segunda-feira, 17 de julho de 2017

Que verdade!

     

 Se fosse ponte a prancha
               banda o bando
               rede ao ramo
               festa a feira
               paz a pomba,
Que verdade seria
o sonho de Maria!

                                     (Maria Dinorah)


(Panela no fogo,barriga vazia, Porto Alegre, L&PM, 1986).

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Um pouquinho de Céu


Gostaria de comprar um perfume,
Nada chique, algo simples —
Pensei numa fragrância…
Do cheirinho de chuva caindo nas ruas;
Ou talvez o cheirinho
De um bebê saído do banho;
Ou o aroma forte e dominante
De folhinhas de hortelã amassadas;
Sabe aquele cheiro delicioso
Do pão assado em casa?
Ou a fragrância esplendorosa
De lençóis limpos na cama?
E que tal o cheirinho de um bife
Na chapa e acebolado,
Ou o aroma delicado
Das flores na Primavera.
Talvez o aroma do mar
Num dia ventoso de inverno
Ou a fragrância mais sedutora
De uma chuva caindo no mato —
Eu gostaria de comprar um perfume
Qualquer fragrância simples serve —
Só um pouquinho do Céu,
Composto pelos elementos da terra.


—Helen Marshall

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Radiação

Ramiro Vieira, no livro Cântico do Brasil Caboclo:




Na casa do Coroné
tem um rádio colossá
e eu vô lá cô Mané
Tudas
noite pra iscuitá.

Home cum vóis de muié,
muié cum vóis de animá
e eu num sei pruque é
que tudo é tão naturá...

Quando iscuito Nhô-Totico
a pensá eu sempre fico
numa baita confusão

Nóis só ôve mai num vêmo:
-- será que ele é memo
ô é a liga das nação?

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Roteiro de Padre Lourenço (Minas Gerais) -



Havia em certo lugar de Minas Gerais um vigário a quem os paroquianos chamavam de Padre Lourenço. Era muito bondoso, muito acessível às suas ovelhas mas, por isso mesmo, elas lhe tomavam todo o tempo com suas confissões.
A que xingava o marido, a que espiava a vizinha pelo buraco da fechadura, a que caluniava o caixeira da venda, afirmando, por toda parte, que ele lhe servia uma coisa, mas assentava outra, bem mais cara, na caderneta, não o deixavam em paz.
Sentido-se irremediavelmente perdidas na prestação de contas do Juízo Final, não apenas essas, mas as dezenas de beatas do lugar, nem bem cometiam o seu pecado, já corriam à Igreja para que o santo religioso lhes aliviasse a cacunda, absolvendo-as de tão perigosas culpas. E o vigário já não tinha tempo para coçar-se.
Acordava-se ele ao cantar dos galos e, em jejum, como é do preceito, corria para a nave umbrosa da Matriz, apenas alumiada por uma ou outra lamparina que ardia nos nichos e ia encafuar-se no confessionário, à espera de que uma a uma, de cabeça envolta no fichu, as beatas viessem referir-lhe, em voz untuosa, os seus pecados das últimas horas, suplicando-lhe absolvição. Ao terminar o serviço, as contritas mulheres estavam mais leves, mas em compensação o vigário já não podia mais de fraqueza, pois jejum tão prolongado não nenhum biscoito.
Então, para dividir o trabalho e torná-lo menos penoso, o acatado clérigo resolveu organizar um roteiro para as desobrigas, o qual foi lido do púlpito, um domingo à hora da missa, e dizia assim:
"Minhas devotas. Estou ficando velho e cansado e por isso, de agora em diante, resolvi seguir para as confissões este roteiro: aos domingos confessarei as preguiçosas; às segundas as maldizentes; às terças as ladras; às quartas as hipócritas; às quintas as bêbadas; às sextas as feiticeiras e aos sábados as comilonas e as erradas".

Desse dia por diante nenhuma daquelas santas beatas quis mais confessar-se na sua freguesia e o Padre Lourenço viveu ainda muitos anos, na santa paz do senhor.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

O Chupim


Seu canto é melodioso. Não constrói ninhos, põe ovos nos ninhos de outras aves. O pássaro mais sacrificado pelo chupim é o tico-tico, daí o apelido de engana-tico. Vive em pequenos bandos destruindo e explorando o alheio.

O chupim era um pássaro trabalhador, bom e bonito. Fazia seu ninho com capricho e cuidava bem dos filhotes. Sobreveio, porém, uma guerra entre as aves e, da confusão, resultou queimarem o ninho do chupim. O pássaro conseguiu salvar-se milagrosamente, mas ficou todo chamuscado, todo preto. Perdeu assim, seu ninho, seus ovos e suas formosas penas.

