domingo, 13 de agosto de 2017

Pais...


Um menino de três anos foi com seu pai ver uma ninhada de gatinhos que haviam acabado de nascer. De volta a casa, contou, com excitação, para sua mãe que havia gatinhos e gatinhas.
- 'Como você soube disso?' perguntou a mãe.
- 'Papai os levantou e olhou por baixo', respondeu o menino.
 'Acho que ali estava a etiqueta'.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

A Raposa e o Cancão




Passara a manhã chovendo, e o cancão todo molhado, sem poder voar, estava tristemente pousado à beira da estrada. Veio a raposa e levou-o na boca para os filhinhos. Mas o caminho era longo e o sol ardente. Mestre cancão enxugou e começou a cuidar do meio de escapar à raposa. Passam perto de um povoado. Uns meninos que brincavam começam a dirigir desaforos à astuciosa caçadora. Vai o cancão e fala:
        __ Comadre raposa, isso é um desaforo! Eu se fosse você não agüentava! Passava uma decompostura!...
        A raposa abre a boca num impropério terrível contra a criançada. O cancão voa, pousa triunfalmente num galho e ajuda a vaiá-la...


Recolhido no Ceará, por Gustavo Barroso (1912)
CASCUDO, Luís da Câmara.  Contos tradicionais do Brasil.
Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo, EDUSP, 1986.  p. 183.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Que verdade!

     

 Se fosse ponte a prancha
               banda o bando
               rede ao ramo
               festa a feira
               paz a pomba,
Que verdade seria
o sonho de Maria!

                                     (Maria Dinorah)


(Panela no fogo,barriga vazia, Porto Alegre, L&PM, 1986).

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Um pouquinho de Céu


Gostaria de comprar um perfume,
Nada chique, algo simples —
Pensei numa fragrância…
Do cheirinho de chuva caindo nas ruas;
Ou talvez o cheirinho
De um bebê saído do banho;
Ou o aroma forte e dominante
De folhinhas de hortelã amassadas;
Sabe aquele cheiro delicioso
Do pão assado em casa?
Ou a fragrância esplendorosa
De lençóis limpos na cama?
E que tal o cheirinho de um bife
Na chapa e acebolado,
Ou o aroma delicado
Das flores na Primavera.
Talvez o aroma do mar
Num dia ventoso de inverno
Ou a fragrância mais sedutora
De uma chuva caindo no mato —
Eu gostaria de comprar um perfume
Qualquer fragrância simples serve —
Só um pouquinho do Céu,
Composto pelos elementos da terra.


—Helen Marshall

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Radiação

Ramiro Vieira, no livro Cântico do Brasil Caboclo:




Na casa do Coroné
tem um rádio colossá
e eu vô lá cô Mané
Tudas
noite pra iscuitá.

Home cum vóis de muié,
muié cum vóis de animá
e eu num sei pruque é
que tudo é tão naturá...

Quando iscuito Nhô-Totico
a pensá eu sempre fico
numa baita confusão

Nóis só ôve mai num vêmo:
-- será que ele é memo
ô é a liga das nação?

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Roteiro de Padre Lourenço (Minas Gerais) -



Havia em certo lugar de Minas Gerais um vigário a quem os paroquianos chamavam de Padre Lourenço. Era muito bondoso, muito acessível às suas ovelhas mas, por isso mesmo, elas lhe tomavam todo o tempo com suas confissões.
A que xingava o marido, a que espiava a vizinha pelo buraco da fechadura, a que caluniava o caixeira da venda, afirmando, por toda parte, que ele lhe servia uma coisa, mas assentava outra, bem mais cara, na caderneta, não o deixavam em paz.
Sentido-se irremediavelmente perdidas na prestação de contas do Juízo Final, não apenas essas, mas as dezenas de beatas do lugar, nem bem cometiam o seu pecado, já corriam à Igreja para que o santo religioso lhes aliviasse a cacunda, absolvendo-as de tão perigosas culpas. E o vigário já não tinha tempo para coçar-se.
Acordava-se ele ao cantar dos galos e, em jejum, como é do preceito, corria para a nave umbrosa da Matriz, apenas alumiada por uma ou outra lamparina que ardia nos nichos e ia encafuar-se no confessionário, à espera de que uma a uma, de cabeça envolta no fichu, as beatas viessem referir-lhe, em voz untuosa, os seus pecados das últimas horas, suplicando-lhe absolvição. Ao terminar o serviço, as contritas mulheres estavam mais leves, mas em compensação o vigário já não podia mais de fraqueza, pois jejum tão prolongado não nenhum biscoito.
Então, para dividir o trabalho e torná-lo menos penoso, o acatado clérigo resolveu organizar um roteiro para as desobrigas, o qual foi lido do púlpito, um domingo à hora da missa, e dizia assim:
"Minhas devotas. Estou ficando velho e cansado e por isso, de agora em diante, resolvi seguir para as confissões este roteiro: aos domingos confessarei as preguiçosas; às segundas as maldizentes; às terças as ladras; às quartas as hipócritas; às quintas as bêbadas; às sextas as feiticeiras e aos sábados as comilonas e as erradas".

