sábado, 21 de novembro de 2009

A história do homem do dedo cortado



Uma mulher encontrava-se a noite sozinha em sua casa quando o telefone tocou.
Do outro lado da linha era a voz estranha de um homem dizendo:
_ Eu sou o homem do dedo cortado e estou chegando a seu país!
A mulher pensou em ser um trote e simplesmente desligou o telefone e continuo em seus afazeres. Após algumas horas o telefone toucou novamente e a voz dizia:
_ Eu sou o homem do dedo cortado e estou chegando ao seu estado!
A mulher desligou o telefone em principio ficou um pouco preocupada, mas logo esqueceu e continuo seus afazeres. Novamente o telefone tocou e a voz dizia:
_ Eu sou o homem do dedo chegado e estou chegando à sua cidade!
A mulher começou a ficar com medo e se preocupar, pensou em ligar para a polícia, mas eles não acreditariam. Logo o telefone tocou novamente:
_ Eu sou o homem do dedo cortado estou chegando ao seu bairro!
A mulher ficou desesperada, não sabia o que fazer e tomou coragem e decidiu ligar para a policia. Antes de pegar no telefone ele tocou novamente:
_ Eu sou o homem do dedo cortado e estou chegando à sua rua!
A mulher se desesperou e tentou achar um lugar para se esconder, mas o telefone tocou novamente:
_ Eu sou o homem do dedo cortado e estou chegando ao seu portão!
Ela resolveu sair correndo. Quando ela abriu a porta, deu de cara como um homem com o dedo cortado:
_ Eu sou o homem do dedo cortado! Me empresta um band-Aid?


História enviada por Sueli Monzani

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Galinha com dentes

Pelo cerrado vinha, bailarina, uma franguinha.
Pezinho na frente, outro atrás, uma ciscadinha. Depois, perna jogada pra um lado, perna jogada pro outro, algumas bicadinhas.
Sorrateira, toda sorrisos e gentilezas, a esperta raposa avistou a inocente franguinha. Cumprimentou-a e foi logo perguntando se não sentia medo durante a noite.
_ Muito, amiga raposa. Tremo, suo frio, tenho arrepios e horríveis pesadelos!
Mal consigo dormir...
_ Ora, por isso não. Vou visitá-la hoje à noite e ninguém terá coragem de incomodar a companheira. Vai ser uma tranqüilidade, você vai ver...
A ingênua franguinha, satisfeita, continuou seu passeio e, quando encontrou o camarada cachorro, alegremente, ela foi contando a novidade:
_ Amigo cão, estou agora em paz. Tudo pela bondade da camarada raposa_ e contou tudo.
Admirado, ele falou:
_ Mas você está maluca, amiga? Onde já se viu raposa visitar galinha? Será o seu fim!
Ela quase desmaiava quando o cão lhe prometeu:
_ Nem tudo está perdido. Darei um jeito nisso.
Pouco antes do sol se pôr, o cão escondeu-se no quartinho da casa da amiga.
_ Fique calada, não dê um piozinho! Se der, baú, baú: Uma frangota vai pro papo da rapasota!
Quando a raposa chegou com sua dentadura à mostra, foi procurando a ingênua franguinha, mas teve aquela surpresa! Levou uma tremenda dentada.
Como tudo aconteceu muito rápido e no escuro, a raposa não soube quem a tinha ferido. Fugiu espavorida, dolorida, além de bastante machucada.
No dia seguinte, no mato, a raposa, confusa e ainda tremendo de medo, contou para os companheiros:
_ Vocês não vão acreditar! Imaginem que, pela primeira vez, encontrei uma galinha com dentes!!!


AUTOR: Lúcia Pimentel Góes
Enviado Neusa Cia

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Carinhos Quentes



Era uma vez um casal que se chamava Antonio e Maria. Tinham dois filhos e moravam felizes, numa cidadezinha do interior. Naquele lugar, todos, ao nascerem, recebiam um saquinho de carinhos. Cada vez que uma pessoa colocava a mão no saquinho, retirava de lá um carinho quente. Esses carinhos quentes faziam as pessoas se sentirem aconchegantes e cheias de amor umas pelas outras.

Todos ali sabiam que quando uma pessoa não recebia carinhos quentes, corria um sério risco de pegar uma doença, que as fazia murchar e morrer.

Era muito fácil receber carinhos quentes. Bastava pedir a alguém.

A pessoa que dava o carinho quente, colocava a mão na sacolinha, retirava de lá o carinho, que se expandia com uma luz, que podia ser colocada no ombro, na cabeça, ou no colo de quem estava recebendo o carinho quente.

Escondida numa caverna, uma bruxa má estava muito chateada porque naquela cidade ninguém ficava doente, para comprar os seus ungüentos. Além do mais, os carinhos quentes eram distribuídos a todos, de graça e, por isso, o acesso era livre. Assim, eram todos felizes.

Então, a bruxa inventou um plano muito malvado, que faria as pessoas comprarem os seus remédios. Vestiu seu disfarce e, numa manhã, foi até a casa de Antonio, fingindo ser sua amiga. “Olha, Antonio, veja os carinhos que Maria está dando aos filhos. Se ela continuar assim, vai consumir todos os carinhos com as crianças e, com o tempo, não sobrará nenhum carinho para você.”

Perplexo, Antonio perguntou:”Quer dizer, então, que não é sempre que existe um carinho quente na sacola?”

“Claro que não”, respondeu a bruxa. “O mais grave é a notícia que vou lhe dar em primeira mão, porque sou sua amiga: todos os carinhos quentes estão acabando. Cada pessoa tem que economizar o seu carinho e só usar quando for numa ocasião muito importante”.

Preocupado, Antonio começou a reparar cada vez que Maria dava um carinho a alguém ou aos filhos. Começou a se queixar para ela, alegando que ela dava mais carinho para os filhos e amigos do que para ele. Aos poucos, Antonio reservou seus carinhos quentes, apenas para Maria, e em doses homeopáticas. As crianças, percebendo a ausência de carinhos, começaram, também, a economizar os seus. Dia após dia, todos foram ficando mesquinhos.

Rapidamente, a história de que os carinhos quentes iriam acabar, tomou conta da cidade. Todos passaram a guardar seus carinhos. Assim, aos poucos, as pessoas foram ficando doentes e, cada vez mais gente ia comprar os remédios da bruxa.

Assustada com o crescimento da clientela, a bruxa começou a vender carinhos falsos, que imitavam perfeitamente os carinhos quentes, mas não surtiam os mesmos efeitos. Enganadas, as pessoas não morreriam, mas continuariam a comprar seus ungüentos e poções. A situação ficou grave, porque, a cada dia, havia menos carinhos quentes, e esses ficaram valiosíssimos. As pessoas, então, tentavam de tudo para conseguí-los.

Antes da chegada da bruxa, as pessoas se juntavam nas calçadas, em grupos de três, cinco, até mais, para darem carinho umas às outras. Agora, a situação estava tão grave que, se alguém desse um carinho quente para outra pessoa, logo se sentia culpada.Assim, o comércio da venda de carinhos quentes falsos começou a crescer. As pessoas, que não conseguiam encontrar parceiros generosos, que lhes dessem carinhos quentes, precisavam trabalhar para comprar carinhos falsificados.
Então, naquela cidade, se multiplicaram as possibilidades de venda de carinhos. Até espinhos frios foram revestidos com uma cobertura branquinha e estofados, para imitar os carinhos quentes. Ah! Apareceram, também, os carinhos de plástico, que faziam as pessoas se sentirem bem, por alguns instantes, mas logo ficavam mal.
Num belo dia, chegou àquela cidade, uma mulher especial. Ela desconhecia a história do fim dos carinhos quentes e distribuía carinho a todos e de graça, mesmo a quem não tivesse pedido. As crianças gostavam muito daquela mulher e passaram a chamá-la de pessoa especial. Aquela mulher dizia que, quanto mais carinhos as pessoas dessem às outras, melhor elas se sentiriam. Era como uma recarga de novas energias, em forma de carinhos quentes. Os adultos, preocupados, fizeram uma lei dizendo ser crime distribuir carinhos quentes sem uma licença.
Mesmo assim, as crianças daquele lugar, ainda hoje, teimam em trocar carinho com a pessoa especial.

História enviada por Edileusa Menezes, retirada do blog: Proportoseguro.blogspot.com

A Esperteza do Macaco




Contam que, certa vez, o Compadre Macaco queria se casar com a filha da Comadre Onça. O problema é que o Compadre Calango também queria e eles não entravam num acordo.
Quando o Macaco soube das intenções do Calango, correu na casa da Onça (correu é modo de dizer) e disse a ela que o Calango não era de nada, que ele era na verdade o seu cavalo.
Quando o Calango soube disso, correu na casa da Onça e disse que aquilo era mentira e que iria buscar o Macaco par dar-lhe uma lição ali mesmo, na frente da casa da Comadre.
O Macaco estava em casa descansando quando o Tico-Tico voou e avisou o que estava acontecendo e que o Calango estava indo pra lá. Compadre Macaco, esperto como ele só, amarrou um lenço na cabeça fingindo que estava doente e começou a gemer de dor.
Quando o Calango chegou e chamou o Macaco, ele respondeu com a voz bem fininha que estava muito doente e que não poderia sair para atendê-lo.
O Calango disse que queria que ele fosse com ele até a casa da Comadre Onça para desfazerem um mal entendido. O Macaco deu um monte de desculpas, dizendo que não podia nem levantar da cama, que estava muito doente e não tinha como acompanhar o amigo. O Calango teimou tanto, mas teimou tanto, que o Macaco lhe disse:
__ Olha Compadre, poderia ir se você me levasse nas costas.
__ Olha Compadre Macaco, posso até te carregar, mas só se for até a capoeira atrás da toca da Onça.
__ Combinado Compadre Calango, mas deixe-me colocar meu arreio e sela em você porque tenho medo de cair e já estou doente e fraco.
__ De jeito nenhum , não sou cavalo.
__ Sinto muito, mas então eu não vou.
O calango vendo que não tinha outro jeito de levá-lo acabou concordando.
O Macaco colocou a sela e o arreio e ainda pediu:
__ Compadre, agora preciso colocar minha rédea para eu não cair.
Nova discussão, mas o Macaco convenceu a colocar sua rédea e até um par de esporas.
O Macaco montou na sela, no lombo do Calango, e os dois se encaminharam para a toca da Onça. Quando chegaram perto da capoeira da mata, o Calango pediu:
__ Compadre, tire estes apetrechos todos que assim fica muito feio pra mim. Vão achar que eu sou seu cavalo.
__ Calango Compadre- replicou o Macaco- estou tão doente que nem me agüento em pé. Ande mais um pouquinho só.
Caminharam mais um pouco e novamente o Calango pediu ao Macaco que descesse e tirasse tudo aquilo. E o Macaco , esperto e malandro dizia:
__ Paciência Compadre, estou muito doente e não posso caminhar. Mais um pouquinho só.
E assim foi. O Macaco enrolou, enrolou e o Calango acabou chegando na porta da toca da Onça. Quando chegou lá, o Macaco bateu com as esporas no Calango e gritou:
__ Olha só, Não disse que o Calango era o meu cavalo?
Venham todos ver o meu cavalo.
Todos os bichos se reuniram em volta do Macaco dando muitas risadas. O Macaco, vitorioso, gritou para a filha da Onça:
__Venha moça, monte na minha garupa e vamos nos casar.
Depois disso, o Compadre Calango nunca mais falou e nem se meteu com o Compadre Macaco.
E entrou por um pé de pinto, saiu por um pé de pato.
Quem quiser que conte quatro.

