domingo, 17 de maio de 2015

O Eclipse do Sol


        O CAPITÃO AO PRIMEIRO SARGENTO
                Amanhã haverá eclipse do Sol, o que não acontece todos os dias. Mande formar a Companhia, às sete horas, em uniforme de instrução.Todos poderão, assim, observar o fenômeno do qual darei explicações. Se chover, nada se poderá ver e os homens ficarão em formação no alojamento, para a chamada.
        O PRIMEIRO SARGENTO AO SEGUNDO SARGENTO
                Por ordem do sr. capitão, haverá eclipse do Sol, amanhã. O capitão dará explicações às sete horas, o que não acontece todos os dias. Se chover, não haverá chamada lá fora. O eclipse será no alojamento.
        O SEGUNDO SARGENTO AO CABO
                Amanhã, às sete horas virá ao quartel um eclipse do Sol em uniforme de passeio. Se não chover, o que não acontece todos os dias, o capitão dará, no alojamento, as explicações.
        O CABO AOS SOLDADOS
                Atenção: Amanhã, às sete horas, o capitão vai fazer um eclipse do Sol em uniforme de passeio e dará as explicações. Vocês deverão entrar formados no alojamento, o que não acontece todos os dias. Caso chova, não haverá chamada.
        ENTRE OS SOLDADOS
                O cabo disse que a manhã o sol, em uniforme de passeio, vai fazer eclipse para o capitão, que lhe pedirá explicações. A coisa é capaz de dar uma bela encrenca, dessas que acontecem todos os dias. Deus queira que chova.
*            *            *            *            *            *            *
                Esta não é apenas uma simples piada, mas um reflexo da realidade. Demonstra que nem sempre ouvimos bem o que nos dizem e a facilidade com que deturpamos os fatos.

Citado em:
BORAM, Pe. Jorge.
"Curso de Dinâmica para Liderança Cristã"
Paulinas

4ª ed., pág.117-118

sábado, 21 de março de 2015

Preguiça


Preguiça não lava o umbigo 

E, se lava, não enxuga.
Preguiça não cozinha feijão 
E, se cozinha, pede a alguém pra comer por ela.
Preguiça não faz caminhadas 
E, se faz, vai carregada.
Preguiça não compra livros 
E, se compra, pede que o livro já venha lido.

Preguiça sonha que o mundo acabe 
em almofadas macias para ela se recostar
em baldes de sorvete de creme para ela 
se arregalar.

Tangolomango








Eram oito formiguinhas morando num tagete 

Deu tangolomango numa e das oito ficaram sete.
Das sete que restaram 
Uma se afogou no orvalho 
Outra partiu com um bem-te-vi e ficaram cinco que eu vi.
Dessas cinco que restaram 
Uma tropeçou num pato e das cinco ficaram quatro.
Das quatro que ficaram 
Uma foi imitar o cabrito montês 
Quebrou o pescoço, meu bem, e das quatro ficaram três.
Destas três que restaram 
Uma foi passear na lua 
Deu o tangolomango nela e eis que ficaram duas.


Destas duas que ficaram 

Uma resvalou na espuma e restou apenas uma.
Esta uma que ficou foi jogar paciência
Deu tangolomango nela e acabou-se a descendeência

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Chuva e sol


Adelina Lopes Vieira

Junta ao pendor do abismo e suster-se sozinha;
quase a tombar no mal, lutar vencendo o mal,
é difícil, é belo! Eu vi exemplo igual
na ingênua candidez de linda criancinha.

Disse a mamãe, um dia, à loura Georgeana:

— Se até anoitecer, eu não te ouvir chorar,
nem dar gritos, prometo, amor, ir-te comprar
uma nenê gentil, d'olhos de porcelana.

Apenas isto ouviu, a bela pequenita

dança e salta a cantar, com tal sofreguidão,
que entontecendo, cai, ao comprido, no chão.
Esqueceu-lhe a promessa. Ei-la que chora e grita.

— Prantos? adeus boneca. Ouvindo esta ameaça,

ergue-se Georgeana e diz muito ligeira,
mudando o choro em riso, e com imensa graça.
— Chorei... por brincadeira...

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

O menino que não acreditava no Senhor Noel



Todo ano era a mesma coisa: Carlinhos pedia de Natal o videogame mais novo que existisse e acabava ganhado de tudo, menos o videogame. E ele sabia bem de quem era a culpa. Não de Papai Noel, pois desde que vira os pais escondendo alguns embrulhos atrás do volumoso armário colonial da sala de visitas, não acreditava mais no velhinho de vermelho. A culpa era daquela amiga pedagoga que insistia em dizer que videogames eram prejudiciais e que as crianças deveriam receber somente livros e brinquedos tradicionais. E dos pais por aceitar tais conselhos.

Era tão injusto; a irmãzinha, Maria sempre conseguia o que queria. Escrevia as cartas que colocava no correio junto com a mãe (que fazia tanta questão de dizer que não ele não deveria mentir. Mas o que era aquilo então? Verdade é que não!) e no natal recebia exatamente o que pedira: bonecas de todas as formas e cores. Nada de brinquedos educacionais.