Desse dia por diante nenhuma daquelas santas beatas quis mais confessar-se na sua freguesia e o Padre Lourenço viveu ainda muitos anos, na santa paz do senhor.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

O Chupim


Seu canto é melodioso. Não constrói ninhos, põe ovos nos ninhos de outras aves. O pássaro mais sacrificado pelo chupim é o tico-tico, daí o apelido de engana-tico. Vive em pequenos bandos destruindo e explorando o alheio.

O chupim era um pássaro trabalhador, bom e bonito. Fazia seu ninho com capricho e cuidava bem dos filhotes. Sobreveio, porém, uma guerra entre as aves e, da confusão, resultou queimarem o ninho do chupim. O pássaro conseguiu salvar-se milagrosamente, mas ficou todo chamuscado, todo preto. Perdeu assim, seu ninho, seus ovos e suas formosas penas.

Desse dia em diante, tornou-se preguiçoso e nunca mais construiu ninho. Passou a utilizar-se do ninho de outras aves, achando muito natural que lhe criassem os filhotes.

Quando o censuram, grita: Fazer ninho? Eu não. Tenho medo de novo incêndio…

É assim que vive este guloso parasita.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

DECLARAÇÃO DOS DIREITOS DA MÃE


Por Lucélia de Cássia Clarindo

1- Toda mãe terá os direitos enunciados nesta declaração.
2- Toda mãe terá direito e oportunidades de ficar sempre ao alcance de seus filhos (para que eles possam explorá-la ou exibi-la).
3- Toda mãe terá direito de ser chamada de mãe, “manhê”, mamãe, maínha ou ser chamada em forma de choro (que ela entenderá).
4- Sendo o cargo e título de mãe permanente, pessoal e intransferível e de confiança, toda mãe terá sempre o carinho e amor dos filhos, dos filhos dos filhos e assim por toda geração.
5- Para seu desenvolvimento completo toda mãe terá direito a um lugar especial no coração, na cabeça e na casa dos filhos.
6- Toda mãe terá o direito de ser amada, protegida, ouvida, conservada, muita bem cuidada, preservada, emprestada e devolvida.
7- Toda mãe terá sempre o direito de ser mulher.
8- Em qualquer circunstância, as mães deveriam estar em primeiro lugar, na vida dos filhos, nas filas, no orçamento do governo...
9- Sendo que todo dia é dia das mães, toda mãe deveria ter o direito ao “Dia das Mães Descansadas”.
10- Toda mãe terá o direito da alegria em ver os filhos crescendo e crescer com eles. De esperar seu filho e depois ser esperado por ele. De ouvir seu riso, seu choro, de sentir sua cólica, sua dor de ouvido, de ver seus desenhos, ouvir suas histórias.
De acompanhar seus passinhos, seguir seus passos até perdê-los de vista. Enfim, toda mãe terá todos os direitos do mundo e além do direito de proteger seu filho, quem sabe um dia ela terá o direito de ser protegida por ele

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Livro


"É que eu sempre usei livro pra tudo... 
Pra saber ler, 
Pra altear pé de mesa, 
Pra aprender a usar a imaginação, 
Pra enfeitar sala, quarto, a casa toda, 
Pra ter companhia dia e noite, 
Pra aprender a escrever, 
Pra sentar em cima, 
Pra rir, pra gostar de pensar,
Pra ter apoio num papo, 
Pra matar pernilongo, 
Pra travesseiro, 
Pra chorar de emoção, 
Pra firmar prateleiras, 
Pra jogar na cabeça do outro na hora da raiva, 
Pra me-abraçar-com, pra banquinho pro pé.
Eu sempre usei livro pra tanta coisa, que a coisa que mais me espanta é ver gente vivendo sem livro."


(Lygia Bojunga)

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Conta uma lenda indígena


Conta uma lenda indígena que uma tribo tinha por costume quando alguém já tivesse aprendido tudo e tivesse todo conhecimento possível, essa pessoa ia então a uma montanha e montava seu acampamento e lá ficava separado à espera da morte.
Um velho índio conhecedor de toda a ciência e não tendo mais nada à aprender pra lá foi. Um pequeno índio da tribo foi visita-lo e o velho índio pediu pra menino pegar na fogueira uma brasa, pra que ele acendesse o cachimbo.
O menino foi então e colocou a ponta dos dedos em uma poça de lama, pegou a brasa e trouxe ao velho índio.esse surpreso perguntou:
_Porque colocou os dedos na lama? 
E o garoto respondeu:
_ Pra não queimar!
Imediatamente o índio se levantou, pegou as suas coisas e disse ao menino:
_Vamos voltar pra tribo! Se uma coisa assim simples eu desconhecia e um menino pode me ensinar deve ter muitas coisas ainda pra aprender.


"Moral da história: ninguém é velho e sábio o bastante a ponto de não ter mais nada à aprender, ninguém é jovem e com pouco conhecimento que não tenha algo pra nos ensinar"