segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

A árvore de estrelas



Antônia, que esperava a noite chegar, estava, enfim, diante do seu surgimento. Tinha esse costume. Voltava mais cedo para casa só para assisti-la nascer em sua janela. Em seu quarto, ela via o espetáculo que transformava o dia mole de calor em crepúsculo fresco de brisa agradável. Seu José passara de chapéu de palha do outro lado da rua. Vinha da quitanda. Uma bicicleta, um casal, uma senhora com um embrulho e uma garrafa d'água... Foi nesse clima, nessa atmosfera de paz que só certos lugares do interior são capazes de nos dar que a noite se fez completa.

Antônia também gostava de desenhar com giz de cera as constelações que apareciam no vidro da janela de seu quarto. Assim, acompanhava o movimento dos astros, lentos aos olhos, mas de velocidade inimaginável, visto que cruzam os céus. Desenhava. Com uma vela acesa, dançante, ela derretia a ponta de um giz de cera amarelo e encostava no vidro, no lugar em que uma estrela estava brilhando. Fazia o mesmo com o giz branco na lua, com o giz verde para Vênus, a estrela d'alva. Ao final de cada semana limpava o vidro e começa a desenhar tudo de novo. Às vezes, ligava com linhas finas estrelas e planetas, criava constelações. Uma parecia um gato, outra, uma xícara, um menino... E das imagens inventava histórias.

Naquela noite, ao ligar as estrelas viu um pássaro feito com elas. Imaginou uma história onde o espaço sideral era uma árvore infinita e cada planeta um fruto colorido. Ali era a luz das estrelas que guiava todos os seres gigantes que habitavam a copa da árvore-céu. Seu pássaro, feito de astros, voava e bicava os planetas como se fossem goiabas doces, ou tangerinas cheias de suco. Imaginando, riu. Quis como nunca ser dona do pássaro que imaginara. Depois que desenhou o grande pássaro, abriu a janela e foi dormir. Sonhou.

Em seu sonho, o vidro não tinha nenhum de seus desenhos, entretanto, no parapeito de madeira da janela havia pousado um passarinho. Encantada com a beleza do animal, perguntou se ele bicaria nosso mundo de fruto azul, mas antes que o pássaro pudesse responder ela acordou. Levantou-se, esfregou os olhos e foi correndo para janela. Lá, em cima da madeira, não havia o pássaro de seu sonho, mas havia uma semente.

Na manhã seguinte Antônia plantou a semente em seu quintal, e a semente a ensinou, durante muitos anos, que para ser dona dos pássaros é preciso plantar árvores. Árvores da semente da liberdade. Como as árvores do céu.

(Postado por Ricardo Raele )

domingo, 5 de dezembro de 2010

História triste de tuim


João-de-barro é um bicho bobo que ninguém pega, embora goste de ficar perto da gente; mas de dentro daquela casa de joão-de-barro vinha uma espécie de choro, um chorinho fazendo tuim, tuim, tuim...


A casa estava num galho alto, mas um menino subiu até perto, depois com uma vara de bambu conseguiu tirar a casa sem quebrar e veio baixando até o outro menino apanhar. Dentro, naquele quartinho que fica bem escondido depois do corredor de entrada para o vento não incomodar, havia três filhotes, não de joão-de-barro, mas de tuim.

Você conhece, não? De todos esses periquitinhos que tem no Brasil, tuim é capaz de ser o menor. Tem bico redondo e rabo curto e é todo verde, mas o macho tem umas penas azuis para enfeitar. Três filhotes, um mais feio que o outro, ainda sem penas, os três chorando. O menino levou-os para casa, inventou comidinhas para eles; um morreu, outro morreu, ficou um.

Geralmente se cria em casa é casal de tuim, especialmente para se apreciar o namorinho deles. Mas aquele tuim macho foi criado sozinho e, como se diz na roça, criado no dedo. Passava o dia solto, esvoaçando em volta da casa da fazenda, comendo sementinhas de imbaúba. Se aparecia uma visita fazia-se aquela demonstração: era o menino chegar na varanda e gritar para o arvoredo: tuim, tuim, tuim! Às vezes demorava, então a visita achava que aquilo era brincadeira do menino, de repente surgia a ave, vinha certinho pousar no dedo do garoto.

