sexta-feira, 22 de setembro de 2017

A Galinha Preta


Martina Schlossmacher e Iskender Gider

Numa fazenda, entre muitas galinhas brancas, vivia uma galinha preta. Era uma galinha comum, mas os ovos que ela botava não eram como os outros. Cada um tinha uma forma diferente.
E, na verdade, nenhum deles tinha forma de ovo.
As galinhas brancas viviam zombando dela:
 __Esses ovos esquisitos nem cabem nas cestas de ovos __elas diziam.
Um belo dia, o coelho da páscoa, apareceu no galinheiro querendo escolher ovos para pintar.
As galinhas mostraram orgulhosas  o que tinham produzido. A galinha chefe se adiantou, dizendo que em nenhum outro lugar ela encontraria ovos tão bonitos e regulares. A galinha preta ficou lá dentro, muito triste por não poder mostrar os ovos dela.
A galinha chefe chamou a galinha preta  às falas:
__Isso é um absurdo! Você é um incompetente, seus ovos são uma vergonha para nosso galinheiro. Faça o favor de entrar no paiol e não aparecer por aqui, fora! Não quero que você seja vista junto com outras galinhas.
O coelho da páscoa encheu sua cesta de ovos e já ia indo embora quando ouviu um soluço lá no paiol. Ele abriu a porta devagarzinho e viu a galinha preta chorando ao lado do ninho. O coelho ficou impressionado. Nunca na vida tinha visto ovos tão fantásticos como os que estavam ali naquele ninho.
Então o coelho da páscoa teve uma idéia:
__Sabe de uma coisa? Ele disse para a galinha preta!
__Este ano vou dar os seus ovos de presente ao rei! Ele deve estar achando muito monótono comer ovos iguaiszinhos, todos os dias. Vamos, não fique triste, deixe comigo! O rei vai adorar seus ovos!
Apesar de toda experiência, não foi fácil para o coelho de a páscoa pintar todos aqueles ovos de formas tão estranhas. Mas ele conseguiu. Usou cores muito bonitas e fez pinturas de vários estilos. E além dos ovos do rei, ele precisava pintar muitos outros, pois não é só rei que gosta de ganhar ovos de páscoa. O coelho pintava um ovo atrás do outro, e às vezes até confundia páscoa com natal.
No dia da páscoa, o coelho saiu bem cedinho para distribuir os ovos. Ninguém o viu passar, mas ninguém deixou de achar um lindo ovo de páscoa escondido em algum lugar. Nem o Rei.
Na verdade, aquela manhã o rei não estava com a menor vontade de procurar ovos. Preferia mil vezes dormir mais um pouco. Mas ele tinha de cumprir suas obrigações reais e , meio sonolento, saiu em busca dos ovos de páscoa.
__É todo ano a mesma coisa, ele pensou.
No ano anterior, tinha sido mais fácil. Será que o coelho da páscoa tinha esquecido dele?
Cansado, o Rei resolveu sentar-se no trono. Mas ele não  viu coisa alguma.
Que surpresa! Que maravilha! Nunca na vida o rei tinha visto ovos  como aqueles. Ele abriu um sorriso que ocupou o rosto inteiro. Finalmente aconteceu alguma coisa diferente.
__Preciso conhecer o coelho da páscoa que me trouxe esses ovos!
Imediatamente ele mandou aprontar a carruagem para sair em busca do coelho. Os dois ficaram espantados quando se viram frente a frente. O coelho contou onde tinha arranjado aqueles ovos diferentes e o Rei quis ir até lá.
As galinhas ficaram no maior alvoroço quando viram o Rei chegar. O que será que ele queria no galinheiro?
O rei encarou as galinhas, uma por uma. __Quem de vocês botou estes ovos tão lindos? __ele perguntou, mostrando a cesta cheia de ovos de formas diferentes.
A galinha-chefe se adiantou e cacarejou:
__Fui eu! Eu sou a chefe do galinheiro.
Enquanto isso, a galinha preta continuava escondida num canto do paiol. De repente o rei entrou, e ela ficou tão assustada que botou mais um ovo. O coelho da páscoa foi logo dizendo:
__Esta é a galinha que bota estes ovos diferentes.
Muito feliz, o rei pegou o ovo mais lindo do mundo e o levantou para todos verem. Afagando a galinha preta, ele pediu:

Venha morar comigo no palácio. Eu queria que todas as manhãs você botasse um ovo lindo e diferente para mim. E assim aconteceu!