História Enviada por Neusa Lúcia Braga Cia

terça-feira, 6 de outubro de 2009

A Menina que Não Era Maluquinha


(RUTH ROCHA)
Maluquinha, eu? Eu não! Não sou nenhuma maluquinha!

Quem me pôs esse apelido foi aquele menino de casacão e panela na cabeça.

Ele me botou esse apelido quando eu fui brincar na casa do Mauricinho. Eu nem queria ir. Mas a mãe dele telefonou pra minha mãe, ela disse que o Mauricinho era muito tímido e que ela queria que ele brincasse com umas crianças mais... Não sei o que ela disse, acho que ela queria que ele brincasse com umas crianças mais descoladas...

aí minha mãe me encheu um pouco e eu acabei indo.

A gente chegou na casa do Mauricinho e foi logo almoçar.

E depois do almoço a mãe dele botou a gente pra fazer a lição.

Eu não me incomodo de fazer lição logo depois do almoço, porque eu fico logo livre.

Mas a mãe do Mauricinho começou a fazer uns discursos sobre responsabilidade e coisa e tal, que a gente já era grandinha e tinha que cumprir com os compromissos... Um saco!

Eu tô careca de saber disso! E então eu fiz minha lição correndo e o Mauricinho ficou lá toda a vida, ele não acabava mais de fazer a lição dele. Aí eu comecei a rodar pela casa até que encontrei um gato. Gato não, gata. Chamava Pom-pom. Ou era Fru-fru... Ou era Bom-Bom, sei lá. E eu peguei a gata e ela estava meio fedida.

Então eu resolvi dar um banho nela. Gato não gosta de banho, vocês sabem.

Mas meu avô tinha me contado que quando ele queria dar banho no gato ele botava o bicho dentro da banheira e ele não conseguia sair e meu avô dava banho à vontade!

Mauricinho tinha um banheiro dentro do quarto dele.

Quando eu fui chegando perto da banheira a gata arrepiou toda e eu joguei ela bem depressa lá dentro e tapei o ralo e enchi de água.

E esfreguei a gata todinha com um shampoo todo perfumado que tinha lá e eu estava achando que todo mundo ia gostar de ver a gata toda limpinha. A gata estava muito infeliz e ela miava miaaauuu... e tentava sair do banho, mas meu avô tinha razão: ela arranhava a parede da banheira, mas não conseguia sair.

Mas acho que aí caiu shampoo no olho da gata, porque ela deu um pulo e agarrou na minha roupa e conseguiu pular fora e saiu correndo, espalhando espuma de shampoo por todo lado e nisso a mãe do Mauricinho vinha chegando e levou o maior susto e caiu sentada e a gata continuou correndo e assustando todo mundo e respingando tudo de espuma.

Eu não sei quem estava mais assustado: se era o Mauricinho, a mãe dele, a gata, ou se era eu.

Eu corri atrás da gata, mas ela pulou pela janela, atravessou o jardim, saiu pela rua e eu atrás.

Só que no meio da rua estava a turma daquele menino, aquele da panela na cabeça, e a gata passou pelo meio deles todos e eu atrás!

E eles levaram o maior susto, cada um correu para um lado, e atrás de mim vinha a mãe do Mauricinho e o Mauricinho e a cozinheira e o jardineiro todos correndo e gritando e eu resolvi correr para a minha casa e me esconder lá.

Mas no dia seguinte... a escola toda já sabia da história e aquele menino, aquele da panela na cabeça começou a me chamar de maluquinha... Mas eu não sou maluquinha, não! Só se for a vó dele!


(História enviada por Sueli Monzani)

sábado, 26 de setembro de 2009

A JOANINHA QUE PERDEU SUAS PINTINHAS



Tininha era uma pequena joaninha que passeava sozinha e ao atravessar um rio escorregou num galho e caiu nas águas e começou a gritar:
- Socorro, socorro...
Ela não sabia nadar e se debatia nas águas, e acabou virando as asas para baixo e começou a remar.
Quando alcançou a margem começou a caminhar, pois precisava voltar para casa senão sua mãe ficaria preocupada.
Ao chegar começou a gritar:
- Oi mamãe, já voltei!
-Nunca mais vou me atrasar.
-Por favor, mamãe, fale comigo, eu quero te abraçar!
E sua mamãe lhe disse:
- Você não é minha filha, não queira me enganar.
- Minha filha é pintadinha, volte já para o seu lugar.
Foi neste momento que ela percebeu que estava sem suas pintinhas.
Então tininha ficou muito assustada e começou a chorar,
Precisava de suas pintinhas, para poder voltar para sua casa.
Então voltou logo para o rio, na esperança de encontrar todas as pintas das asas que ela perdeu ao nadar.
Subiu numa folha verde e foi navegando pelo rio.
E todos que encontrava, parava para perguntar:
-Você viu as pintinhas que estavam nas minhas asinhas?
- Se você encontrar , faça o favor de me avisar.
Passou embaixo da ponte, viu peixinhos, parou para admirar a natureza, e nem viu o tempo passar.
Viu o sol se esconder...
E o céu todo a se estrelar.
E voltou a navegar.
E só se deu conta de si quando foi lançada ao mar...
- Onde estou?
- Que água é essa que só fica balançando?
Agora é muito mais difícil, as minhas pintinhas encontrar.
Saiu andando na areia, de cabeça baixa, triste e chorando.
Acabou se esbarrando num sapato e ergueu sua cabecinha, era um jovem pintor que estava pintando um quadro do mar, tinha um barco lá no fundo, gaivotas a voar.
O pintor pegou tininha e pôs na palma da mão e disse:
- Você não é borboleta...
- Você não é camarão...
- Você não é siri...
- Quem é você então?
- Sou apenas uma joaninha que perdeu as pintinhas, disse ela ao pintor.
- Se você não me ajudar, não posso voltar para casa.
E o pintor muito cuidadoso começou a trabalhar. Tinha um sério compromisso; ajudar a joaninha.
Com a tinta e o pincel começou a desenhar as pintinhas de suas asas.
Quando estava retornando sua amiga inseparável correu na frente para avisar:
- Dona Joana, dona Joana, sua filha está chegando.
E assim foi preparada a grande festa para comemorar a sua volta ao querido lar.
E a sua mãe ela foi correndo abraçar.



Ducarmo Paes – Ed Noovha América
Adaptação: JOJOBA – 16-09-09

A lenda do guaraná


Roberval Cardoso

Das tribos da Munducurucânia, eram os mais prósperos — os maués. Venciam as guerras, as colheitas eram fartas, as peças abun­dantes e as doenças raras.
Todo esse bem-estar, diziam eles, decorria da presença de um certo curumim (menino) que há alguns anos nascera na tribo, e, por isso, a atenção e cuidados que lhe dispensavam eram enormes; se ia à pesca, sua igarité era acompanhada de outras, com hábeis pescadores, que o desviavam das águas infestadas de piranhas, jacarés ou puraquês; se entrava na mata, mateiros experimentados o afas­tavam das castanheiras em safra ou dos ninhos de tocandiras assa­nhadas.
Mas, um dia, a vigilância foi burlada... Jurupaí, o génio do mal, disfarçado em cascavel, feriu o curumim, num bote certeiro.
A tribo entrou em grandes lamentações e durante horas seguidas as preces e os gritos de desespero se espalharam pelas florestas e águas negras do Maué-açu.
Tupã atendeu as lamentações e uma voz, que não se sabe de onde veio, determinou:
— Tirem os olhos da criança, plantem na "terra firme", reguem com lágrimas e deles nascerá a "planta da vida", aquela que fortale­cerá os jovens e revigorará os velhos...
Os pajés arrancaram e plantaram os olhos do curumim morto. Durante quatro luas, os guardas da preciosa sementeira velaram e re­garam a terra com lágrimas.
Uma nova planta surgiu, travessa como os curumins, procuran­do subir às árvores próximas, de hastes escuras e sulcadas como os músculos dos guerreiros. E quando frutificou, seus frutos de negro azeviche, envoltos no arilo branco e embutido em duas cápsulas vermelho-vivas, eram sem dúvida a multiplicação milagrosa dos olhos do príncipe maué.
E ela realmente trouxe o progresso da tribo, pelo abundante comércio de seus grãos, e os sábios confirmaram a lenda — fortalece, os fracos, conserva os jovens, rejuvenesce os velhos.



Retirado do livro Estarias e lendas da Amazónia. Seleção e introdução de Anísio Mello, Edigraf.

sábado, 8 de agosto de 2009

Pedro Malasartes e as três botijas de azeite


Um dia, Pedro Malasartes foi ter com o rei e lhe pediu três botijas de azeite, prometendo-lhe levar em troca três mulatas moças e bonitas. O rei aceitou o negócio.
Pedro saiu e foi ter à casa de uma velha, ali pela noitinha; pediu-lhe um rancho, e que lhe botasse as botijas no poleiro das galinhas. A velha concordou com tudo. Alta noite, Pedro Malasartes levantou-se, foi de pontinha de pé ao poleiro, quebrou as botijas, derramou o azeite, lambuzando as galinhas. De manhã muito cedo Malasartes acordou a velha, e pediu-lhe as botijas de azeite. A velha foi buscá-las, e, achando-as quebradas, disse: "Pedro, as galinhas quebraram as botijas e derramaram o azeite." "Não quero saber disso", disse Pedro, "quero aqui meu azeite, senão quero três galinhas."

A velha ficou com medo, deu-lhe as três galinhas. Malasartes partiu e foi à noite à casa de outra velha; pediu abrigo e que agasalhasse aquelas três galinhas entre os perus. A velha, como tola, consentiu. Alta noite, Pedro se levantou, foi ao quintal e matou as três galinhas, besuntando de sangue os perus. No dia seguinte, bem cedo, acordou a velha, pedindo as suas galinhas, porque queria seguir viagem. A velha foi buscá-las e encontrou-as mortas: voltou aflita, contando a Malasartes. Ele fez um grande barulho até levar seis perus em troca das galinhas.

Na noite seguinte, foi ter à casa de um homem que tinha um chiqueiro de ovelhas, e pediu-lhe para passar a noite em sua casa e que lhe agasalhasse aqueles perus lá no chiqueiro das ovelhas, porque bicho com bicho se acomodavam bem. O homem assim fez. Tarde da noite, Pedro foi ao lugar onde estavam os perus e matou-os a todos, lambregando de sangue as ovelhas. Pela manhã levantou-se bem cedo e pediu ao dono da casa seus perus. O homem, indo-os buscar, achou-os mortos, e voltou muito aflito, dizendo:

"Pedro não sabe? As ovelhas mataram os seus perus. Ouvindo isto, Malasartes fez um grande espalhafato, gritando que o homem havia matado os perus do rei e recebeu seis ovelhas pelos perus.

Largou-se, indo dormir na casa de um homem que tinha um curral de bois. Ai ele fez as mesmas artimanhas, até pegar seis bois pelas ovelhas. Mais adiante ele encontrou uns vendilhões de ouro e trocou os bois por ouro. Mais adiante, encontrou uns homens que iam carregando uma rede com um defunto. Pedro perguntou quem era, disseram-lhe que era uma moça. Ele pediu para ir enterrá-la e eles deixaram. Logo que os homens se ausentaram ele tirou a moça da rede, encheu-a de bastante ouro e enfeite, e foi ter com ela nas costas à casa de um homem rico que havia ali perto. Pediu rancho, disse às filhas do tal homem que aquela era a filha do rei que estava doente, e ele andava passeando com ela, então pediu que a fossem deitar. Foram levar a moça para uma alcova, indo Malasartes com ela, dizendo que só com ele, ela se acomodava. Deitou a moça defunta na cama e retirou-se, dizendo às donas da casa:

"Ela custa muito a dormir, ainda chora como se fosse uma criança; quando chorar, metam-lhe a correia."

