quarta-feira, 26 de abril de 2017

Livro


"É que eu sempre usei livro pra tudo... 
Pra saber ler, 
Pra altear pé de mesa, 
Pra aprender a usar a imaginação, 
Pra enfeitar sala, quarto, a casa toda, 
Pra ter companhia dia e noite, 
Pra aprender a escrever, 
Pra sentar em cima, 
Pra rir, pra gostar de pensar,
Pra ter apoio num papo, 
Pra matar pernilongo, 
Pra travesseiro, 
Pra chorar de emoção, 
Pra firmar prateleiras, 
Pra jogar na cabeça do outro na hora da raiva, 
Pra me-abraçar-com, pra banquinho pro pé.
Eu sempre usei livro pra tanta coisa, que a coisa que mais me espanta é ver gente vivendo sem livro."


(Lygia Bojunga)

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Conta uma lenda indígena


Conta uma lenda indígena que uma tribo tinha por costume quando alguém já tivesse aprendido tudo e tivesse todo conhecimento possível, essa pessoa ia então a uma montanha e montava seu acampamento e lá ficava separado à espera da morte.
Um velho índio conhecedor de toda a ciência e não tendo mais nada à aprender pra lá foi. Um pequeno índio da tribo foi visita-lo e o velho índio pediu pra menino pegar na fogueira uma brasa, pra que ele acendesse o cachimbo.
O menino foi então e colocou a ponta dos dedos em uma poça de lama, pegou a brasa e trouxe ao velho índio.esse surpreso perguntou:
_Porque colocou os dedos na lama? 
E o garoto respondeu:
_ Pra não queimar!
Imediatamente o índio se levantou, pegou as suas coisas e disse ao menino:
_Vamos voltar pra tribo! Se uma coisa assim simples eu desconhecia e um menino pode me ensinar deve ter muitas coisas ainda pra aprender.


"Moral da história: ninguém é velho e sábio o bastante a ponto de não ter mais nada à aprender, ninguém é jovem e com pouco conhecimento que não tenha algo pra nos ensinar"

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Figueiras



Eloí Elisabet Bocheco


Minha vó, a velha Olímpia, era uma figueira que dava belos frutos dourados. Não sei se já nasceu com ares de figueira, ou se foi se tornando tal qual devido à convivência com as figueiras que cultivava no terreno próximo da cada ou se, um dia, sem que ninguém notasse, nascera de novo e viera ao mundo com o perfil das figueiras da terra.
Sempre que aquelas figueiras me dão a mão, é a mão da minha vó que seguro. As folhas das figueiras e as mãos da minha vó tinham a mesam textura cascuda e áspera, mas tanto ela como as figueiras davam frutos de enorme doçura.
Se volto a me sentar debaixo daquelas figueiras, logo vem a minha vó com um cesto de vime e, então, enchemos o cesto de figos e rimos de qualquer coisa que nossos olhos alcançam. Nem parecia que ela tinha o abismo em si, nem que vinha de tantos desertos de tão pronta que era para achar graça nas coisas mais miúdas que acontecem debaixo do céu.
Um caminho de formiga, uma minhoca que caísse da bica d'água, um grilo que saltasse, de repente, no chapéu, um louva-a-deus sobre a pedra, o melado que ficasse mais escuro que de costume, uma mamangava que tentasse entrar no cabelo, uma espiga de milho mal nascida, tudo era motivo de encantamento e risadas para a velha Olímpia.
Essas contas lúdicas que ela ia desfiando ao redor de si, juntei-as todas e, delas, fiz lindos colares que uso para enfeitar a alma.
Os figos maduros viravam doce, feito no tacho, sobre o fogo, aceso entre pedra, ao ar livre. Eu me sentava num toco de cabreúva para acompanhar a transformação dos figos das figueiras em doce. O tacho era, na verdade, um caldeirão mágico onde ela, maga cônscia de seus poderes, misturava magias de várias procedências, e mais os cantos da tarde: de cigarra, de sabiá, pomba-rola, bem-te-vi, canarinho, nhambu, curucaca, que entravam na massa e giravam nas voltas da colher de pau.
Com o olho, eu virava e desvirava o doce de figo: o doce chegava no ponto e o meu olho também. Depois de frio, era guardado em caixinhas de madeira e estocado no guarda-louças, de onde vinha à mesa no café da manhã e da tarde. Aquele era o doce de figo mais do outro mundo que já provei. Os que tenho encontrado, hoje em dia, misturam pós-mágicos de pouca confiança para os intestinos e para o coração.
Tinham, ainda, em comum, as figueiras e minha vó, a sombra boa, que atraía de longe. As figueiras, pelas folhas largas, e ela, pelas grandes asas, sempre abertas, feito sombrinhas abrigando do sol ardente. As duas tinhas seus silêncios pendentes: as figueiras, pelas chuvas de granizo, que abriam rombos em suas folhas, e a minha vó, devido a espinhos fincados na carne, por descuido do destino. As folhas das figueiras se refaziam das pedradas, e a minha vó ia mudando de lugar os espinhos da carne para não a espetarem sempre no mesmo lugar, e lhe dessem trégua para ir vivendo, sem perder o humor e o ludismo de que transbordava.
Vai ano e vem ano, e no entanto, conservo a afeição pelas figueiras. Plantei duas em meu quintal, em homenagem à minha vó. Tenho certeza de que ela já sabe, e tem vindo vê-las; sabe que estão cheias de folhas novas e de promessas, que não sei se vão cumprir, porque a terra é outra sob as suas raízes.

