terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

A Lenda do Fogo



Nos tempos antigos as tribos de índios não conheciam o fogo. Eles sentiam muito frio e medo à noite pela falta dele. Então, um dia o pajé (o feiticeiro da tribo) escolheu um forte guerreiro, o mais corajoso de todos, e o encarregou de ir buscar o fogo no céu.
Japu foi o escolhido. O ritual começou: uma noite inteira de danças, rezas e contação de histórias foi feita. E naquela noite, por meio das feitiçarias do pajé, Japu se transformou num belo pássaro azul com penas cintilantes e bico da cor do fogo. No primeiro raio de sol, Japu voou para o céu de Tupã (o deus sol), para cumprir sua missão.

Lá, ele lutou muito com os raios, mas venceu. Assim, o Deus Tupã lhe deu uma centelha de seu fogo divino, a qual ele trouxe no bico. Quando chegou na terra, Japu finalmente deu aos homens aquele presente precioso.

Quando o pajé o desencantou, ele voltou à forma humana. Mas que tristeza! Japu percebeu que tinha ficado com o rosto todo deformado e queimado pelo fogo celeste! Ficou tão triste e envergonhado que pediu ao pajé que o encantasse outra vez. O pajé o atendeu e ele virou para sempre um pássaro azul com o bico da cor do fogo!
Então, quando vemos um pássaro azul com bico da cor do fogo passando por perto, já sabemos que é Japu trazendo o presente precioso fogo celeste para nós.


Adaptação de Tia Lourdes – Mitos e Lendas. Histórias que o povo canta. Revista Família Cristã, julho de 1989.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

O Quero quero



A lenda do quero-quero tem um fundo religioso, representando o castigo para aqueles que se recusam a ouvir e a viver a palavra de Deus.

Fugindo de Herodes, que determinara a matança de todas as crianças recém-nascidas, a Santa Família partiu em fuga para o Egito. Para não ser vista pelos soldados perseguidores, viajava à noite e se escondia de dia. Na longa caminhada noturna, era necessário que tudo se fizesse no mais completo silêncio. Silêncio esse, respeitado por todos os animais, encontrados pelo caminho. Era como se estivessem eles obedecendo a palavra de Deus, na proteção de Jesus, Maria e José.

Todos menos um: o implicante quero-quero. Este não parava de falar, e por sua desobediência, recebeu como castigo a tagarelice eterna, não parando mais de gritar, inclusive alertando os caçadores quanto à sua presença e correndo o risco de ser caçado.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

O Gato e o Rato



O Gato e o Rato tornaram-se amigos. Um dia combinaram fazer uma viagem a uma terra distante. Pelo caminho tinham de atravessar um rio.
__ Por onde passaremos? __ perguntou o Gato. __ O rio leva muita água.
O Rato respondeu:
__ Não faz mal. Fazemos um barco.
O Gato concordou e logo ali os dois colheram uma grande raiz de mandioca e fizeram um barco com ela. Meteram o barco na água, entraram para ele e começaram a atravessar o rio.
Pelo caminho começaram a ter fome e repararam que não tinham levado comida.
O Gato perguntou então:
__ O que é que nós havemos de comer?
__ Não te preocupes, amigo Gato, porque podemos comer o nosso próprio barco.
E os dois começaram a comer o barco. O Gato pouco comeu porque a mandioca não lhe sabia bem, mas o Rato comeu, comeu, comeu até que acabou por furar o barco, que foi ao fundo.
O Gato e o Rato tiveram que nadar até à margem, mas, enquanto o Rato nadava bem e depressa, o Gato que mal sabia nadar, só com muita dificuldade e muito envergonhado é que conseguiu chegar a terra.
O Gato olhou então para o Rato e viu que ele estava com a barriga bem cheia por causa da mandioca, enquanto ele continuava cheio de fome. Por isso lembrou-se de comer o Rato.
__ Sinto muita fome, Rato. Vou ter de te comer.
__ Está bem __ disse o Rato espertalhão __ mas olha que eu estou muito sujo. É melhor ir primeiro lavar-me. Espera aí.
O Rato afastou-se e desapareceu. O Gato ainda hoje está à espera.



Contos Moçambicanos: INLD, 1979
http://www.terravista.pt/Bilene/1494/gato1.html

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

O Preço do Sonho



Quando Nosso Senhor andava no mundo chegou por uma noite na casa de um sertanejo pobre mas bom. O homem agasalhou os "pelingrinos" muito bem. Mas só tinha para cear um pedaço de queijo. Nosso Senhor combinou que o queijo seria de quem tivesse o sonho mais bonito. 