Certa feita, resolvera confrontar os pais. Os dois, primeiro tentaram insistir na “Teoria do velhinho de vermelho”, coisa que ele rechaçou de maneira definitiva. Depois, bancaram os desentendidos. Juravam que haviam comprado videogames, como havia sido requisitado e não entendiam o que havia dado errado. Aquela desculpa estava tão bem ensaiada, que o pai culpava a mãe e a mãe culpava o pai.

Ao completar onze anos de idade, acreditando já ser definitivamente gente, chamou-os e disse de maneira bem clara: ou naquele natal ganhava o videogame ou não iria de forma alguma à festa de natal na casa da Vó Ana. Pior, se fosse não tomaria banho. Pior, ficaria dias, semanas, meses sem tomar banho. E, não contente, enfiaria o dedo no nariz e o limparia na bandeja de farofa, bem na frente da tia-avó Nilza, aquela com mania de limpeza que irritava todo mundo. Depois daria uns cascudos no primo Wilsinho, que era muito chato e chorão e levaria uma tesoura bem afiada para cortar um dos cachos dourados da prima Elisa, que todo mundo tanto adorava. E acordaria mais cedo do que todo mundo para espalhar o jornal diário pelos outros apartamentos. E...

Tanto ameaçou, tanto prometeu fazer que não houve remédio. Os pais o levaram para a loja, compraram o videogame, embrulharam e na frente dele, esconderam atrás do volumoso armário colonial da sala de visitas. Mas a mãe deixou bem claro: só ganharia o presente na noite de natal e se, por causa dele, Mariazinha desconfiasse da inexistência do velhinho de vermelho, ele ganharia os presentes dela e ela, o videogame. Isso, não queria, pois havia visto o tipo de presentes educativos Mariazinha ganharia. Naquele ano, nada de bonecas.

Estava tão feliz, que até ajudou Mariazinha a escrever a carta para o Noel. E para se garantir e ajudar a aumentar a farsa, ele mesmo escreveu uma carta. Não resistiu e fez uma lista daqueles presentes que não queria ganhar. Rindo-se muito, colocou as duas cartas no correio e esperou com ansiedade da noite de natal.

Quando voltaram da festa na casa da Vó Ana, estava tão excitado que não conseguia dormir. Havia tomado escondido, duas taças de vinho, o que considerou justo, pois considerava um adulto, alguém que conseguisse convencer outro adulto de alguma coisa. A casa estava silenciosa e escura. Levantou-se e ficou andando, louco para jogar videogame. Viu-se levado para a sala de visita, onde ficava montada a árvore de natal e o presépio. Uma corrente fria vinda da janela aberta o alarmou. Foi quando viu um vulto de um velhinho vermelho saltando pela janela para um trenó que flutuava no ar, levando os presentes que os pais compraram e deixando no lugar as bonecas e os presentes que ele e Mariazinha haviam pedido nas cartas e resmungando:

- Esses pais modernos, além de se intrometerem no meu trabalho, ainda fazem mal feito...
Fonte: Instituto Cultural Aletria

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Bentevi




Só sabe dizer o seu nome malicioso para avisar que alguém se aproxima dele. O bem-te-vi pequeno (Pitangus lictor) também possui mania idêntica. Nosso Senhor Jesus Cristo não gostava deles. Tanto gritaram bem-te-vi, que os soldados do rei Herodes iam descobrindo o esconderijo onde Nossa Senhora se abrigava durante a fuga para o Egito. O bem-te-vi anuncia visitas. Pergunta-se: Quem tu viste, bem-te-vi? Homem ou mulher? Se o pássaro canta imediatamente, é homem e, se demorar, é mulher.

Ai, meu passarinho verde
Ai, meu lindo bem-te-vi
Eu já sei que vai cantar
E por isso eu fico aqui

Cala a boca, passarinho
Cala a boca, bem-te-vi
Não me faça recordar
Dum amor que já perdi

Fuga para ao Egito

FUGA PARA O EGITO



Assim que o Menino Jesus nasceu, a Virgem Maria resolveu fugir pra bem longe, onde ninguém pudesse maltratar seu filho. Mas, por todos os lugares por onde ela entendia de passar, só encontrava soldados, que estavam em sua perseguição. É que tinha um feiticeiro com muito ciúme do Menino Jesus, contando pro rei Herodes todos os lugares por onde ela imaginava passar. Por causa disso, todos os feiticeiros são amaldiçoados.
A Virgem foi indo, se escondendo, até que chegou numa ponte. Mas a ponte estava guardada por quatorze soldados: seis na entrada, seis na saída e, bem no meio dela, dois. E acontece que não tinha outro caminho e, por isso, a Santa Virgem começou a chorar e a clamar. De repente, ela olhou assim prum lado da estrada e viu uma velhinha de cocre numa moita, fazendo caretas pra ela e chamando ela pra mais perto. Nossa Senhora perguntou:
- Que é que você quer, minha boa velhinha?
- Quero ver o que a senhora vai levando aí no colo – respondeu a velha.
Nossa Senhora pegou e mostrou o menino. Quando a velhinha viu a criança mais linda deste mundo, ficou admirada e disse:
- Parece uma flor; então, como flor há de passar essa ponte.
Ela arrumou um avental, colocou o menininho bem no fundo e cobriu tudo com ervas virtuosas. As ervas se transformaram em flores , quando os soldados foram revistar o avental, só encontraram flores.
Foi assim que o Menino Deus escapou do malvado rei Herodes, foi crescer no mato no meio dos bichos e das plantas, e que as feiticeiras, por piores que sejam, no fim sempre têm salvação.