Alta noite, Pedro foi e se escondeu debaixo da cama onde estava a morta e pôs-se a chorar como menino. As moças da casa, supondo ser a filha do rei, deram-lhe muito até ela se calar, que foi quando Pedro se calou. Depois ele escapuliu e foi para seu quarto. De manhã ele pediu a filha do rei, e nada de a poderem acordar. Afinal perceberam que estava morta, e informaram a Malasartes. Ele pôs as mãos na cabeça, dizendo:

"Estou perdido; vou para a forca; me mataram a filha do rei!"

Os donos da casa ficaram muito aflitos e começaram a oferecer coisas pela moça, e Pedro sem querer aceitar nada, até que ele mesmo exigiu três mulatas das mais moças e bonitas. O homem rico as deu, e Pedro disse que dava uma desculpa ao rei sobre a morte da sua filha, e lhe dava de presente as três mulatas, para o rei não se agastar muito.

Malasartes largou-se e foi logo para o palácio, onde entregou ao rei as três mulatas com este dito: "Eu não disse a vossa majestade que lhe dava três mulatas pelas três botijas de azeite? Aí estão elas."

E o rei ficou muito admirado.


(Fonte: http://www.contos-web.com.br/home.html)

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

A galinha que criava um ratinho



Lá em cima daquele morro tem uma casinha branca, com teto de sapê. È tão pequenina que nem dá para ver daqui. Mas eu sei que tem, porque quando eu era pequena, assim que nem você, minha mãe me disse que tinha, e me contou a história que tinha acontecido nessa casa. Uma história que minha avó contou pra ela e eu vou contar pra você.
Nessa tal casa, há muito tempo, moravam um galo e uma galinha. Eles não tinham pintinhos e, como queriam ter muitos filhos, pegaram um ratinho pra criar. Cuidavam dele com todo carinho e dengo: davam comida, banho gostoso, contavam história, cantavam música, inventavam brincadeira, davam beijo (de bico), abraço (de asa) e faziam cafuné (do jeito bom que você imaginar).
Um dia, depois do almoço, a galinha foi lavar louça no rio. Antes de sair, recomendou:
_ Não abram a porta sem saber quem é. A raposa anda pelas redondezas...
Daí a pouco, bateram na porta:
PAM! PAM! PAM!
O galo tinha comido muito no almoço: caldo de canjica, bife de minhoca, salada de talo de couve, angu de fubá, bolo de milho. Depois, sentou na cadeira de balanço, pôs os óculos e ficou lendo jornal. Foi ficando com tanta moleza, que quando ouviu as batidas nem lembrou do que a galinha tinha dito e mandou:
_ Abre ali, meu filho.
O ratinho, que era muito rápido, num instante abriu. E a raposa _ porque era ela, como você já adivinhou_ ainda mais rápida, num instantinho menor ainda, viu que aquele ratinho não interessava, que ela só gostava de comer bicho de pena. Mas, num instantinho menorzinho que tudo, deu um pulo e comeu o galo inteirinho, de uma bocada só. Com jornal, óculos e até a cadeira de balanço. E foi embora.
O ratinho saiu correndo, entrou por um atalho e logo encontrou a galinha que já vinha voltando.
_ Mãe, você, que dá jeito em tudo, vai ter que dar jeito numa coisa terrível...
Contou logo o que havia havido. Pode ser que, se pudesse, a galinha tivesse chorado e arrancado as penas. Mas não dava tempo para fricote. Por isso, ela falou:
_ Vai em casa correndo, pega a minha cestinha de costura e uma garrafa de cachaça. Depressa!
O ratinho foi.
Aí, a galinha deixou a garrafa de cachaça bem no meio da estrada e se escondeu atrás de uma árvore, com o filho.
A raposa apareceu e viu a garrafa:
_ Oba! Nada como uma pinguinha para ajudar a digestão do almoço...
E bebeu a garrafa toda. Claro, ficou bêbeda. Resolveu descansar na sombra de uma árvore. Num minuto estava roncando. A galinha aproveitou, abriu a cesta de costura, tirou a tesoura, cortou a barriga da raposa e tirou o galo lá de dentro. Ele saiu com o jornal todo amassado, os óculos entortados, a cadeira sem balanço, e não entendia o que tinha acontecido. Ficou resmungando:
_ Quem foi que apagou a luz de repente?
Nem deu tempo de explicar que ninguém tinha apagado luz nenhuma, era só escuridão de dentro da barriga da raposa. Agora todos tinham que ajudar:
A galinha dava as ordens:
_ Ponham aquela pedra na barriga dela!
Eles puseram. A galinha foi costurando. Bem a tempo, porque a raposa já estava se espreguiçando, com jeito de acordar.
Os três correram e se esconderam.
_ Que sede! _ reclamou a raposa.
_ Acho que aquele galo estava muito velho, está pesando muito no meu estômago... Vou beber água.
Ainda tonta de tanta cachaça, foi até o rio. O dia estava quente, ela acabou entrando na água pra se refrescar.
A pedra pesava muito, foi afundando, e a correnteza foi levando a raposa, levando, levando. Deve estar levando até hoje, se é que já não chegou ao mar...
A galinha, o galo e o ratinho voltaram para casa. E o galo aprendeu que pai não tem nada de ficar mandando filho fazer as coisas só porque ele está com preguiça de levantar.
Um dia, a mulher pode não estar por perto para dar um jeito e ele pode se dar muito mal.

Ana Maria Machado.
História enviada por Neusa Lucia Braga Cia

sábado, 25 de julho de 2009

Pra quem gosta de Histórias


O que é?
Curso para formação de contadores de histórias, ministrado pelos Contadores e Arte-educadores Amauri de Oliveira e Roberto Isler da Casa Encantada e Cia Xekmat, para contadores, professores, profissionais da área de saúde, bibliotecas ou pessoas interessadas em aprender as técnicas de contação de história.

Inscrições:
Até 14 de Agosto de 2009, pelos telefones:
(19)3463-7889 – (19)3463-3601 – 9767-2582 com Renata, Amauri ou Roberto

Como é:
O curso consiste em 12 aulas, uma por semana, sempre aos sábados das 13:30 às 15:30, em 03 meses, tendo a carga horária semanal de 2 horas, mais 06 horas de trabalhos, num total de 30 horas, com certificado.
Poucas vagas por turma

Temas trabalhados:
● Técnicas de contação de histórias
● Expressão Facial e corporal
● Uso de música na contação
● Uso de objetos
● Vestimentas
● Voz e entonação
● Tipos de histórias
● Improvisação, entre outros

Duração:
Início: 15 de agosto (sábado) até 07de novembro de 2009

Investimento:
R$ 70,00 mensais.

Local:
A Casa Encantada: Ponto de Leitura do Ministério da Cultura e da Rede Biblioteca Viva, local especialmente criado para a contação de histórias, em diferentes e divertidos ambientes, destinado à visitação de crianças jovens e adultos.
Endereço: Avenida da Saudade, 707, Esquina com Rua Ceará, V. Grego, Santa Bárbara d’Oeste, SP

Vagas limitadas. Informações e inscrições:

(19)3463-7889 – (19)3463-3601 – 9767-2582
Com Renata, Amauri ou Roberto

amauri_xekmat@yahoo.com.br

domingo, 5 de julho de 2009

Caixinha



Um granjeiro pediu certa vez a um sábio, que o ajudasse a melhorar sua granja, que tinha baixo rendimento. O sábio escreveu algo em um pedaço de papel e colocou em uma caixa, fechou e entregou ao granjeiro, dizendo: "Leva esta caixa por todos os lados de sua granja, três vezes ao dia, durante um ano".

Assim fez o granjeiro. Pela manhã, ao ir ao campo segurando a caixa, encontrou um empregado dormindo, quando deveria estar trabalhando. Acordou-o e chamou sua atenção. Ao meio dia, quando foi ao estábulo, encontrou o gado sujo e os cavalos sem alimentar.

E à noite, indo à cozinha com a caixa, deu-se conta de que o cozinheiro estava desperdiçando os gêneros. A partir daí, todos os dias ao percorrer sua granja, de um lado para outro, com seu amuleto, encontrava coisas que deveriam ser corrigidas.

Ao final do ano, voltou a encontrar o sábio e lhe disse: "Deixa esta caixa comigo por mais um ano; minha granja melhorou o rendimento desde que estou com o amuleto." O sábio riu e, abrindo a caixa, disse:- "Podes ter este amuleto pelo resto da sua vida." No papel havia escrito a seguinte frase: "Se queres que as coisas melhorem, deves acompanhá-las constantemente."

História do Grão-de-Milho


ERA UMA VEZ uns casados e não tinham filhos. A mulher tanto pediu a Nossa Senhora que lhe desse um filho, ainda que fosse do tamanho de um grão de milho, que ao fim de nove meses ela pariu um filho, mas tão pequeno, tão pequeno, que era mesmo do tamanho de um grão de milho. Foi-se passando tempo e o pequeno não crescia nada, de sorte que ficou sempre do mesmo tamanho.
O pai era lavrador e, quando andava a trabalhar no campo, era o Grão-de-Milho que lhe ia levar o jantar numa cesta; mas, como era tão pequeno, ninguém o via o que fazia correr aquela cesta pela rua abaixo. O pai recomendava-lhe que não se chegasse para o pé dos bois, mas uma vez que ele tinha ido levar o jantar ao pai, a brincar trepou para cima de uma folha de milho e um dos bois, pensando que era um grão de milho, lambeu-o com a língua. O pai quando quis voltar para casa, por mais que o procurasse não deu com ele, mas tanto chamou que por fim ouviu responder que o boi o tinha comido e estava dentro da tripa. O pai ficou muito aflito e matou logo ali o boi e começou a procurá-lo nas tripas, mas por mais que procurasse não o encontrou, até que deixou ficar tripas e tudo. De noite um lobo, atraído pelo cheiro da carne, veio e comeu as tripas do boi, e deitou a fugir. O lobo teve umas grandes dores de barriga e o Grão-de-Milho começou a gritar-lhe: "C... aí, c... aí!" Mas o lobo, ouvindo isto teve tanto medo que mais fugia e não podia obrar. O Grão-de-Milho continuava a gritar: "C... aí, c... aí!", até que o lobo tão atrapalhado se viu que fez as suas necessidades.

O Grão-de-Milho logo que saiu para fora, lavou-se muito bem lavado numa pocinha que ali estava e foi por ali fora. No meio caminho encontrou uns almocreves que levavam os machos carregados de dinheiro e disse-lhes. De repente, saltam uns ladrões, matam os almocreves e levam os machos com o dinheiro para uma casa que havia nuns pinherais. O Grão-de-Milho, como ia medito numa alforges, foi também sem ser pescado. Os ladrões despejaram o finheiro em cima de uma grande mesa e começaram a contá-lo. O Grão-de-Milho pôs-se debaixo da mesa e começou a gritar: "Quem dá dé-reis, quem dá dé-reis!" Os ladrões, assim que ouviram isto, tiveram tanto medo que deitaram a fugir. Então o Grão-de-Milho ensacou o dinheiro, pô-lo em cima dos machos e foi para casa.