Desse dia em diante, tornou-se preguiçoso e nunca mais construiu ninho. Passou a utilizar-se do ninho de outras aves, achando muito natural que lhe criassem os filhotes.

Quando o censuram, grita: Fazer ninho? Eu não. Tenho medo de novo incêndio…

É assim que vive este guloso parasita.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

DECLARAÇÃO DOS DIREITOS DA MÃE


Por Lucélia de Cássia Clarindo

1- Toda mãe terá os direitos enunciados nesta declaração.
2- Toda mãe terá direito e oportunidades de ficar sempre ao alcance de seus filhos (para que eles possam explorá-la ou exibi-la).
3- Toda mãe terá direito de ser chamada de mãe, “manhê”, mamãe, maínha ou ser chamada em forma de choro (que ela entenderá).
4- Sendo o cargo e título de mãe permanente, pessoal e intransferível e de confiança, toda mãe terá sempre o carinho e amor dos filhos, dos filhos dos filhos e assim por toda geração.
5- Para seu desenvolvimento completo toda mãe terá direito a um lugar especial no coração, na cabeça e na casa dos filhos.
6- Toda mãe terá o direito de ser amada, protegida, ouvida, conservada, muita bem cuidada, preservada, emprestada e devolvida.
7- Toda mãe terá sempre o direito de ser mulher.
8- Em qualquer circunstância, as mães deveriam estar em primeiro lugar, na vida dos filhos, nas filas, no orçamento do governo...
9- Sendo que todo dia é dia das mães, toda mãe deveria ter o direito ao “Dia das Mães Descansadas”.
10- Toda mãe terá o direito da alegria em ver os filhos crescendo e crescer com eles. De esperar seu filho e depois ser esperado por ele. De ouvir seu riso, seu choro, de sentir sua cólica, sua dor de ouvido, de ver seus desenhos, ouvir suas histórias.
De acompanhar seus passinhos, seguir seus passos até perdê-los de vista. Enfim, toda mãe terá todos os direitos do mundo e além do direito de proteger seu filho, quem sabe um dia ela terá o direito de ser protegida por ele

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Livro


"É que eu sempre usei livro pra tudo... 
Pra saber ler, 
Pra altear pé de mesa, 
Pra aprender a usar a imaginação, 
Pra enfeitar sala, quarto, a casa toda, 
Pra ter companhia dia e noite, 
Pra aprender a escrever, 
Pra sentar em cima, 
Pra rir, pra gostar de pensar,
Pra ter apoio num papo, 
Pra matar pernilongo, 
Pra travesseiro, 
Pra chorar de emoção, 
Pra firmar prateleiras, 
Pra jogar na cabeça do outro na hora da raiva, 
Pra me-abraçar-com, pra banquinho pro pé.
Eu sempre usei livro pra tanta coisa, que a coisa que mais me espanta é ver gente vivendo sem livro."


(Lygia Bojunga)

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Conta uma lenda indígena


Conta uma lenda indígena que uma tribo tinha por costume quando alguém já tivesse aprendido tudo e tivesse todo conhecimento possível, essa pessoa ia então a uma montanha e montava seu acampamento e lá ficava separado à espera da morte.
Um velho índio conhecedor de toda a ciência e não tendo mais nada à aprender pra lá foi. Um pequeno índio da tribo foi visita-lo e o velho índio pediu pra menino pegar na fogueira uma brasa, pra que ele acendesse o cachimbo.
O menino foi então e colocou a ponta dos dedos em uma poça de lama, pegou a brasa e trouxe ao velho índio.esse surpreso perguntou:
_Porque colocou os dedos na lama? 
E o garoto respondeu:
_ Pra não queimar!
Imediatamente o índio se levantou, pegou as suas coisas e disse ao menino:
_Vamos voltar pra tribo! Se uma coisa assim simples eu desconhecia e um menino pode me ensinar deve ter muitas coisas ainda pra aprender.


"Moral da história: ninguém é velho e sábio o bastante a ponto de não ter mais nada à aprender, ninguém é jovem e com pouco conhecimento que não tenha algo pra nos ensinar"