Haverão de vingar e dar sombra e frutos; principalmente sombra, onde me sentarei com minha vó e contaremos uma a outra as coisas deste e doutro mundo. 

segunda-feira, 20 de março de 2017

O Contador de Histórias


- (Herman Hesse)

- Conta-me uma história – pedia-lhe a moça.
- Tenho de pensar! – respondia-lhe. 
Ora, acontecia que, por vezes, o tempo que levava em sua meditação era longo demais para ela, que se zangava. Mas ele balançava a cabeça e respondia impassível: 
- Você deve ter um pouco mais de paciência. Uma boa história é como uma boa montaria. A caça brava fica escondida e é preciso armar emboscadas e ficar de tocaia horas e horas a fio, na boca dos precipícios e florestas. Os caçadores mais apressados e impetuosos afugentam a caça e nunca obtêm os melhores exemplares. Deixa-me, pois, pensar!
Mas, desde que tivesse meditado o tempo bastante e começasse a falar, não parava enquanto não tivesse contado a história completa, que corria ininterrupta e fluente como um rio descendo montanha abaixo e em cujas águas tudo se reflete – desde a pequena folha de grama até o azul da abóbada celeste(...). 
Convertia-se num ser todo-poderoso assim que iniciava mais uma demonstração de sua arte, pois aprendera a arte de narrar no Oriente, onde essa função é altamente apreciada e seus praticantes são considerados uma espécie de magos. 
Jamais começava suas histórias em países estranhos, para onde o espírito do ouvinte não podia voar com força própria. 

Principiava sempre com algo que os olhos pudessem ver; depois, imperceptivelmente, levava a imaginação dos ouvintes para onde muito bem ele queria de modo que a narrativa transcorria com naturalidade. Quem o escutava absorto em suas palavras, embora continuasse tranquilamente sentado, o espírito já vagava. Alegre e receoso, pelas regiões mais fascinantes. Assim era a maneira de ele contar suas histórias.

sábado, 18 de março de 2017

O batismo do Burro



 Pragas de padre parecem que são um acontecimento comum em várias cidades do Brasil.
Contam as pessoas idosas do município de Jaborá que, por volta de 1925, numa das visitas do Padre que vinha do Rio Grande do Sul (Gaurama), algumas pessoas faltaram gravemente com respeito para com este religioso, impondo-lhe realizar o batismo de um burro, animal de propriedade de uma pessoa poderosa do município. 
       Em virtude do fato, o religioso teria lançado uma maldição sobre esta localidade, dizendo que jamais Jaborá haveria de progredir. 
       O povo, anos mais tarde, preocupado com esse fato negativo, pediu ao então Padre responsável pela Paróquia, Frei Albino, que solicitasse uma bênção do Papa para anular a maldição. E assim foi feito: Frei Albino conseguiu essa bênção apostólica do Papa Paulo VI, em 20/05/66. 
       Mesmos assim, o povo não perdeu o receio da maldição nesta localidade e, ainda hoje, relaciona o fato de Jaborá continuar sendo uma cidade pequena à maldição, lançada pelo antigo Pároco.