Quando lá chegou, era ainda de noite e bateu à porta. O pai perguntou: "Quem está aí?" e ele respondeu: "Sou eu, meu pai; abra depressa." O pai veio logo abrir a porta e o Grão-de-Milho contou-lhe então tudo, entregou-lhe os machos e o dinheiro e o lavrador, que era pobre, ficou muito rico.
(Coimbra)

COELHO, Adolfo. Contos populares portugueses. 5. ed. Lisboa: Dom Quixote, 1999. pp. 181-182.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

3º Encontro Nacional de Contadores de Histórias


Pra quem gosta de uma boa história não pode perder o 3º Encontro Nacional de Contadores de Histórias.

Pré-inscrições e mais informações no site http://www.santabarbara.sp.gov.br/ no link do encontro.

sábado, 30 de maio de 2009

A ciência da preguiça

Era uma vez um velho turco que tinha só um filho e gostava mais dele que da luz dos próprios olhos.Sabe-se que para os turcos o maios castigo que Deus impôs ao mundo é o trabalho; por isso, quando seu filho completou catorze anos, pensou em colocá-lo na escola, para que aprendesse o melhor método para não fazer nada.
No mesmo bairro do velho turco, morava um professor, conhecido e respeitado por todos, pois durante toda a vida só fizera aquilo que não pudera evitar de fazer. O velho turco foi visitá-lo e o encontrou no jardim, deitado à sombra de uma figueira, com uma almofada sob a cabeça, outra sob as costas e uma sob o traseiro. O velho turco disse consigo mesmo: “Antes de conversar com ele, quero ver como se comporta” , e se escondeu atrás de uma sebe para espiá-lo.
O professor estava imóvel como um morto, de olhos fechados, e só quando ouvia: tchac !, um figo maduro que caía ao alcance da mão, esticava o braço de mansinho, levava-o à boca e o engolia. Depois, de novo imóvel como um tronco, esperava que caísse outro.
“Este é justamente o professor que desejo para meu filho”, disse o turco consigo mesmo e, saindo do esconderijo, cumprimentou-o e lhe perguntou se estava disposto a ensinar a seu filho a ciência da preguiça.
-Amigo - falou o professor com um fio de viz -, não fale tanto, pois me canso de ouvi-lo. Se quer educar seu filho e fazer com que se torne um turco de verdade, mande-o aqui, e basta.
O velho turco voltou para casa, pegou o filho pela mão, enfiou-lhe uma almofada de penas debaixo do braço e levou-o àquele jardim.
-Recomendo-lhe - disse-lhe - que faça tudo o que vir fazer seu professor de ócio.
O moço, que já tinha inclinação por aquela ciência, deitou-se também embaixo da figueira e viu que o professor, toda vez que caía um figo, esticava um braço para colhê-lo e comê-lo. “Por que essa canseira de esticar o braço ?”, disse para si mesmo, e ficou deitado de boca aberta. Um figo caiu em sua boca e ele, lentamente, engoliu-o, e depois reabriu a boca. Outro figo caiu um pouco mais longe; ele não se moveu, mas disse, bem baixinho:
- Por que tão longe? Figo, caia na minha boca!
O professor, vendo quanto era esperto o estudante, disse:
- Volte para casa, pois não tem nada a aprender comigo, pelo contrário, sou eu quem deve aprender com você.
E o filho retornou ao pai, que agradeceu ao céu lhe ter dado um filho tão talentoso.

História enviada por Vera Lúcia Ravagnani

A Falsa Avó



Uma dona de casa tinha de peneirar a farinha. Mandou sua menina para a casa da avó, para que ela lhe emprestasse a peneira. A menina preparou o cestinho com a merenda: roscas e pão feito com óleo; e se pôs a caminho.

— Rio Jordão, me deixa passar?

— Sim, se me der suas roscas.

O rio Jordão era louco por roscas e se divertia com elas, fazendo-as girar em seus redemoinhos.

A menina chegou à Porta Gradeada.

— Porta gradeada, me deixa passar?

— Sim, se você me der o pão feito com óleo.

A Porta Gradeada era louca por pão com óleo, pois tinha as dobradiças enferrujadas, e o pão feito com óleo as untava.

A menina deu o pão com óleo à porta, e a porta se abriu e a deixou passar.

Chegou à casa da avó, mas a porta estava fechada.

— Vovó, vovó, abra para mim.

— Estou de cama, doente. Entre pela janela.

— Não alcanço.

— Entre pela gateira.

— Não passo

— Então espere.

— Jogou uma corda e a puxou pela janela.

O aposento estava escuro. Quem estava na cama era a Ogra, não a avó, pois a avó fora devorada inteirinha pela Ogra, da cabeça aos pés, menos os dentes, que pusera para cozinhar numa panelinha, e as orelhas, que pusera para fritar numa frigideira.

— Vovó, mamãe quer a peneira.

— Agora é tarde. Amanhã vou entregá-la para você. Venha para a cama.
— Vovó, estou com fome, primeiro quero comer.

— Coma os feijões que estão cozinhando na panelinha.

Na panelinha estavam os dentes.

A menina mexeu com a colher e disse:

— Vovó, estão muito duros.

— Então coma as fritadas que estão na frigideira.

Na frigideira estavam as orelhas. A menina tocou nelas com o garfo e disse:

— Vovó, não estão crocantes.

— Então venha para a cama. Comerá amanhã.

A menina subiu na cama, perto da avó. Tocou numa de suas mãos e disse:

— Por que tem as mão tão peludas, vovó?

— Por causa dos muitos anéis que usava nos dedos.

Tocou em seu peito.

— Por que tem o peito tão peludo, vovó?

— Por causa do monte de colares que usava no pescoço.
Tocou em seus quadris.

— Por que tem os quadris tão peludos, vovó?

— Porque usava um espartilho muito apertado.

Tocou em sua cauda e pensou que, com ou sem pêlos, a avó jamais tivera um rabo.

Aquela devia ser a Ogra e não sua avó. Então disse:

— Vovó, não consigo dormir se antes não fizer uma necessidade.
A avó disse:
— Vá fazer na estrebaria, faço você descer pelo alçapão e depois volto a puxá-la.

Amarrou-a com a corda e a baixou na estrebaria. Assim que se viu no chão, a menina se desamarrou e amarrou uma cabra na corda.
— Terminou? disse a avó.
— Espere um momentinho. Acabou de amarrar a cabra.

— Pronto, terminei, pode me puxar.

A Ogra puxa, puxa, e a menina começa a gritar:

— Ogra peluda! Ogra peluda!

Abre a estrebaria e foge. A Ogra puxa e aparece a cabra. Pula da cama e corre atrás da menina.

Na Porta Gradeada, a Ogra gritou de longe:

— Porta Gradeada, não a deixe passar!

Mas a porta gradeada disse:

— Claro que a deixo passar, pois me deu pão com óleo.

No rio Jordão, a Ogra gritou:

— Rio Jordão, não a deixe passar!

Mas o rio Jordão disse:

— Claro que a deixo passar, pois me deu roscas.

Quando a Ogra quis passar, o rio Jordão não baixou suas águas e a Ogra foi arrastada. Na margem, a menina fazia caretas para ela.

fábula "A Falsa Avó", do livro "Fábulas Italianas", de Italo Calvino

História enviada por Vera Lúcia Ravagnani

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Meu livro, meu amor



Miguel Ángel Fernández-Pacheco


Sei que você é bem velho,
que já viveu milhares de anos.
Sei que seu coração
anda por toda a parte,
bilhões de vezes repartido.

Em milhares de bibliotecas.
Sei que você foi proibido
muitas vezes
e queimado outras tantas.

Mas te amo,
como se você tivesse nascido ontem,
como se fosse só meu,
e sua salvação
só dependesse de mim.

Como poderia não te amar?
Afinal, já vivi tanto
de sua luz e sua sombra.
Já sonhei tantas vezes
com você entre as mãos.
Graças a você já escapei da dor
e pude enfrentar a injustiça.
E você acabou se convertendo
em toda a minha memória
e, o que ainda é melhor,
em toda a memória da minha espécie.

Por isso posso sentir
que te amei desde menino
E vou te amar para sempre.
Por isso posso gritar
que você é a melhor ferramenta
da minha liberdade
e da liberdade de todos.

Reconheço que devo parecer exaltado.
Admito que as pessoas sorriem
quando ouvem estas coisas...
Mas quando nos apaixonamos
somos assim.

Na verdade, não me envergonho,
Só tenho orgulho,
por estas noites sem dormir
passadas ao seu lado.
Por esse tremor, emocionado
cada vez que te descubro...
Por essa pena de te perder
e a alegria de te reencontrar,
e até pela ansiedade que me consome
se não tenho você à mão.

Confesso que a paixão me cega
se digo, de tudo o que os homens fizeram
Você é o melhor e o maior,
Meu livro,
Meu amor...


E falando em livro:

Oficina: Contação de Histórias
Livrão das Histórias

O que é?
Oficina de confecção e utilização do “Livrão de Histórias”, livro gigante cenográfico, também usado para contar e guardar a história. Será ministrada por Amauri de Oliveira, Roberto Isler e Renata de Paula da Cia Xekmat, direcionado para profissionais da área de educação, saúde, bibliotecas ou pessoas interessadas em aprender novas técnicas e materiais para contação de história.

Inscrições:
Pelos telefones:
(19)3463-7889 – (19)3463-3601 – 9767-2582 com Renata, Amauri ou Roberto.
ou pelos e-mails: amaurigoliver@ig.com.br e roberto_isler@yahoocom.br

Estrutura da oficina:
A oficina consiste em 03 horas de trabalho, entre utilização e confecção.
Com certificado. 13:00 às 16:00
Poucas vagas por turma

Serão trabalhados:
· Exemplo de utilização prática
· Confecção do livrão de histórias
· Técnicas de montagem, recorte.
· e colagem
· Apostila com histórias e dicas

Data do Curso:
23 de maio (sábado) de 2009

Materiais necessários:
Caixas grandes de papelão
Pistola de cola quente grande
Bastões de cola quente
Tesoura (boa) e estilete
Fita crepe
Tecido ou TNT (suficiente p/ encapar as caixas por dentro e por fora)
Caneta

Investimento no Curso:
R$ 40,00

Local do Curso:
A Casa Encantada: Ponto de Leitura do Ministério da Cultura, projeto para contação de histórias, em diferentes e divertidos ambientes. End: Avenida da Saudade, 707, esquina com Rua Ceará, V. Grega Santa Bárbara d’Oeste. SP.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Ser mãe é isto (também)



Ser mãe é chegar do trabalho e ganhar um beijo estalado e um abraço apertado.

Ser mãe é deixar louça suja na pia e ir assistir Pica Pau bem tranquila no sofá.

Ser mãe é aprender a comer direito pra dar o exemplo.

Ser mãe é ganhar um bom dia com um beijinho sonolento todo dia.

Ser mãe é dizer “Eu te amo” toda hora e achar que não foi clara o suficiente.

Ser mãe é sorrir quando se tem vontade de chorar.

Ser mãe é chorar, mas ter uma mãozinha acariciando seus cabelos.

Ser mãe é dar: amor, carinho, atenção, abraços, beijinhos, broncas, declarações de amor.

Ser mãe é receber tudo isso de volta. Em dobro.