Mas o pai disse: "menino, você está criando muito amor a esse bicho, quero avisar: tuim é acostumado a viver em bando. Esse bichinho, se acostuma assim, toda tarde vem procurar sua gaiola para dormir, mas no dia que passar pela fazenda um bando de tuins, adeus. Ou você prende o tuim ou ele vai-se embora com os outros; mesmo ele estando preso e ouvindo o bando passar, você está arriscado a ele morrer de tristeza".

E o menino vivia de ouvido no ar, com medo de ouvir bando de tuim.

Foi de manhã, ele estava catando minhoca para pescar quando viu o bando chegar; não tinha engano: era tuim, tuim, tuim... Todos desceram ali mesmo em mangueiras, mamonas e num bambuzal, divididos em pares. E o seu? Já tinha sumido, estava no meio deles, logo depois todos sumiram para uma roça de arroz; o menino gritava com o dedinho esticado para o tuim voltar; nada.

Só parou de chorar quando o pai chegou a cavalo, soube da coisa, disse: "venha cá". E disse: "o senhor é um homem, estava avisado do que ia acontecer, portanto, não chore mais".

O menino parou de chorar, porque tinha brio, mas como doía seu coração! De repente, olhe o tuim na varanda! Foi uma alegria na casa que foi uma beleza, até o pai confessou que ele também estivera muito infeliz com o sumiço do tuim.

Houve quase um conselho de família, quando acabaram as férias: deixar o tuim, levar o tuim para São Paulo? Voltaram para a cidade com o tuim, o menino toda hora dando comidinha a ele na viagem. O pai avisou: "aqui na cidade ele não pode andar solto; é um bicho da roça e se perde, o senhor está avisado".

Aquilo encheu de medo o coração do menino. Fechava as janelas para soltar o tuim dentro de casa, andava com ele no dedo, ele voava pela sala; a mãe e a irmã não aprovavam, o tuim sujava dentro de casa.

Soltar um pouquinho no quintal não devia ser perigo, desde que ficasse perto; se ele quisesse voar para longe era só chamar, que voltava; mas uma vez não voltou.

De casa em casa, o menino foi indagando pelo tuim: "que é tuim?" perguntavam pessoas ignorantes. "Tuim?" Que raiva! Pedia licença para olhar no quintal de cada casa, perdeu a hora de almoçar e ir para a escola, foi para outra rua, para outra.

Teve uma idéia, foi ao armazém de "seu" Perrota: "tem gaiola para vender?" Disseram que tinha. "Venderam alguma gaiola hoje?" Tinham vendido uma para uma casa ali perto.

Foi lá, chorando, disse ao dono da casa: "se não prenderam o meu tuim então por que o senhor comprou gaiola hoje?"

O homem acabou confessando que tinha aparecido um periquitinho verde sim, de rabo curto, não sabia que chamava tuim. Ofereceu comprar, o filho dele gostara tanto, ia ficar desapontado quando voltasse da escola e não achasse mais o bichinho. "Não senhor, o tuim é meu, foi criado por mim." Voltou para casa com o tuim no dedo.

Pegou uma tesoura: era triste, era uma judiação, mas era preciso; cortou as asinhas; assim o bicho poderia andar solto no quintal, e nunca mais fugiria.

Depois foi lá dentro fazer uma coisa que estava precisando fazer, e, quando voltou para dar comida a seu tuim, viu só algumas penas verdes e as manchas de sangue no cimento. Subiu num caixote para olhar por cima do muro, e ainda viu o vulto de um gato ruivo que sumia.

Acabou-se a história do tuim.

( Rubem Braga, Para gostar de ler, v. 1.)

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Por que a Galinha d’Angola tem pintas brancas?

Os mais antigos contam que esta história aconteceu durante uma das piores secas ocorridas nas savanas ao Sul da África.

O sol, inclemente, castigava todos os seres vivos: plantas e animais.

Logo os rios e lagos secaram, aumentando o sofrimento. O calor abria fendas no solo e levantava uma espessa poeira que borrava de cinza o céu borrado de azul.

Os habitantes dos vilarejos, desnorteados, fugiram para as montanhas, rogando por chuvas, mas não havia prece que desse jeito na calamidade.

Um dia, porém, uma mancha escura despontou no horizonte. Todos ficaram excitados. Sinal de que as chuvas estavam se aproximando.

Só que um elefante, desengonçado, atrapalhou tudo. Afugentando a nuvem.