(Estórias de Nosso Senhor Jesus Cristo colhidas no estado de São Paulo, por Oswaldo Elias Xidieh. Narrativas populares; estórias de Nosso Senhor Jesus Cristo e mais São Pedro andando pelo mundo.) 

(História contada no Sarau de Jacareí, pelo grupo da contadora Cíntia Moreira)

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

O Poeta

                                                                          (Manoel de Barros)

Vão dizer que não existo propriamente dito
Que sou um ente de sílabas.
Vão dizer que eu tenho vocação para ninguém.
Meu pai costumava me alertar:
Quem acha bonito e pode passar a vida a ouvir o som
das palavras
Ou é ninguém ou é zoró.
Eu teria treze anos.
De tarde fui olhar a Cordilheira dos Andes que
se perdia nos longes da Bolívia
E veio uma iluminura em mim.
Foi a primeira iluminura.
Daí botei meu primeiro verso:
Aquele morro bem que entorta a bunda da paisagem.
Mostrei a obra pra minha mãe.
A mãe falou:
Agora você vai ter que assumir suas irresponsabilidades.
Eu assumi: entrei no mundo das imagens.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

O jabuti e o chacal




 A filha de um famoso rei era tão bonita que muitos habitantes da região queriam se casar com ela. Dia e noite chegavam pretendentes de terras distantes carregados dos mais belos presentes para a linda moça. Mas o pai tinha resolvido que só daria a filha em casamento àquele que suportasse bravamente os mais difíceis desafios.
            Depois de vários meses de disputa, foram selecionados para a prova final o Jabuti e o Chacal.
            O rei já não sabia que tarefa escolher para eles, quando o Jabuli, pedindo licença, disse que tinha uma sugestão:
            - Para saber qual de nós dois é o mais corajoso, vamos ver quem consegue comer a papa de milho mais quente.
           O rei gostou da ideia e o Chacal, meio desconfiado, acabou concordando também.
No dia seguinte, desde as primeiras horas da manhã, os aldeões com as mulheres e crianças já estavam sentados no chão formando um grande círculo no largo da aldeia para assistir a ultima prova. Logo que o rei, acompanhado da esposa e da filha, usando seus melhores e mais coloridos trajes, tomaram seus lugares, protegidos do sol por uma majestosa árvore, a multidão, inquieta, começou a gritar para que a disputa começasse. No meio do alarido ouviam-se as vozes dos homens fazendo apostas, alguns no Jabuti, outros no Chacal.
Finalmente, chegou o grande momento. Os dois candidatos avançaram em direção ao rei. Este levantou-se e pedindo silêncio, perguntou:
- Qual de vocês quer ser o primeiro?
O Jabuti. dando um passo à frente. respondeu rapidamente: - Eu quero começar, majestade!
O Chacal suspirou aliviado. pois não desejava ser o primeiro mesmo.
As atenções se voltaram então para o cozinheiro da aldeia, que desde a noite anterior havia deixado um enorme caldeirão de mingau de milho fervendo numa fogueira armada no centro do pátio. Ele pegou uma concha de madeira, muito comprida, e a mergulhou no caldeirão que soltava fumaças de tão quente. O cozinheiro retirou a concha. encheu uma tigela de barro e passou-a para o Jabuti.
Este pegou o recipiente com muito cuidado e disse:
- Para que todos aqui não duvidem da minha coragem, vou passar a tigela na frente de cada um de vocês para que verifiquem com seus próprios olhos como esta papa de milho está fervendo. E, lentamente. mostrou a fumegante tigela: inicialmente para o rei. a rainha e a filha. depois deu uma volta completa no círculo humano, fazendo a mesma coisa com a multidão reunida ali. Quando terminou o passeio, o mingau já estava praticamente morno e não teve problema nenhum para engoli-lo de uma vez só, em meio aos aplausos do público.
- Chacal - disse o rei - agora é você.
O rival carniceiro tremia tanto que, ao receber a tigela escaldante, deixou-a cair no chão queimando os pés. Não aguentando a dor fugiu pulando numa perna só. vaiado estrepitosamente pelos aldeões.

E assim o Jabuti casou com a filha do rei.

(Bichos da África 4, Rogério Andrade Barbosa)

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

9°Encontro Regional de Contadores de Histórias

Para quem gosta de histórias acontece em março, do dia 10 a 16, em Santa Bárbara d'Oeste, SP, o 
9º Encontra Conto - Encontro Regional de Contadores de Histórias. 

Informações e inscrições: www.encontraconto.blogspot.com 


Projeto realizado com apoio do Governo do Estado de São Paulo
Secretaria de Estado da Cultura – Programa de Ação Cultural - 2013