Ser mãe é deixar de comprar uma bolsa nova pra comprar um tênis pro filhote.

Ser mãe é deixar de assistir novelas porque as cenas são muito pesadas pra uma criança de 3 anos.

Ser mãe é contar milhões de vezes a mesma história.

Ser mãe é ouvir outras milhões de vezes a mesma musiquinha.

Ser mãe é chamar quatro ou cinco vezes pro banho.

Ser mãe é difícil.

Mas ser mãe é MARAVILHOSO!

sexta-feira, 17 de abril de 2009

O Fantasma Amarelo


Era uma vez um rei que vivia em um castelo AMARELO (melodioso), cercado por um imenso jardim cheio de cravos A-MA-RE-LOS. Esse rei tinha uma filha, que era muito linda. A princesinha era boa, obediente e estudiosa.
Todos os dias ela acordava muito cedo, tirava o seu pijaminha AMARELO (sussurrando) e vestia o seu vestido AMARELO (alegria). Ela gostava muito do seu vestido AMARELO (alegria) porque achava que esta cor ficava bem em vestidos. Porém os seus sapatos AMARELOS (desgosto) ela não gostava, não acha que sapatos deviam ser AMARELOS.
Depois disso ela ia dar uma volta no jardim e gostava de colher um cravo A-MA-RE-LO. Essa era a vida da menininha: Levantar, tirar o pijama AMARELO (sussurando), vestir o vestido AMARELO (alegria), os sapatos AMARELOS (desgosto) e cheirar o cravo A-MA-RE-LO.
Uma noite a princesinha estava dormindo muito gostosa na sua cama AMARELA, com lençóis AMARELOS, no seu travesseiro AMARELO, com o cobertor AMARELO, e o seu pijama AMARELO (sussurrando) quando levou o maior susto, na porta de seu quarto havia um enorme e horrível fantasma AMARELO (fastasmagórico). A menina imediatamente ficou com o rosto AMARmuito medo e ficou esperando que chegasse logo de manhã para contar para o seu pai.
No dia seguinte o rei estava muito ocupado, trabalhando em seu escritório quando a menininha chegou correndo dizendo?
- Papai, esta... noite... eu estava dormindo em minha cama AMARELA, com... lençóis.... AMARELOS, no... meu... travesseiro... AMA
RELO, com... cobertor AMARELO, e... meu... pijama AMARELO (sussurrando) quando... eu vi... um terrível... fantasma AMARELO!
Quando o rei ouviu a sua filha contar o caso do tal fantasma, disse logo:_ Minha filha fantasma não existe e nunca existiu. É peraltice do copeiro que é um rapaz muito brincalhão, de noite ele se enrola em um lençol AMARELO e sai pelos corredores do castelo AMARELO (melodioso), que tem um jardim cheio de cravos A-MA-RE-LOS para pregar sustos nos amigos. Mas eu vou acabar com essas brincadeiras de fantasmas AMARELOS (fantasmagórico)
Mandou chamar o chefe dos guardas que vestia uma linda farda AMARELA.
- Pronto Majestade! As ordens!
O rei disse:
- Chefe dos guardas, alguma coisa está errada no castelo AMARELO (melodioso) envolto de jardins com cravos A-MA-RE-LOS. Esta noite minha filha foi dormir e tirou o seu vestido AMARELO (alegria) e o seu sapato AMARELO (desgosto) vestiu o seu pijama AMARELO (sussurro) e deitou na sua cama de lençóis AMARELOS, com travesseiro AMARELO e cobertor AMARELO, e dormiu quando de repente ouviu um barulho no corredor e acordou. Pois bem, na porta do quarto minha filha viu um fantasma AMARELO (fantasmagórico)
- Já sei disse o chefe dos guardas que vestia uma linda farda AMARELA. É o Sebastião, o copeiro. Certamente é brincadeira do Sebastião. Toda a noite ele faz isso e sai pelos corredores do castelo AMARELO (melodioso), que tem em volta jardins cheios de cravos A-MA-RE-LOS a dar sustos em todo o mundo.
- Então, você tem que dar um jeito nisso!
- Deixe comigo, pois eu já sei o que vou fazer.
O chefe dos guardas de farda AMARELA, preparou uma lata de tinta bem grande. Tinta azul bem forte. E ficou escondido np alto da escada atrás da porta.
Enquanto isso a princesinha se preparava para dormir. Tirou o vestido AMARELO (melodioso) e os sapatos AMARELOS(desgosto) vestiu o pijama ANMARELO(sussurrando) e se deitou na cama de lençois AMARELOS, morrendo de medo que o fantasma AMARELO (fantasmagórico) aparecesse.
De repente na escada começou-se a ouvir um hhap chap... Quem seria?
O fantasma AMARELO (fantasmagórico).
Era o Sebastião, o copeiro peralta, que gostava de se enrolar em um lençol AMARELO e fingir que era um fantasma AMARELO (fantasmagórico). Quando o Sebastião estava bem no meio da escada, o chefe dos guardas tomou a lata de tinta azul e zás – despejou a tinta azul em cima do Fantasma que ficou...
Que ficou...
Neste momento as crianças poderão ficar em dúvida se dizem amarelo ou mesmo azul, mas o correto é VERDE que é a mistura de amarelo com azul.
(Adaptação do original de Malba Tahan)

sábado, 4 de abril de 2009

A Formiguinha


Diz que era um dia que era uma formiguinha, foi comer pela manhã. Quando ela estava comendo, a neve pegou o pé. Ela disse:

— Neve, tu é tão valente
Que o meu pé prende?

A neve disse:
— Mais valente é o sol
Que me derrete

Ela foi à procura do sol:
— Ó, sol, tu é tão valente
Que derrete a neve
Que o meu pé prende?

O sol disse:
— Mais valente é a parede
Que me encobre

Ela foi para a parede:
— Ô, parede, tu é tão valente
Que encobre o sol
O sol derrete a neve
E a neve o meu pé prende?
A parede disse:
— Mais valente é o rato
Que me rói
Ela foi à procura do rato:
— Ô, rato, tu é tão valente
Que rói a parede
A parede encobre o sol
O sol derrete a neve
E a neve o meu pé prende?

O rato disse:
— Mais valente é o gato
Que me come

A formiguinha disse:
— Ô gato, tu é tão valente
Que come o rato
O rato rói a parede
A parede encobre o sol
O sol derrete a neve
E a neve que o meu pé prende?

Ele disse:
— Mais valente é a cobra
Que me morde

— Ô, cobra, tu é tão valente
Que morde o gato
O gato que come o rato
O rato que rói a parede
A parede que encobre o sol
O sol que derrete a neve
E a neve que o meu pé prende?
— Mais valente é o pau
Que me mata

— Ô, pau, tu é tão valente
Que mata a cobra
A cobra que morde o gato
O gato que come o rato
O rato que rói a parede
A parede que encobre o sol
O sol que derrete a neve
E a neve que o meu pé prende?

— Mais valente é o fogo
Que me queima

— Ô, fogo, tu é tão valente
Que queima o pau
O pau que mata a cobra
A cobra que morde o gato
O gato que come o rato
O rato que rói a parede
A parede que encobre o sol
O sol que derrete a neve
A neve que o meu pé prende?

— Mais valente é a água
Que me apaga

— Ô, água, tu é tão valente
Que apaga o fogo
O fogo queima o pau
O pau que mata a cobra
O gato que come o rato
O rato que rói a parede
A parede que encobre o sol
O sol que derrete a neve
A neve que o meu pé prende?

— Mais valente é o boi
Que me bebe

— Ô, boi, tu é tão valente
Que bebe a água
A água apaga o fogo
O fogo que queima o pau
O pau que mata a cobra
A cobra que morde o gato
O gato que come o rato
O rato que rói a parede
A parede que encobre o sol
O sol que derrete a neve
E a neve que o meu pé prende?

— Mais valente é o homem
Que me mata

— Ô, homem, tu é tão valente
Que mata o boi
O boi que bebe a água
A água que apaga o fogo
O fogo que queima o pau
O pau que mata a cobra
A cobra que morde o gato
O gato que come o rato
O rato que rói a parede
A parede que encobre o sol
O sol que derrete a neve
E a neve que o meu pé prende?

— Mais valente é Deus
Que me criou

— Ô, Deus, vós é tão valente
Que mata o homem
O homem que mata o boi
O boi que bebe a água
A água que apaga o fogo
O fogo que queima o pau
O pau que mata a cobra
A cobra que morde o gato
O gato que come o rato
O rato que rói a parede
A parede que encobre o sol
O sol que derrete a neve
E a neve que o meu pé prende?

Ele disse:
— Ô xente!... que desaforo você vim aqui...
Aí Deus pegou, deu um cocorote — pá! — na cabeça da formiguinha... se retorceu toda, quando caiu em baixo... esses formigueiros todos que têm pelo mundo foi gerado dessa formiguinha.

Versão procedente de Maruim, SE, colhida em Aracaju, em 14 de abril de 1972. Informante: Dona Caçula.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Histórias





Quem inventa uma historinha,CRIA.
Quem adapta ou reconta, RECRIA,
Quem inventa uma nova história, baseada na primeira, TRANSCRIA.

O TEXTO é uma criação.
O TRANSTEXTO é uma recriação.
O HIPERTEXTO é uma transcriação, baseada num primeiro texto,
chamado hipotexto.

Uma historinha, portanto, pode ser
CRIADA, RECRIADA ou TRANSCRIADA,
isto é,
pode ser CONTADA, RECONTADA OU TRANSCONTADA.

As historinhas, como certos besouros, são CASCUDAS.
Os besouros cascudos parece que têm várias asas superpostas.
Assim também as historinhas:
à medida que voam de um lugar para outro, criam novas asas, novas cascas.

Luís da Câmara Cascudo era um mestre
na arte de registrar, estudar e comparar
as asas das HISTORINHAS CASCUDAS.


Horácio Dídimo
Enviado por Neusa Lucia Braga Cia

sexta-feira, 20 de março de 2009

Sempre não


Um cavaleiro, casado com uma dama nobre e formosa, teve de ir fazer uma longa jornada: receando acontecesse algum caso desagradável enquanto estivesse ausente, fez com que a mulher lhe prometesse que enquanto ele estivesse fora de casa diria a tudo: – Não. Assim pensava o cavaleiro que resguardaria o seu castelo do atrevimento dos pajens ou de qualquer aventureiro que por ali passasse. O cavaleiro já havia muito que se demorava na corte, e a mulher aborrecida na solidão do castelo não tinha outra distracção senão passar as tardes a olhar para longe, da torre do miradouro. Um dia passou um cavaleiro, todo galante, e cumprimentou a dama: ela fez-lhe a sua mesura. O cavaleiro viu-a tão formosa, que sentiu logo ali uma grande paixão, e disse:
– Senhora de toda a formosura! Consentis que descanse esta noite no vosso solar?
Ela respondeu:
– Não!
O cavaleiro ficou um pouco admirado da secura daquele não, e continuou:
– Pois quereis que seja comido dos lobos ao atravessar a serra?
Ela respondeu:
– Não.
Mais pasmado ficou o cavaleiro com aquela mudança, e insistiu:
– E quereis que vá cair nas mãos dos salteadores ao passar pela floresta?
Ela respondeu:
– Não.
Começou o cavaleiro a compreender que aquele Não seria talvez sermão encomendado, e virou as suas perguntas:
– Então fechais-me o vosso castelo?
Ela respondeu:
– Não.
– Recusais que pernoite aqui?
– Não.
Diante destas respostas o cavaleiro entrou no castelo e foi conversar com a dama e a tudo o que lhe dizia ela foi sempre respondendo
– Não.
Quando no fim do serão se despediam para se recolherem a suas câmaras, disse o cavaleiro:
– Consentis que eu fique longe de vós?
Ela respondeu:
– Não.
– E que me retire do vosso quarto?
– Não.
O cavaleiro partiu, e chegou à corte, onde estavam muitos fidalgos conversando ao braseiro, e contando as suas aventuras. Coube a vez ao que tinha chegado, e contou a história do Não; mas quando ia já a contar a modo como se metera na cama da castelã, o marido já sem ter mão em si, perguntou agoniado:
– Mas onde foi isso cavaleiro?
O outro percebeu a aflição do marido e continuou sereno:
– Ora quando ia eu a entrar para o quarto da dama, tropeço no tapete, sinto um grande solavanco, e acordo! Fiquei desesperado em interromper-se um sonho tão lindo.
O marido respirou aliviado, mas de todas as histórias foi aquela a mais estimada.