Colaboração: Cleusa Manthey, professora Jaborá SC, cidade do Oeste do estado, e aluna da faculdade de Pedagogia da UNOESC (Literatura Infantil, 2º sem. 2002)

sexta-feira, 10 de março de 2017

Várias de Pedro Malasartes


Um casal de velhos possuía dois filhos homens, João e Pedro, este tão astucioso e vadio que o chamavam Pedro Malasarte. Como era gente pobre, o filho mais velho saiu para ganhar a vida e empregou-se numa fazenda onde o proprietário era rico e cheio de velhacarias, não pagando aos empregados porque fazia contratos impossíveis de cumprimento. João trabalhou quase um ano e voltou quase morto. O patrão tirara-lhe uma tira de couro desde o pescoço até o fim das costas e nada mais lhe dera. Pedro ficou furioso e saiu para vingar o irmão.
Procurou o mesmo fazendeiro e pediu trabalho. O fazendeiro disse que o empregava com duas condições; não enjeitar serviços e do que primeiro ficasse zangado tirava o outro uma tira de couro. Pedro Malasarte aceitou.
No primeiro dia foi trabalhar numa plantação de milho. O patrão mandou que uma cachorrinha o acompanhasse. Só podia voltar quando a cachorra voltasse para casa. Pedro meteu o braço no serviço até meio-dia. A cachorrinha deitada na sombra nem se mexia. Vendo que era combinação Malasarte largou uma paulada na cachorra que esta saiu ganindo e correu até o alpendre da casa. O rapaz voltou e almoçou. Pela tarde nem precisou bater na cachorra. Fez o gesto e o bicho voou no caminho.
No outro dia o fazendeiro escolheu outra tarefa. Mandou-o limpar a roça de mandioca. Pedro arrancou toda plantação, deixando o terreno completamente limpo.
Quando foi dizer ao patrão o que fizera este ficou feio.
- Zangou-se, meu amo?
- Não senhor, - respondeu o patrão.
No outro dia disse que Pedro trouxera o carro de bois carregado de pau sem nós. Malasarte cortou quase todo o bananal, explicando que bananeira é pau que não tem nó. O patrão ficou frio:
- Zangou-se, meu amo?
- Não senhor.
No outro dia mandou-o levar o carro, com a junta de bois, para dentro de uma sala numa casinha perto, sem passar pela porta. E para melhor atrapalhar, fechou a porta e escondeu a chave.
Malazarte agarrou um machado e fez o carro em pedaços, matou os bois, esquartejou-os e sacudiu, carnes e madeiras, pela janela, para dentro da sala. O patrão, quando viu, ficou preto:
- Zangou-se, meu amo?
- Não senhor.
Mandou vender na feira um bando de porcos. Malasarte levou os porcos, cortou as caudas e vendeu-os todos por um bom preço. Voltando enterrou os rabinhos num lamaçal e chegou em casa gritando que a porcada esta atolada no lameiro. O patrão foi ver e deu o desespero. Malasarte sugeriu cavar com duas pás. Correu para casa e pediu à dona que lhe entregasse dois contos de réis. A velha não queria mas o rapaz para certificá-la, perguntava ao patrão por gestos se devia levar um ou dois, e mostrava os dedos. Ante aos gritos do amo, a velha entregou o dinheiro ao Pedro. Voltou para o lameiro e começou a puxar a cauda de cada porco que dizia estar enterrado. Ia ficando com todas na mão. O patrão ficou suando mas não deu mostras de zanga. E Pedro ainda negou que tivesse recebido dinheiro.
Vendo que ficava pobre com aquele empregado, o fazendeiro resolveu matá-lo o mais depressa possível, de um modo que não o levasse à justiça. Disse que andava um ladrão rondando o curral e deviam vigiar, armados, para prender ou afugentar a tiros. A ideia era atirar em Malasarte e dizer que se tinha enganado, supondo-o um malfeitor. De noite o fazendeiro foi para o curral e Pedro devia substituí-lo ao primeiro cantar do galo. Quando o galo cantou, Malasarte acordou a velha e disse que o marido a esperava no curral, e que levasse a outra espingarda, porque ele, Pedro, ia fazer o cerco pelo outro lado.

A velha apanhou a carabina e foi, sendo morta pelo fazendeiro com um tiro certo de que abatia, pelo vulto, o atrevido criado. Assim que a velha caiu, Pedro apareceu chorando e acusando o amo. Este, assombrado pagou muito dinheiro para não haver conhecimento da justiça e ofereceu ainda mais dinheiro se o Malasarte se fosse embora, sem mais outra proeza. O rapaz aceitou e voltou rico para casa dos pais.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Ó Abre Alas


Ó abre alas
Que eu quero passar
Ó abre alas
Que eu quero passar
Eu sou da Lira
E não posso negar
Rosa de Ouro
É que vai ganhar
Ó abre alas
Que eu quero passar
Ó abre alas
Que eu quero passar
Eu sou da Lira
E não posso negar
Rosa de Ouro
É que vai ganhar
Ó abre alas
Que eu quero passar
Ó abre alas
Que eu quero passar
Eu sou da Lira
E não posso negar
Rosa de Ouro
É que vai ganhar
Ó abre alas
Que eu quero passar
Ó abre alas
Que eu quero passar
Eu sou da Lira
E não posso negar
Rosa de Ouro
É que vai ganhar