Lá para as tantas, São Pedro levantou-se e comeu-o. Pela manhã Nosso Senhor disse ter sonhado com o Céu, os anjos cantando e os santos rezando. São João tinha sonhado com o Inferno e disse como era aquele canto cheio de fogo e miséria. 

– E você, Pedro?

- Eu, - disse o apóstolo – a bem da verdade não sonhei. Vi o Mestre no Céu e João no Inferno e pensei que não precisavam de mais nada deste mundo. Fui-me ao queijo e passei-o no dente!

(CASCUDO, Luís da Câmara. Literatura oral no Brasil)

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Fio de Linha


                                                                       Bia Bedran

Você inventa uma história
Com direções diferentes,
Pedaços de coisas
Lembranças pequenas
Vontade e animação...
Histórias que segue com a gente
Mas a estrada ainda é

Neblina, neblina
E adivinhação                        
Mas olha a neblina, neblina
E adivinhação

Mas não é só brincadeira,
Que brincando tudo aparece
E tem cara feia,
E bonita,
E outro destino tece

E tem cara feia,
E bonita,
E outro destino tece

Num fio de linha,
Amarra-se o que é importante
Num fio de linha.
Segura essa ponta bem firme
Nas tuas mãos
Então a história começa

E vai e volta e vai e vem

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Cachorro Velho


Uma velha senhora foi para um safari na África e levou seu velho vira-lata com ela.
Um dia, caçando borboletas, o velho cão, de repente, deu-se conta de que estava perdido.
Vagando a esmo, procurando o caminho de volta, o velho cão percebe que um jovem leopardo o viu e caminha em sua direção, com intenção de conseguir um bom almoço ...
O cachorro velho pensa:
-Oh, oh! Estou mesmo enrascado ! Olhou à volta e viu ossos espalhados no chão por perto. Em vez de apavorar-se mais ainda, o velho cão ajeita-se junto ao osso mais próximo, e começa a roê-lo, dando as costas ao predador ...
Quando o leopardo estava a ponto de dar o bote, o velho cachorro exclama bem alto: -Cara, este leopardo estava delicioso ! Será que há outros por aí ?
Ouvindo isso, o jovem leopardo, com um arrepio de terror, suspende seu ataque, já quase começado, e se esgueira na direção das árvores.
-Caramba! pensa o leopardo, essa foi por pouco ! O velho vira-lata quase me pega!
Um macaco, numa árvore ali perto, viu toda a cena e logo imaginou como fazer bom uso do que vira: em troca de proteção para si, informaria ao predador que o vira-lata não havia comido leopardo algum.. .
E assim foi, rápido, em direção ao leopardo. Mas o velho cachorro o vê correndo na direção do predador em grande velocidade, e pensa :
-Aí tem coisa!
O macaco logo alcança o felino, cochicha-lhe o que interessa e faz um acordo com o leopardo.
O jovem leopardo fica furioso por ter sido feito de bobo, e diz: -"Aí, macaco! Suba nas minhas costas para você ver o que acontece com aquele cachorro abusado!"
Agora, o velho cachorro vê um leopardo furioso, vindo em sua direção, com um macaco nas costas, e pensa:
-E agora, o que é que eu posso fazer?
Mas, em vez de correr (sabe que suas pernas doídas não o levariam longe...) o cachorro senta, mais uma vez dando costas aos agressores, e fazendo de conta que ainda não os viu, e quando estavam perto o bastante para ouvi-lo, o velho cão diz :
-"Cadê o tranqueira daquele macaco? Tô morrendo de fome! Ele disse que ia trazer outro leopardo para mim e  não chega nunca!"

Moral da história: não mexa com cachorro velho... idade e habilidade se sobrepõem à juventude e intriga.
Sabedoria só vem com idade e experiência. 

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Um Pouquinho de Céu



Gostaria de comprar um perfume,
Nada chique, algo simples —
Pensei numa fragrância…
Do cheirinho de chuva caindo nas ruas;
Ou talvez o cheirinho
De um bebê saído do banho;
Ou o aroma forte e dominante
De folhinhas de hortelã amassadas;
Sabe aquele cheiro delicioso
Do pão assado em casa?
Ou a fragrância esplendorosa
De lençóis limpos na cama?
E que tal o cheirinho de um bife
Na chapa e acebolado,
Ou o aroma delicado
Das flores na Primavera.
Talvez o aroma do mar
Num dia ventoso de inverno
Ou a fragrância mais sedutora
De uma chuva caindo no mato —
Eu gostaria de comprar um perfume
Qualquer fragrância simples serve —
Só um pouquinho do Céu,
Composto pelos elementos da terra.