Conto Português

Os Sete Corvos



Houve uma vez um homem que tinha sete filhos e, por mais que desejasse, nem uma filha. Finalmente, certo dia, a mulher deu à luz uma menina. Foi grande a alegria de ambos, mas a menina nasceu tão franzina e tão débil que tiveram que batizá-la às pressas.
O pai mandou que um dos rapazes fosse depressa buscar água na fonte para a batizar; os outros seis foram junto e, como cada qual queria para si o privilégio de encher a bilha, esta caiu na água e desapareceu. Confusos, sem saber o que fazer e não ousando voltar para casa, quedavam-se lá parados. O pai, vendo que se demoravam tanto, impacientou-se:
- Aposto que aqueles marotos estão lá brincando e esqueceram-se da água!
E, com medo que a menina morresse sem batismo, gritou indignado:
- Quisera que se transformassem todos em corvos!
Mal acabou de pronunciar essas palavras, ouviu sobre a cabeça um ruflar de asas e viu sete corvos pretos como carvão alçarem vôo e desaparecerem.
Era tarde demais para retirar a maldição pronunciada num assomo de raiva. Mas, embora desolado com a perda dos sete filhos, procurava consolar-se com a menina, que se foi fortalecendo e se tornando cada dia mais bonita.
A menina ignorou, durante muito tempo, que tivera irmãos, porque os pais tinham o cuidado de não aludir a eles. Certo dia, porém, ouviu os vizinhos comentarem que ela era de fato muito linda, mas não deixava de ser a causa da desgraça de seus sete irmãos. Ouvindo isso, a menina ficou profundamente triste e perguntou aos pais se já tivera irmãos e o que era feito deles.
Os pais, então, não puderam mais ocultar a verdade e contaram-lhe tudo, dizendo que fora um decreto do Céu e que seu nascimento não fora mais que inocente pretexto.
A menina, porém, vivia amargurada com a idéia de ter sido a causa de seus males e achava que devia fazer tudo para libertar os irmãos. Não teve mais sossego e, um belo dia, saindo furtivamente de casa, foi pelo mundo afora, decidida a libertá-los, custasse o que custasse. Não levou consigo mais que um anelzinho ganho dos pais como lembrança; um pão para matar a fome, um cântaro de água para saciar a sede e uma cadeirinha para descansar quando estivesse cansada.
Andou, andou, sempre para frente, longe, longe, até o fim do mundo. Chegou onde estava o Sol, mas ele era muito quente e assustador e gostava de devorar as crianças. Então fugiu depressa e foi onde estava a Lua, mas esta era muito fria, severa e má. Vendo a menina, disse:
- Sinto cheiro, sinto cheiro de carne humana!
A menina fugiu, correndo o mais rapidamente possível e foi onde estavam as estrelas, que a receberam gentilmente e com muita bondade. Estavam todas sentadas, cada qual em seu banquinho, mas a estrela d'alva levantou-se e, dando-lhe um ossinho de galinha, disse:
- Sem este ossinho não conseguirás abrir a porta da montanha de vidro, onde se encontram teus irmãos.
A menina aceitou o ossinho, embrulhou-o bem no lenço e foi andando até chegar à montanha de vidro. Ao chegar lá, viu que o portão estava fechado, então procurou o ossinho para abri-lo mas, infelizmente, o lenço estava vazio. Tinha perdido o presente das boas estrelas.
Que fazer? Queria a todo o custo salvar os irmãos e não encontrava a chave para entrar na montanha de vidro. Então a irmãzinha bondosa pegou uma faca, cortou o dedo mindinho, introduziu-o na fechadura e, com grande facilidade, conseguiu abrir o portão. Quando entrou, veio um anão ao seu encontro e perguntou-lhe:
- Que procuras aqui, minha filha?
- Procuro meus irmãos, os sete corvos.
- Os senhores corvos não estão em casa, mas, se quiseres esperar até que voltem, entra e fica à vontade.
Depois o anãozinho serviu o jantar dos corvos em sete pratinhos e sete copinhos; a irmãzinha provou um pouco de cada pratinho e bebeu um gole de cada copinho; no último copinho, deixou cair o anel que trazia consigo.
Repentinamente, ouviu-se no ar um ruflar de asas e um forte crocitar. O anão disse:
- Os senhores corvos estão chegando, ei-los!
Chegaram, com efeito e queriam comer e beber; então cada qual procurou o seu pratinho e o seu copinho e logo exclamaram, um após o outro:
- Quem comeu do meu pratinho?
- Quem bebeu do meu copinho? Vejo que foi roçado por lábios humanos!
Quando o sétimo foi beber, ao esvaziar o copinho, caiu-lhe na boca o anel. Pegou-o e reconheceu que era um anel de seus pais. Então exclamou:
- Queira Deus que nossa irmãzinha esteja aqui! Assim seremos libertados.
Ao ouvir essas palavras, a menina, que os espreitava de trás da porta, apareceu e os corvos imediatamente recobraram o aspecto humano.
Então, abraçaram-na e beijaram-na muito contentes; depois, cheios de felicidade, regressaram todos para casa.

O Lobo e os Sete Cabritinhos



Era uma vez uma velha cabra que tinha sete cabritinhos e os amava, como uma boa mãe pode amar os filhos. Um dia, querendo ir ao bosque para as provisões do jantar, chamou os sete filhinhos e lhes disse:
- Queridos pequenos, preciso ir ao bosque; cuidado com o lobo; se ele entrar aqui, come-vos todos com uma única abocanhada. Aquele patife costuma disfarçar-se, logo o reconhecereis, porém, pela voz rouca e pelas patas negras.
Os cabritinhos responderam:
- Podeis ir sossegada, querida mamãe, ficaremos bem atentos.
Com um balido, a velha cabra afastou-se confiante. Pouco depois, alguém bateu à porta, gritando:
- Abri, queridos pequenos; está aqui vossa mãezinha que trouxe um presente para cada um!
Mas os cabritinhos perceberam, pela voz rouca, que era o lobo.
- Não abrimos nada, - disseram - não é a nossa mamãe; a mamãe tem uma vozinha suave; a tua é rouca; tu és o lobo!
Então o lobo foi a um negócio, comprou um grande pedaço de argila, comeu-o e assim a voz dele tornou-se mais suave. Em seguida, voltou a bater à porta, dizendo:
- Abri, queridos pequenos; está aqui a vossa mãezinha que trouxe um presente para cada um!
Mas havia apoiado a pata negra na janela; os pequenos viram-na e gritaram:
- Não abrimos, nossa mamãe não tem as patas negras como tu; tu és o lobo.
O lobo correu, então, até o padeiro e lhe disse:
- Machuquei o pé, queres esparramar-lhe em cima um pouco de massa?
Quando o padeiro lhe espargiu a massa na pata, correu até o moleiro e disse:
- Espalha um pouco de farinha de trigo na minha pata.
O moleiro pensou: "Este lobo está tentando enganar alguém" e recusou-se a atendê-lo. O lobo, porém, ameaçou-o:
- Se não o fizeres, devoro-te!
O moleiro, então, se assustou e polvilhou-lhe a pata. Aliás, isso é comum entre os homens. O malandro foi, pela terceira vez, bater à porta dos cabritinhos, dizendo:
- Abri, pequenos, vossa querida mãezinha voltou do bosque e trouxe um presente para cada um de vós!
Os cabritinhos gritaram:
- Mostra-nos primeiro a tua pata para que saibamos se és realmente nossa mamãezinha.
O lobo não hesitou, colocou a pata sobre a janela e, quando viram que era branca, acreditaram no que dizia e abriram-lhe a porta. Mas foi o lobo que entrou. Os cabritinhos, amedrontados, trataram de se esconder. O primeiro escondeu-se debaixo da mesa, o segundo meteu-se embaixo da cama, o terceiro correu para dentro do forno, o quarto foi para a cozinha, o quinto fechou-se no armário, o sexto dentro da pia e o sétimo na caixa do relógio de parede. Mas o lobo encontrou-os todos e não fez cerimônias; engoliu-os um após o outro. O último, porém, que estava dentro da caixa do relógio, não foi descoberto. Uma vez satisfeito, o lobo saiu e foi deitar-se sob uma árvore, no gramado fresco do prado e não tardou a ferrar no sono. Não tardou muito e a velha cabra regressou do bosque.
Ah, o que se lhe deparou! A porta da casa escancarada; mesa, cadeiras, bancos, tudo de pernas para o ar. A pia em pedaços, as cobertas, os travesseiros arrancados da cama. Procurou logo os filhinhos, não conseguindo encontrá-los em parte alguma. Chamou-os pelo nome, um após o outro, mas ninguém respondeu. Ao chamar, por fim, o menor de todos, uma vozinha sumida gritou:
- Querida mamãezinha, estou aqui, dentro da caixa do relógio.
Ela tirou-o de lá e o pequeno contou-lhe que viera o lobo e devorara todos os outros. Imaginem o quanto a cabra chorou pelos seus pequeninos! Saiu de casa desesperada, sem saber o que fazer; o cabritinho menor saiu-lhe atrás. Chegando ao prado, viram o lobo espichado debaixo da árvore, roncando de tal maneira que fazia estremecer os galhos. Observou-o atentamente, de um e de outro lado e notou que algo se mexia dentro de seu ventre enorme.
- Ah! Deus meu, - suspirou ela - estarão ainda vivos os meus pobres pequenos que o lobo devorou?
Mandou o cabritinho menor que fosse correndo em casa apanhar a tesoura, linha e agulha também. De posse delas, abriu a barriga do monstro; ao primeiro corte, um cabritinho pôs a cabeça de fora e, conforme ia cortando mais, um por um foram saltando para fora; todos os seis, vivos e perfeitamente sãos, pois o monstro, na sanha devoradora, os engolira inteiros, sem mastigar.
Que alegria sentiram ao ver a mãezinha! Abraçaram-na, pinoteando felizes como nunca. Mas a velha cabra lhes disse:
- Ide depressa procurar algumas pedras para encher a barriga deste danado antes que ele desperte.
Os cabritinhos, então, saíram correndo e daí a pouco voltaram com as pedras, que meteram, tantas quantas couberam, na barriga ainda quente do lobo. A velha cabra, muito rapidamente, coseu-lhe a pele de modo que ele nem chegou a perceber.
Finalmente, tendo dormido bastante, o lobo levantou-se e, como as pedras que tinha no estômago lhe provocassem uma grande sede, foi à fonte para beber; mas, ao andar e mexer-se, as pedras chocavam-se na barriga, fazendo um certo ruído. Ele então pôs-se a gritar:
Dentro da pança,
que é que salta e pula?
Cabritos não são;
parece pedra miúda!
Chegando à fonte, debruçou-se para beber; entretanto, o peso das pedras arrastou-o para dentro da água, onde se acabou afogando miseravelmente. Vendo isso, os sete cabritinhos saíram correndo e gritando:
- O lobo morreu! O lobo morreu!
Então, juntamente com a mãezinha, dançaram alegremente em volta da fonte.