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Figueiras



Eloí Elisabet Bocheco


Minha vó, a velha Olímpia, era uma figueira que dava belos frutos dourados. Não sei se já nasceu com ares de figueira, ou se foi se tornando tal qual devido à convivência com as figueiras que cultivava no terreno próximo da cada ou se, um dia, sem que ninguém notasse, nascera de novo e viera ao mundo com o perfil das figueiras da terra.
Sempre que aquelas figueiras me dão a mão, é a mão da minha vó que seguro. As folhas das figueiras e as mãos da minha vó tinham a mesam textura cascuda e áspera, mas tanto ela como as figueiras davam frutos de enorme doçura.
Se volto a me sentar debaixo daquelas figueiras, logo vem a minha vó com um cesto de vime e, então, enchemos o cesto de figos e rimos de qualquer coisa que nossos olhos alcançam. Nem parecia que ela tinha o abismo em si, nem que vinha de tantos desertos de tão pronta que era para achar graça nas coisas mais miúdas que acontecem debaixo do céu.
Um caminho de formiga, uma minhoca que caísse da bica d'água, um grilo que saltasse, de repente, no chapéu, um louva-a-deus sobre a pedra, o melado que ficasse mais escuro que de costume, uma mamangava que tentasse entrar no cabelo, uma espiga de milho mal nascida, tudo era motivo de encantamento e risadas para a velha Olímpia.
Essas contas lúdicas que ela ia desfiando ao redor de si, juntei-as todas e, delas, fiz lindos colares que uso para enfeitar a alma.
Os figos maduros viravam doce, feito no tacho, sobre o fogo, aceso entre pedra, ao ar livre. Eu me sentava num toco de cabreúva para acompanhar a transformação dos figos das figueiras em doce. O tacho era, na verdade, um caldeirão mágico onde ela, maga cônscia de seus poderes, misturava magias de várias procedências, e mais os cantos da tarde: de cigarra, de sabiá, pomba-rola, bem-te-vi, canarinho, nhambu, curucaca, que entravam na massa e giravam nas voltas da colher de pau.
Com o olho, eu virava e desvirava o doce de figo: o doce chegava no ponto e o meu olho também. Depois de frio, era guardado em caixinhas de madeira e estocado no guarda-louças, de onde vinha à mesa no café da manhã e da tarde. Aquele era o doce de figo mais do outro mundo que já provei. Os que tenho encontrado, hoje em dia, misturam pós-mágicos de pouca confiança para os intestinos e para o coração.
Tinham, ainda, em comum, as figueiras e minha vó, a sombra boa, que atraía de longe. As figueiras, pelas folhas largas, e ela, pelas grandes asas, sempre abertas, feito sombrinhas abrigando do sol ardente. As duas tinhas seus silêncios pendentes: as figueiras, pelas chuvas de granizo, que abriam rombos em suas folhas, e a minha vó, devido a espinhos fincados na carne, por descuido do destino. As folhas das figueiras se refaziam das pedradas, e a minha vó ia mudando de lugar os espinhos da carne para não a espetarem sempre no mesmo lugar, e lhe dessem trégua para ir vivendo, sem perder o humor e o ludismo de que transbordava.
Vai ano e vem ano, e no entanto, conservo a afeição pelas figueiras. Plantei duas em meu quintal, em homenagem à minha vó. Tenho certeza de que ela já sabe, e tem vindo vê-las; sabe que estão cheias de folhas novas e de promessas, que não sei se vão cumprir, porque a terra é outra sob as suas raízes.

Haverão de vingar e dar sombra e frutos; principalmente sombra, onde me sentarei com minha vó e contaremos uma a outra as coisas deste e doutro mundo. 

segunda-feira, 20 de março de 2017

O Contador de Histórias


- (Herman Hesse)

- Conta-me uma história – pedia-lhe a moça.
- Tenho de pensar! – respondia-lhe. 
Ora, acontecia que, por vezes, o tempo que levava em sua meditação era longo demais para ela, que se zangava. Mas ele balançava a cabeça e respondia impassível: 
- Você deve ter um pouco mais de paciência. Uma boa história é como uma boa montaria. A caça brava fica escondida e é preciso armar emboscadas e ficar de tocaia horas e horas a fio, na boca dos precipícios e florestas. Os caçadores mais apressados e impetuosos afugentam a caça e nunca obtêm os melhores exemplares. Deixa-me, pois, pensar!
Mas, desde que tivesse meditado o tempo bastante e começasse a falar, não parava enquanto não tivesse contado a história completa, que corria ininterrupta e fluente como um rio descendo montanha abaixo e em cujas águas tudo se reflete – desde a pequena folha de grama até o azul da abóbada celeste(...). 
Convertia-se num ser todo-poderoso assim que iniciava mais uma demonstração de sua arte, pois aprendera a arte de narrar no Oriente, onde essa função é altamente apreciada e seus praticantes são considerados uma espécie de magos. 
Jamais começava suas histórias em países estranhos, para onde o espírito do ouvinte não podia voar com força própria. 

Principiava sempre com algo que os olhos pudessem ver; depois, imperceptivelmente, levava a imaginação dos ouvintes para onde muito bem ele queria de modo que a narrativa transcorria com naturalidade. Quem o escutava absorto em suas palavras, embora continuasse tranquilamente sentado, o espírito já vagava. Alegre e receoso, pelas regiões mais fascinantes. Assim era a maneira de ele contar suas histórias.