—Helen Marshall

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Era uma vez...

SÉRGIO CAPARELLI

Era uma vez
Um gato cotó
Fez cocô procê só


E o gato zarolho
Veio depois
Fez procês dois

Tinha também 
Um gato xadrêz
Fez cocô procês três

O gato seguinte
Usava sapato:
Fez cocô procês quatro

Quem não conhece 
O gato jacinto 
Fez cocô procês cinco

Do gato azarado
Chegou a vez
Fez cocô procês seis

Ah! Que beleza
O gato coquete
Fez cocô procês sete

Bom dia, banoite!
E o gato maroto
Fez cocô procês oito

E o gato zebrado
também resolve
fez cocô procês nove

Vixe! Vem chegando 
O gato Raimundo
Traz cocô pra todo mundo.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

O Macaco e o Rabo (2)



Uma ocasião achavam-se na beira da estrada um macaco e uma cotia e vinha passando na mesma estrada um carro de bois cantando. O macaco disse para a cotia:

— Tira o teu rabo da estrada, senão o carro passa e corta.

Embebido nesta conversa, não reparou o macaco que ele é que corria o maior risco, e veio o carro e passou em riba do rabo dele e cortou. Estava um gato escondido dentro de uma moita, saltou no pedaço do rabo do macaco e correu. Correu também o macaco atrás, pedindo o seu pedaço de rabo. O gato disse:

— Só te dou, se me deres leite.

— Onde tiro leite? — disse o macaco.

Respondeu o gato:

— Pede à vaca.

O macaco foi à vaca e disse:

— Vaca, dá-me leite para dar ao gato, para o gato dar-me o meu rabo.

— Não dou; só se me deres capim. — disse a vaca.

— Donde tiro capim?

— Pede à velha.

— Velha, dá-me capim, para eu dar à vaca, para a vaca dar-me leite, o leite para o gato me dar o meu rabo.

— Não dou; só se me deres uns sapatos.

— Donde tiro sapatos?

— Pede ao sapateiro.

— Sapateiro, dá-me sapatos, para eu dar à velha, para a velha me dar capim, para eu dar à vaca, para a vaca me dar leite, para eu dar ao gato, para o gato me dar o meu rabo.

— Não dou; só se me deres cerda.

— Donde tiro cerda?

— Pede ao porco.

— Porco, dá-me cerda, para eu dar ao sapateiro, para me dar sapatos, para eu dar à velha, para me dar capim, para eu dar à vaca, para me dar leite, para eu dar ao gato, para me dar o meu rabo.

— Não dou; só se me deres chuva.

— Donde tiro chuva?

— Pede às nuvens.

— Nuvens, dai-me chuva, para o porco, para dar-me cerda para o sapateiro, para dar-me sapatos para dar à velha, para me dar capim para dar à vaca, para dar-me leite para dar ao gato, para dar meu rabo…

— Não dou; só se me deres fogo.

— Donde tiro fogo?

— Pede às pedras.

— Pedras, dai-me fogo, para as nuvens, para a chuva para o porco, para cerda para o sapateiro, para sapatos para a velha, para capim para a vaca, para leite para o gato, para me dar meu rabo.

— Não dou; só se me deres rios.

— Donde tiro rios?

— Pede às fontes

— Fontes, dai-me rios, os rios ser para as pedras, as pedras me dar fogo, o fogo ser para as nuvens, as nuvens me dar chuvas, as chuvas ser para o porco, o porco me dar cerda, a cerda ser para o sapateiro, o sapateiro fazer os sapatos, os sapatos ser para a velha, a velha me dar capim, o capim ser para a vaca, a vaca me dar o leite, o leite ser para o gato, o gato me dar meu rabo.

Alcançou o macaco todos os seus pedidos. O gato bebeu o leite, entregou o rabo. O macaco não quis mais, porque o rabo estava podre.

Colhido por Sílvio Romero, em Pernambuco.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

O Rato Roeu...


O rato roeu a roupa do rei de Roma,
que irritava o rato com um ronco bem rouco.
Em Roma reinava um rei roncador.

O rato com raiva do ronco rouco do rei
resolveu roer a roupa real.
roc roc que roc fez o roedor

A rainha arrumando a roupa
não reparou e não reparando
não remendou a roupa do rei que o rato roeu,

E o rei do reino de Roma de roupa rasgada
recebeu na rua só riso e risada
de quem reparou que a roupa se rompeu

E o rato se riu do rombo redondo
da roupa roída do rei.


Harry Guedes