A Raposa e o Tambor


Conta-se que uma raposa esfomeada chegou a um bosque onde, ao lado de uma árvore, havia um tambor, que soava furiosamente cada vez que, ao sopro do vento, os ramos da árvore se moviam e batiam nele.

Ao ouvir tal ruído, a raposa dele se aproximou e, já em frente ao tambor, pensou: "Este deve conter muita carne e muita gordura." Lançou-se sobre ele e, esforçando-se, conseguiu rompê-lo. Ao ver que era oco, disse: "Talvez as coisas mais desprezíveis sejam aquelas de maior tamanho e de voz mais forte."

AL-MUKAFA, Ibn. Calila e Dimna. trad. Mansour Chalita. Rio de Janeiro: Associação Cultural Internacional Gibran, s.d. p. 13.

A Raposa e o Leão


Uma raposa muito jovem, que nunca tinha visto um leão, estava andando pela floresta e deu de cara com um deles. Ela não precisou olhar muito para sair correndo desesperada na direção do primeiro esconderijo que encontrou. Quando viu o leão pela segunda vez, a raposa ficou atrás de uma árvore a fim de poder olhar para ele antes de fugir. Mas na terceira vez a raposa foi direto até o leão e começou a dar tapinhas nas costas dele, dizendo:

__ Oi, gatão! Tudo bem aí?

Moral: Da familiaridade nasce o abuso.

FÁBULAS de Esopo. compilação: Russell Ash e Bernard Higton. trad. Heloisa Jahn. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 1994. p. 54.

O Camponês Ling e Suas Sete Máscaras



(Fábula chinesa oriunda de tradição oral - Autor anônimo)

Era uma vez um camponês que tinha medo, muito medo. Tanto medo que saía pouco. Plantava e criava animais em sua própria terra, para não precisar sair muito. Como saía pouco, cada vez foi ficando com mais medo e pensou que uma forma de esconder o medo era usar uma máscara. Fez uma, mas achou que em certas ocasiões talvez fosse melhor fazer mais uma e assim fez duas, depois três, quatro, cinco, seis e sete. E mais não fez porque não tinha como colocá-las. Aí parou de fazer máscaras, usava uma sobre a outra. Estas máscaras pesavam, incomodavam, via pouco, ouvia pouco, perdeu a noção de calor e frio, desaprendendo a viver sem máscaras. Passou a sair menos ainda porque assim não tinha que responder perguntas, nem ver gente. Plantava, colhia, cuidava dos animais. Fazia grandes provisões para sair cada vez menos. Um dia percebeu que não tinha mais sal, mas para não ter que sair passou sem sal, a comida perdeu o sabor e um de seus poucos prazeres terminou. Apesar disto resistiu muito, comendo a comida sem sal até resolver que precisava ir à vila mais próxima para comprar sal. Mas, fazia tanto tempo que não saía, que não lembrava mais do caminho. Só conseguia lembrar vagamente que precisava encontrar uma trilha dentro do bosque. Adiou, adiou até que resolveu enfrentar o medo e foi. Entrou no bosque e havia várias trilhas, escolheu uma, andou muito, anoiteceu e o LING percebeu que não sabia mais chegar à vila. Então teve muito medo. Teve medo do escuro, do frio, dos animais e dos salteadores. Só que não tinha escolha, pois não sabia voltar, encolheu-se e dormiu. No meio da noite foi acordado, eram os salteadores. Queriam dinheiro. Não havia dinheiro. Tinha apenas alguns ovos que usaria para trocar pelo sal. Os salteadores irritados levaram os ovos, suas roupas, sapatos, as máscaras e também lhe deram uma surra.
O camponês LING machucado e com medo encolheu-se e chorou. Depois o cansaço foi maior que o medo e LING dormiu. Foi acordado por um forte calor e viu uma claridade que não sabia o que era, nem de onde vinha. Desta vez não teve medo, sentiu-se bem, espreguiçou-se, esquentou-se e dançou. Ficou alegre e lembrou que aquele calor e aquela luz eram do sol, e ficou espantado tentando entender como havia esquecido do Sol.
LING caminhou nu e feliz, descobrindo cores, cheiros, novas trilhas e muitas coisas com novos sabores para comer nestes caminhos. Riu e pulou feliz com as descobertas e esqueceu de que havia saído para buscar o sal. Quando chegou ao fim de uma das trilhas, ficou surpreso pois havia voltado ao começo do caminho, e estava perto da casa.
LING improvisou uma canção ao ver sua casa, deu comida aos animais, cuidou de suas plantas e colheu o que havia para ser colhido. Aí lembrou-se do sal e que afinal tudo tinha acontecido por causa dele. Zangado, LING começou a esbravejar, e a querer destruir tudo a sua volta. Na sua fúria virou uma tina em que há muito tempo havia colocado água do mar e para sua surpresa esparramou-se uma grande quantidade de poeira branca. LING provou uma pitada da poeira e descobriu que no fundo da tina, na qual não mexia há anos, havia se acumulado uma grande quantidade de sal...

Vaca Estrela e Boi Fubá



Patativa do Assaré
Seu doutor, me dê licença

Da minha história contar

Hoje eu tô em terra estranha

É bem triste o meu penar

Eu já fui muito feliz

Vivendo no meu lugar

Eu tinha cavalo bom

Gostava de campear

Todo dia eu aboiava

Na porteira do curral
Eeeeeiaaa, êeeeeee vaca

EstrelaÔooooo boi Fubá

Eu sou filho do nordeste

Não nego meu naturá

Mas uma seca medonha

Me tangeu de lá pra cá
Lá eu tinha o meu gadinho

Não é bom nem imaginar

Minha linda vaca Estrela

Meu belo boi Fubá

Quando era de tardinha

Eu começa a aboiar

Eeeeeiaaa, êeeeeee vaca

EstrelaÔooooo boi Fubá

Aquela seca medonha

Fez tudo se atrapalhar

Não nasceu capim no campo

Para o gado sustentar

O sertão se estorricou

Fez o açude secar

Morreu minha vaca Estrela

Se acabou meu boi Fubá

Perdi tudo quanto eu tinha

Nunca mais pude aboiar

Eeeeeiaaa, êeeeeee vaca

EstrelaÔooooo boi Fubá

Hoje nas terras do sul

Longe do torrão natal

Quando vejo em minha frente

Uma boiada a passar

As água corre nos óio

Começo logo a chorar

Lembro a linda vaca Estrela

E o meu belo boi Fubá

Com sôdade do nordeste

Dá vontade de aboiar

Eeeeeiaaa, êeeeeee vaca Estrela

Ôooooo boi Fubá

A flor e a pedra


“Era uma vez uma flor que nasceu no meio das pedras. Quem sabe como conseguiu crescer e ser um sinal de vida no meio de tanta tristeza. Passou uma jovem e ficou admirada com a flor. Logo pensou em Deus. Cortou a flor e a levou para a igreja. Mas, após uma semana, a flor tinha morrido”.

“Era uma vez uma flor que nasceu no meio das pedras. Quem sabe como conseguiu crescer e ser um sinal de vida no meio de tanta tristeza. Passou um homem, viu a flor, pensou em Deus, agradeceu e a deixou ali; não quis cortá-la para não matá-la. Mas, dias depois, veio uma tempestade e a flor morreu”.

“Era uma vez uma flor que nasceu no meio das pedras. Quem sabe como conseguiu crescer e ser um sinal de vida no meio de tanta tristeza. Passou uma criança e achou que aquela flor era parecida com ela: bonita, mas, sozinha. Decidiu voltar todos os dias. Um dia regou, outro dia trouxe terra, outro dia podou, depois fez um canteiro, colocou adubo. Tempos depois, lá onde só havia pedras e uma flor, nasceu um jardim!...”.(autor desconhecido).

A tesoura e a agulha



Desde pequena, a moça se acostumara a conviver com tecidos, tesouras, agulhas e linhas de diversos padrões e cores. Sua mãe, exímia costureira, sustentava toda a família com muito trabalho e honestidade.
A moça casara com um frio empresário que gastava as energias com os negócios e dava muita importância ao que ela nem sempre julgava essencial.
Já estava acostumada a ver o marido cortar os passeios com os filhos por um almoço de negócios, já não agüentava ouvir o marido falar em cortes, mudanças precipitadas... Isso sem falar nas inúmeras vezes que foi cortada ao tentar argumentar, discutir os problemas do cotidiano...
Numa rara noite em que todos estavam em casa, a caçula começou a implicar com o irmão.
O pai, sempre ocupado, não suportava o barulho e sem querer ouvir ou entender a situação mandou as duas crianças para o quarto, sem conversa.
A mulher simplesmente pegou sua caixinha de costura com alguns retalhos e chamou o marido:
- Agora não, meu bem!
- Agora sim, querido!
O homem percebendo que não tinha escolha, sentou-se e ficou olhando os retalhos, a agulha, a tesoura, carretéis de linha sem nada compreender.

- Meu bem, para que serve a tesoura? - perguntou brandamente a mulher.
- Para cortar, aparar...
- E a agulha?
- Para costurar, ora!
- Você consegue fazer uma colcha de retalhos só cortando?
- Na verdade não faria de jeito nenhum - não sei costurar, lembra?
- Não estou brincando! Você já viu ou soube de alguma costureira que costura sem linha e agulha, só com tesoura?
- Claro que não, meu amor.
- Minha mãe me falou um dia, quando meu pai nos deixou, que nossa família era como uma colcha de retalhos. Cada um de nós era um retalho colorido. Para que nossa colcha fique sempre bonita precisamos usar a agulha e as linhas.
- E daí?
- Daí que você só sabe usar a tesoura. Corta nossos momentos de lazer, corta a minha palavra, corta o diálogo com as crianças. Você só separa, separa...
- Eu?
- Sim. Aprenda a unir nossa família. Aprenda a unir o seu trabalho à nossa família, unir os seus amigos aos meus... Qualquer dia você perceberá o quanto nos cortou de sua vida e talvez seja tarde.
O marido nada disse - sinal de que ia pensar, refletir. Mudanças demandam tempo.

- Não vou mais falar sobre isso. Só quero que você pense, tá? Estou no quarto das crianças. Vou costurá-las porque não quero dois retalhos tão importantes de minha vida separados. Boa noite!
- Boa noite.
Dali a meia hora o marido entrou no quarto em que brincavam as crianças, enquanto a mulher costurava uma bonita colcha de retalhos.
A cena enterneceu o homem e o fez juntar-se aos três. Abraçou-os e os levou para jantar.

Do livro: Histórias que Motivam
Autor: Assis Almeida
Editora: Premius Editora

A Verdade, a Mentira, o Fogo e a Água


Lenda etíope


Há muito tempo, a Verdade, a Mentira, o Fogo e a Água estavam viajando e chegaram a um rebanho de gado. Discutiram o assunto e chegaram à conclusão de que seria melhor dividir o rebanho em quatro partes iguais para que cada um pudesse levar consigo uma quantidade igual de animais. Mas a Mentira era gananciosa e arquitetou um plano para ficar com uma parte maior.

