continuava a olhar espantado comparando as
duas imagens refletidas. Inquieto, apoiu-se numa e logo noutra pata, e lançou
um grito de aflitiva incerteza. A velha fera novamente o carregou porém agora
até seu covil, onde lhe ofereceu um pedaço de carne crua e sangrenta, sobra de
uma refeição anterior. Ante a inusitada visão, o jovem tremeu de repugnância
mas o velho, ignorando o fraco gesto de protesto, ordenou rudemente:
_ Come! Engole!
O
outro resistiu, porém a horripilante carne foi forçada a passar entre seus
dentes; o tigre vigiava atentamente seu aprendiz que tentava mastigar e
preparava-se para engolir. Sua não-familiaridade com a consistência da carne
causava-lhe certa dificuldade, e estava prestes a emitir outro débil berro
quando começou a experimentar o gosto do sangue. Excitado, devorou o restante
com avidez, sentindo um prazer incomum à medida que o novo alimento descia-lhe
pela garganta e atingia o estômago. Uma força estranha e quente irradiava de
suas entranhas trazendo-lhe uma sensação eufórica e embriagadora. Estalou a
língua, lambeu o focinho satisfeito e, erguendo-se, deu um largo bocejo como se
estivesse despertando de uma longa noite de sono - uma noite que o manteve sob
feitiço por anos e anos. Espreguiçando-se, arqueou as costas, estendeu e abriu
as garras. Sua cauda fustigava o solo e, de súbito, irrompeu de sua garganta o
triunfal e aterrorizante rugido de um tigre.
O
inflexível mestre, que estivera observando de perto, sentia-se recompensado. A
transformação, de fato, acontecera. Ao cessar o rugido, perguntou severamente:
_ Agora sabes quem realmente és?
E para completar a iniciação de seu jovem discípulo no saber secreto de sua
própria e verdadeira natureza, acrescentou:
_ Vem! Vamos caçar juntos pela selva.