terça-feira, 12 de setembro de 2017

O VIOLINO MÁGICO


Dário era um bom mocinho, alegre e esperto, estimado por todos que o conheciam.
Um dia despedindo-se de sua família e de seus amigos, saiu de casa, para ganhar honradamente a vida. Ele era o mais velho dos cinco filhos que tinha o tio Pedro; e como a miséria lhes batia à porta, forçoso foi que o moço saísse, para não sobrecarregar o pai, em prejuízo dos irmãos menores, e também para ver se melhorava de sorte.
Ao despedir-se, o pai lhe dera por toda fortuna uma moeda de prata; e ele julgou-se rico, porque não conhecia o valor do dinheiro.
Caminhava alegremente pela estrada que conduzia à cidade, quando encontrou um velhinho, abrigado à sombra de uma árvore, gemendo e chorando.
Dotado de excelente coração, Dário tratou desveladamente do enfermo, e deu-lhe a sua única moeda de prata.
O velhinho, agradecido, disse:
– Já que foste tão caridoso, vou fazer-te um presente. Aqui tens este violino. Todas as vezes que o tocares, quem o ouvir não poderá resistir ao desejo de dançar.
Dário saiu satisfeito com o presente, e pouco adiante, encontrou-se com um judeu, homem avarento, que espoliava todo o mundo, emprestando dinheiro a altos juros, em troca de bons e valiosos penhores de prata, ouro e pedras preciosas, que nunca mais entregava aos respectivos donos.
Naquele mesmo instante o judeu acabava de perder um vintém, e procurava-o aflitamente, como se se tratasse de imensa fortuna.
O moço ofereceu-se para ajudá-lo; e, como tinha boa vista, enxergou a moeda de cobre caída no meio dos espinhos. Ia apanhá-la, mas o avarento não o consentiu, pensando que Dário fosse capaz de roubá-la.
– Ah! judeu, disse Dário consigo mesmo: desconfias de mim! Deixa estar que mo pagarás...
Esperou sentado; e, assim que viu o miserável dentro dos espinhos, começou a tocar o violino.
O judeu, escutando aqueles harmoniosos sons, começou a dançar; e quanto mais Dário tocava, tanto mais ele saltava, quase sem fôlego, rasgando a roupa, ferindo-se nos espinhos.
– Para! ... Para! ... Cessa esse violino do diabo! Para, que já não posso mais! berrava o judeu, desesperado, sempre a dançar.
O rapaz, porém, continuava sempre a vibrá-lo.
– Pelo amor de Deus, para com essa música, que te darei uma bolsa de ouro! ... disse, enfim, o avarento.
– Ah! isso é outro modo de falar! respondeu o mocinho, emudecendo o mágico violino, depois que o judeu atirou a bolsa.
No dia seguinte, chegando à cidade, Dário foi preso. O judeu tinha ido queixar-se que havia sido roubado por ele.
O moço foi condenado à morte.
No momento em que subia para a forca, pediu que lhe permitissem tocar pela última vez o violino.
O avarento, que estava ao pé do cadafalso, gritou logo:
– Não o deixem tocar mais! ... Não o deixem tocar! ...
O juiz, porém, que não via razões para recusar, acedeu.
Dário começou a vibrar o violino, e imediatamente todos – juiz, carrasco, soldados, homens, mulheres, velhos e crianças – todos começaram a dançar.
– Basta! gritava o juiz.
– Basta! gritava o povo.

Dário cessou a música. O juiz convenceu-se que o rapaz não era criminoso, perdoou-o, e mandou enforcar o judeu.

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Quintal


Bia Bedran

Brincar no quintal
Pra renascer a criança
Moleque levado, saci-pererê     
Que quer andar solto no mato
Mas vive trancado
Dentro de você

Sai correndo, muito ligeiro,
Voa que nem passarinho...
Pique esconde, pique ajuda,
Pique cola, pique ta,
Não deixa ninguém te pegar.

domingo, 13 de agosto de 2017

Pais...


Um menino de três anos foi com seu pai ver uma ninhada de gatinhos que haviam acabado de nascer. De volta a casa, contou, com excitação, para sua mãe que havia gatinhos e gatinhas.
- 'Como você soube disso?' perguntou a mãe.
- 'Papai os levantou e olhou por baixo', respondeu o menino.
 'Acho que ali estava a etiqueta'.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

A Raposa e o Cancão




Passara a manhã chovendo, e o cancão todo molhado, sem poder voar, estava tristemente pousado à beira da estrada. Veio a raposa e levou-o na boca para os filhinhos. Mas o caminho era longo e o sol ardente. Mestre cancão enxugou e começou a cuidar do meio de escapar à raposa. Passam perto de um povoado. Uns meninos que brincavam começam a dirigir desaforos à astuciosa caçadora. Vai o cancão e fala:
        __ Comadre raposa, isso é um desaforo! Eu se fosse você não agüentava! Passava uma decompostura!...
        A raposa abre a boca num impropério terrível contra a criançada. O cancão voa, pousa triunfalmente num galho e ajuda a vaiá-la...


Recolhido no Ceará, por Gustavo Barroso (1912)
CASCUDO, Luís da Câmara.  Contos tradicionais do Brasil.
Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo, EDUSP, 1986.  p. 183.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Que verdade!