- Ouça o meu conselho - sussurou ela, puxando a Água para um canto.

- O Fogo está planejando queimar toda a relva e as árvores das suas margens para conduzir seu gado pelas planícies e ficar com os animais para si. Se eu fosse você, acabaria com ele logo agora, e assim repartiríamos a parte dele entre nós. A Água foi tola o suficiente para acatar o conselho da Mentira e lançou-se sobre o Fogo, apagando-o. E a Mentira dirigiu-se em seguida para a Verdade, sussurando-lhe:

- Veja só o que fez a Água! Acabou com o Fogo para ficar com o gado dele. Não deveríamos associar-nos a alguém assim. Deveríamos pegar todo o gado e partir para as montanhas. A Verdade acreditou nas palavras da Mentira e concordou com seu plano. E, juntas, levaram o gado para as montanhas.

- Esperem por mim - disse a Água, correndo no se encalço, mas é claro que não conseguiu correr morro acima. E foi deixada para trás, no vale. Ao chegarem no topo da montanha mais alta, a Mentira virou-se para a Verdade e pôs-se a rir.

- Consegui enganá-la, sua idiota! - disse ela, soltando uma risada estridente.

- Agora você vai me dar todo o gado e será minha escrava, ou eu a destruirei.

- Ora essa! Você me enganou - admitiu a Verdade.

- Mas eu jamais serei sua escrava. E as duas brigaram; e enquanto se batiam, os trovões ecoavam pelas montanhas. As duas se agrediram como o quê, mas nenhuma conseguiu destruir a outra. Acabaram decidindo chamar o Vento para decidir quem seria a vencedora da disputa. E o Vento subiu a montanha a todo velocidade, e escutou o que ambas tinham a dizer. E por fim falou:

- Não me cabe apontar a vencedora. A Verdade e a Mentira estão fadadas à disputa. Às vezes, a Verdade ganhará; outras vezes a Mentira prevalecerá; neste caso, a Verdade deverá se erguer e tornar a lutar. Até o fim do mundo, a Verdade deverá combater a Mentira e jamais buscar o descanso ou baixar a guarda; caso contrário, será aniquilada para sempre. Assim é que a Verdade e a Mentira continuam lutando até hoje.

O Livro das Virtudes - William J. Bennett - Editora Nova Fronteira

As duas metades da vida



Um mulá, orgulhoso dono de um barco, levou o mestre-escola da vila para uma excursão no Mar Cáspio.
O mestre-escola descansava, olhando as nuvens, quando perguntou ao mulá: "Que tempo teremos hoje?".
O mulá verificou a direção do vento, olhou para o sol, franziu a testa e respondeu: "Se queres saber, acho que nós vai ter uma tempestade."
Escandalizado com tal resposta, o mestre-escola fez uma careta e reclamou: "Mulá, o senhor nunca aprendeu gramática? Não é "nós vai", é "nós vamos".
O mulá respondeu a essa repreensão com apenas um encolher de ombros. "Que me importa a gramática?", ele perguntou.
O mestre-escola ficou quase louco: "O senhor não sabe gramática! Isso significa que metade da sua vida está perdida".
Conforme o mulá havia predito, nuvens escuras surgiram no horizonte, uma ventania forte agitou as ondas, e o barco era chacoalhado como uma casca de noz. As ondas encheram o barco com montes de água. Aí, então, o mulá perguntou ao mestre-escola: "O senhor sabe nadar?."
O professor retrucou: "Não, porque deveria eu aprender a nadar?".
Dando um sorriso largo, o mulá respondeu: "Pois neste caso sua vida inteira está perdida, porque nosso barco já vai afundar."


Do livro: O Mercador e o Papagaio - Nossrat Peseschkian - Papirus Editora

Um mito aborígine astrauliano



Há muitos e muitos anos, na primavera do universo, quando tudo o que existe na terra era jovem, duas irmãs caminhavam pelos campos cobertos de belíssimas flores.Saciavam a fome com as deliciosas raízes que tiravam da terra.

Certa vez, ao anoitecer, uma das meninas abaixou-se para colher uma flor que chamou a sua atenção por ser maior que todas as outras.

Ao observar as pétalas, viu estampada numa delas o rostinho de um bebê. A carinha era tão bonita que a amenina arrancou um pedaço de casca de árvore e com ele fez uma caixinha , onde guardou a flor.

Era como se a flor fosse o seu grande tesouro e ela quisesse protegê-lo.Pôs a caixa num galho de árvore e , todas as tardes,depois do passeio, ia visitá-la.E não contou o segredo para a irmã.

Acontece que lentamente a flor foi se transformando num garotinho que , a cada dia, ficava mais forte e saudável.O verão terminou.Com a chegada do outono, as noites começaram a esfriar e a criança , a enfraquecer.Seu rostinho afinou.A menina encontrou uma coberta feita de pele de animal e agasalhou o bebê -flor.

Um dia ela contou a irmã sobre o seu estranho filhinho.A irmã ficou muito feliz com a novidade.Juntas, cuidaram do garotinho com toda a dedicação.Conforme ele foi crescendo, as duas o ensinaram a falar, cantar, caçar e alimentar-se.

Quando se tornou um jovem, o menino se transformou em Mulian, o gavião, e partiu voando para os céus.Mas sempre regressava para visitar sua mães, as irmãs que o haviam colhido no campo florido.Ao sentir que já estava velhinho, converteu-se numa estrela do céu para continuar a iluminar as crianças que,como as duas mães-meninas, amam e protegem as flores da terra.


( história da mitologia aborígine australiana)

O sapo velho e os sapos




Numa noite de inverno, estavam os sapos cantando à beira da lagoa. O sapo velho dizia:


- Quando eu morrer


Quem vai comigo?


Os sapos molos ficavam bem de seu, calados. Então o sapo velho disse:


- Quando eu morrer,


Quem fica com minha mulher?


Aí, os sapos todos responderam:


- Eu, eu


Eu, eu


É isso que os sapos cantam à noite, na beira das lagoas.

Como o camelo ganhou a corcova




Rudyard Kipling

No início dos tempos, quando o mundo era tão novo, e tudo o mais, os Animais mal estavam começando a trabalhar para o Homem, havia um Camelo que vivia no meio de um Deserto dos Lamentos, porque não queria trabalhar; além disso, ele próprio era um lamentável absurdo. Comia galhinhos, espinhos, plantinhas, doído de tão preguiçoso; quando alguém falava com ele, só dizia:
- Uma ova! - Só isso: - Uma ova! - e nada mais.
Uma manhã de segunda-feira, o Cavalo chegou para ele, sela às costas e freio na boca, e disse:
- Camelo, ó Camelo, venha aqui trotar conosco.
- Uma ova! - disse o Camelo; e o Cavalo foi embora e contou para o Homem.
Veio o Cachorro, com uma vareta na boca e disse:
- Camelo, ó Camelo, venha aqui catar conosco.
- Uma ova! - disse o Camelo; e o Cachorro foi-se embora e contou para o Homem.
Depois veio o Boi, com uma cangalha no pescoço e disse:
- Camelo, ó Camelo, venha aqui arar conosco.
- Uma ova! - disse o Camelo; e o Boi foi embora e contou para o homem.
No fim do dia, o Homem chamou o Cavalo, o Cachorro e o Boi e disse:
- Três, ó Três, lamento muito por vocês (nesse mundo tão novo-e-tudo-o-mais); mas aquela Coisa-ova no Deserto não consegue trabalhar, senão já estaria aqui agora. Por isso, vou deixá-lo sozinho lá e vocês vão ter que trabalhar dobrado para compensar.
Isso deixou os Três furiosos (naquele mundo tão novo-e-tudo-o-mais) e foi um palavrório, uma confusão, um comício escandaloso na beira do deserto. O Camelo veio mascando uma mamona, doído de tão preguiçoso e ficou rindo deles. Depois disse:
- Uma ova! - e foi-se de novo.
Veio chegando o Djinn que reinava sobre Todos os Desertos, rolando numa nuvem de poeira (os Djinn sempre viajam assim, porque é Magia), e parou para um palavrório e um comício escandaloso com os Três.
- Djinn de Todos os Desertos - disse o Cavalo -, pode alguém ser tão preguiçoso, nesse mundo tão novo-e-tudo-o-mais?
- Certamente que não - disse o Djinn.
- Bem - disse o Cavalo -, tem uma coisa no meio do Deserto dos Lamentos (e ele é o próprio lamentável absurdo) com um pescoço comprido e pernas compridas, que não moveu uma palha de trabalho desde a manhã de segunda-feira. Ele nem trota.
- Puxa! - disse o Djinn, dando um assovio - É o meu Camelo, por todo o oura da Arábia! O que é que ele diz disso?
- Ele diz "Uma ova!" - disse o Cachorro - E nem pega nem carrega.
- Ele diz alguma outra coisa?
- Só "Uma ova!" e ele nem ara - disse o boi.
- Muito bem - disse o Djinn. - Eu vou ovacioná-lo, se vocês fizerem a gentileza de esperar um minuto.
O Djinn se enrolou no seu casaco de poeira, determinou sua posição no deserto e achou o Camelo doído de preguiça, olhando seu próprio reflexo numa poça d'água.
- Meu amigo comprido e borbulhante - disse o Djinn -, que é que eu ando ouvindo, de você não querer trabalhar, nesse mundo tão novo-e-tudo-o-mais?
- Uma ova! - disse o Camelo.
O Djinn sentou-se, queixo na mão, e começou a pensar uma Grande Magia, enquanto o Camelo continuou olhando seu reflexo na poça d'água.
- Você fez os Três trabalharem dobrado desde manhã de segunda-feira, só porque fica doído de preguiça - disse o Djinn; e continuou pensando Magias, com o queixo na mão.
- Uma ova! - disse o Camelo.
- Eu não repetiria isso, se fosse você - disse o Djinn. - Você pode falar demais da conta. Bolas, eu quero que você trabalhe.
E o Camelo disse:
- Uma ova! - de novo.
Mas logo que falou, viu suas costas, das quais tinha tanto orgulho, estufando, estufando, até virar uma enorme corcova.
- Viu só? - disse o Djinn - Foi a sua própria preguiça que você trouxe como um peso às suas costas, por não querer trabalhar. Hoje é quinta-feira e você não trabalhou nada desde segunda, quando começou o trabalho. Agora, você vai trabalhar.
- Como é que eu posso - disse o Camelo -, com essa corcunda nas minhas costas?
- Foi de propósito - disse o Djinn - porque você faltou esses três dias. Agora você vai poder trabalhar três dias sem comer, porque você vive da sua corcunda-uma-ova, que vai ser sua corcova; e nunca diga que nunca fiz nada por você. Saia do Deserto e vá com os Três, comporte-se. Corcove-se!
E o Camelo corcoveou-se, corcova e tudo, e foi juntar-se aos Três. E desde aquele dia, o Camelo sempre teve um corcova-uma-ova (a gente chama de corcunda, hoje, para não magoá-lo, lembrando "uma ova!"); mas ele nunca compensou os três dias que faltou no começo do mundo; e até agora ainda não aprendeu a se comportar.


Do livro "O Livro das Virtudes" Uma Antologia de William J. Bennett
Editora Nova Fronteira, 1993, (pág. 253)