* Fontes: www.clubedochoro.com.br

               www.chiquinhagonzaga.com

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

A Lenda do Fogo



Nos tempos antigos as tribos de índios não conheciam o fogo. Eles sentiam muito frio e medo à noite pela falta dele. Então, um dia o pajé (o feiticeiro da tribo) escolheu um forte guerreiro, o mais corajoso de todos, e o encarregou de ir buscar o fogo no céu.
Japu foi o escolhido. O ritual começou: uma noite inteira de danças, rezas e contação de histórias foi feita. E naquela noite, por meio das feitiçarias do pajé, Japu se transformou num belo pássaro azul com penas cintilantes e bico da cor do fogo. No primeiro raio de sol, Japu voou para o céu de Tupã (o deus sol), para cumprir sua missão.

Lá, ele lutou muito com os raios, mas venceu. Assim, o Deus Tupã lhe deu uma centelha de seu fogo divino, a qual ele trouxe no bico. Quando chegou na terra, Japu finalmente deu aos homens aquele presente precioso.

Quando o pajé o desencantou, ele voltou à forma humana. Mas que tristeza! Japu percebeu que tinha ficado com o rosto todo deformado e queimado pelo fogo celeste! Ficou tão triste e envergonhado que pediu ao pajé que o encantasse outra vez. O pajé o atendeu e ele virou para sempre um pássaro azul com o bico da cor do fogo!
Então, quando vemos um pássaro azul com bico da cor do fogo passando por perto, já sabemos que é Japu trazendo o presente precioso fogo celeste para nós.


Adaptação de Tia Lourdes – Mitos e Lendas. Histórias que o povo canta. Revista Família Cristã, julho de 1989.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

O Quero quero



A lenda do quero-quero tem um fundo religioso, representando o castigo para aqueles que se recusam a ouvir e a viver a palavra de Deus.

Fugindo de Herodes, que determinara a matança de todas as crianças recém-nascidas, a Santa Família partiu em fuga para o Egito. Para não ser vista pelos soldados perseguidores, viajava à noite e se escondia de dia. Na longa caminhada noturna, era necessário que tudo se fizesse no mais completo silêncio. Silêncio esse, respeitado por todos os animais, encontrados pelo caminho. Era como se estivessem eles obedecendo a palavra de Deus, na proteção de Jesus, Maria e José.

Todos menos um: o implicante quero-quero. Este não parava de falar, e por sua desobediência, recebeu como castigo a tagarelice eterna, não parando mais de gritar, inclusive alertando os caçadores quanto à sua presença e correndo o risco de ser caçado.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

O Gato e o Rato



O Gato e o Rato tornaram-se amigos. Um dia combinaram fazer uma viagem a uma terra distante. Pelo caminho tinham de atravessar um rio.
__ Por onde passaremos? __ perguntou o Gato. __ O rio leva muita água.
O Rato respondeu:
__ Não faz mal. Fazemos um barco.
O Gato concordou e logo ali os dois colheram uma grande raiz de mandioca e fizeram um barco com ela. Meteram o barco na água, entraram para ele e começaram a atravessar o rio.
Pelo caminho começaram a ter fome e repararam que não tinham levado comida.
O Gato perguntou então:
__ O que é que nós havemos de comer?
__ Não te preocupes, amigo Gato, porque podemos comer o nosso próprio barco.
E os dois começaram a comer o barco. O Gato pouco comeu porque a mandioca não lhe sabia bem, mas o Rato comeu, comeu, comeu até que acabou por furar o barco, que foi ao fundo.
O Gato e o Rato tiveram que nadar até à margem, mas, enquanto o Rato nadava bem e depressa, o Gato que mal sabia nadar, só com muita dificuldade e muito envergonhado é que conseguiu chegar a terra.
O Gato olhou então para o Rato e viu que ele estava com a barriga bem cheia por causa da mandioca, enquanto ele continuava cheio de fome. Por isso lembrou-se de comer o Rato.
__ Sinto muita fome, Rato. Vou ter de te comer.
__ Está bem __ disse o Rato espertalhão __ mas olha que eu estou muito sujo. É melhor ir primeiro lavar-me. Espera aí.
O Rato afastou-se e desapareceu. O Gato ainda hoje está à espera.



Contos Moçambicanos: INLD, 1979
http://www.terravista.pt/Bilene/1494/gato1.html