     

 Se fosse ponte a prancha
               banda o bando
               rede ao ramo
               festa a feira
               paz a pomba,
Que verdade seria
o sonho de Maria!

                                     (Maria Dinorah)


(Panela no fogo,barriga vazia, Porto Alegre, L&PM, 1986).

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Um pouquinho de Céu


Gostaria de comprar um perfume,
Nada chique, algo simples —
Pensei numa fragrância…
Do cheirinho de chuva caindo nas ruas;
Ou talvez o cheirinho
De um bebê saído do banho;
Ou o aroma forte e dominante
De folhinhas de hortelã amassadas;
Sabe aquele cheiro delicioso
Do pão assado em casa?
Ou a fragrância esplendorosa
De lençóis limpos na cama?
E que tal o cheirinho de um bife
Na chapa e acebolado,
Ou o aroma delicado
Das flores na Primavera.
Talvez o aroma do mar
Num dia ventoso de inverno
Ou a fragrância mais sedutora
De uma chuva caindo no mato —
Eu gostaria de comprar um perfume
Qualquer fragrância simples serve —
Só um pouquinho do Céu,
Composto pelos elementos da terra.


—Helen Marshall

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Radiação

Ramiro Vieira, no livro Cântico do Brasil Caboclo:




Na casa do Coroné
tem um rádio colossá
e eu vô lá cô Mané
Tudas
noite pra iscuitá.

Home cum vóis de muié,
muié cum vóis de animá
e eu num sei pruque é
que tudo é tão naturá...

Quando iscuito Nhô-Totico
a pensá eu sempre fico
numa baita confusão

Nóis só ôve mai num vêmo:
-- será que ele é memo
ô é a liga das nação?

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Roteiro de Padre Lourenço (Minas Gerais) -



Havia em certo lugar de Minas Gerais um vigário a quem os paroquianos chamavam de Padre Lourenço. Era muito bondoso, muito acessível às suas ovelhas mas, por isso mesmo, elas lhe tomavam todo o tempo com suas confissões.
A que xingava o marido, a que espiava a vizinha pelo buraco da fechadura, a que caluniava o caixeira da venda, afirmando, por toda parte, que ele lhe servia uma coisa, mas assentava outra, bem mais cara, na caderneta, não o deixavam em paz.
Sentido-se irremediavelmente perdidas na prestação de contas do Juízo Final, não apenas essas, mas as dezenas de beatas do lugar, nem bem cometiam o seu pecado, já corriam à Igreja para que o santo religioso lhes aliviasse a cacunda, absolvendo-as de tão perigosas culpas. E o vigário já não tinha tempo para coçar-se.
Acordava-se ele ao cantar dos galos e, em jejum, como é do preceito, corria para a nave umbrosa da Matriz, apenas alumiada por uma ou outra lamparina que ardia nos nichos e ia encafuar-se no confessionário, à espera de que uma a uma, de cabeça envolta no fichu, as beatas viessem referir-lhe, em voz untuosa, os seus pecados das últimas horas, suplicando-lhe absolvição. Ao terminar o serviço, as contritas mulheres estavam mais leves, mas em compensação o vigário já não podia mais de fraqueza, pois jejum tão prolongado não nenhum biscoito.
Então, para dividir o trabalho e torná-lo menos penoso, o acatado clérigo resolveu organizar um roteiro para as desobrigas, o qual foi lido do púlpito, um domingo à hora da missa, e dizia assim:
"Minhas devotas. Estou ficando velho e cansado e por isso, de agora em diante, resolvi seguir para as confissões este roteiro: aos domingos confessarei as preguiçosas; às segundas as maldizentes; às terças as ladras; às quartas as hipócritas; às quintas as bêbadas; às sextas as feiticeiras e aos sábados as comilonas e as erradas".

Desse dia por diante nenhuma daquelas santas beatas quis mais confessar-se na sua freguesia e o Padre Lourenço viveu ainda muitos anos, na santa paz do senhor.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

O Chupim


Seu canto é melodioso. Não constrói ninhos, põe ovos nos ninhos de outras aves. O pássaro mais sacrificado pelo chupim é o tico-tico, daí o apelido de engana-tico. Vive em pequenos bandos destruindo e explorando o alheio.

O chupim era um pássaro trabalhador, bom e bonito. Fazia seu ninho com capricho e cuidava bem dos filhotes. Sobreveio, porém, uma guerra entre as aves e, da confusão, resultou queimarem o ninho do chupim. O pássaro conseguiu salvar-se milagrosamente, mas ficou todo chamuscado, todo preto. Perdeu assim, seu ninho, seus ovos e suas formosas penas.

Desse dia em diante, tornou-se preguiçoso e nunca mais construiu ninho. Passou a utilizar-se do ninho de outras aves, achando muito natural que lhe criassem os filhotes.

Quando o censuram, grita: Fazer ninho? Eu não. Tenho medo de novo incêndio…

É assim que vive este guloso parasita.