A galinha-d'angola que, naquela época, além de uma crista avermelhada no alto da cabeça, tinha as penas inteiramente pretas, não se conteve. Indignada com a atitude do paquiderme, correu horas e horas atrás da nuvem, suplicando para que ela retornasse, sem se importar com os espinhos que iam rasgando-lhe as pernas desnudas.

- Por favor, Senhora, volte. Por favor, Senhora, volte – repetia sem cessar, enquanto o sangue escorria por suas feridas.

A Dona das Águas, finalmente, parou e disse:

- Por causa de sua perseverança, da sua dor e da sua preocupação com o destino de todas as outras criaturas, eu regressarei. Graças aos meus poderes, interromperei a seca.

- Obrigada - agradeceu a ofegante corredora.

- E, como você se dirigiu a mim de um modo tão respeitoso, receberá de presente o brilho das gotas da chuva, que cairão sobre o seu corpo. Assim, será uma das aves mais bonitas da terra.

Não demorou muito para desabar um temporal, em meio a raios e trovões. A galinha,d'angola, toda molhada, ganhou como ornamento os pingos que foram resvalando em suas penas, transformando,a, como fora prometido, em uma das aves mais lindas de toda a África.

Devido à canseira dagalinha-d'angola, suas descendentes ciscam por vários cantos do planeta, agitando a penugem de cor negra, como a pele da maioria dos povos de seu extenso continente. Enquanto exibem as penas salpicadas de pintas brancas} as galinhas-d'angola cacarejam como se estivessem expressando, até hoje, o esforço empreendido por sua ancestral:

_ To fraca, to fraca, to fraca, to fraca!


( Outros contos africanos para crianças brasileira – Rogério Andrade Barbosa)

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

A Missa dos Mortos



De todas as coisas, porem, capazes de arrepiar cabelo, e que ouvi em minha infância ouro-pretana, nenhuma tão tremenda como a Missa dos Mortos, na Igreja das Mercês de Cima.

Quem m'a contou é pessoa conhecida em toda a Cidade de Ouro Preto, e exercia funções incompatíveis com o uso da falsidade em suas informações.

Foi João Leite, o saudoso João Leite, pardo, miudinho, anguloso, sempre montado em seu cavalinho branco, minúscula montaria de hábitos austeros, que se contentava de viver da escassa relva do adro da Igreja.

Seria possível que uma pessoa estimável e honesta como João Leite, sacristão de confiança de uma irmandade, zelador de um templo, tivesse coragem de depois de pregar uma mentira envolvendo mortos respeitáveis, fosse tranqüilamente dormir na sacristia, tendo ao lado um cemitério?

Tenho dúvidas. João Leite era ele próprio uma figura mista, metade deste mundo, metade do outro.

Suas origens eram misteriosas. Foi enjeitado, com horas de nascido, à porta da Santa Casa, em época que não se sabe. Não se sabe, ainda, quando começou a funcionar como sacristão das Mercês. As mais velhas pessoas da cidade já o conheciam desde criança, nesse mister, com a mesma cara, sempre com o mesmo cavalinho branco.

Quando alguém indagava de João Leite suas origens ou o tempo que servia Nossa Senhora das Mercês, em sua Igreja, João Leite sorria e não respondia nada.

Um belo dia há alguns anos, foi encontrado morto diante do altar-mor, deitado no chão, com as mãos sobre o peito, arrumadinho como se estivesse dentro de um caixão. O cavalinho branco sumiu sem que dele ninguém desse notícias.

Pois João Leite, segundo narrativa que lhe ouvi, já lá vão mais de trinta anos, assistiu a uma "Missa dos Mortos”.

Morando na sacristia do templo cuja conserva lhe era confiada, achava-se recolhido altas horas da noite, quando ouviu bulha na capela.

A noite era fria e João Leite estava com a cabeça coberta para esquentar-se melhor. Descobriu-a e abrindo os olhos viu claridade.

Seriam ladrões? Mas a Igreja era pobre e qualquer ladrão, por mais estúpido que fosse, saberia que a Igreja das Mercês, sendo paupérrima, não dispunha de prataria, de qualquer outra coisa de valor mercantil. Enfim, podia ser, raciocinou João Leite.

Estava nessa dúvida quando ouviu sussurrado por vozes cavas em coro, o "Deus vos salve" do começo da ladainha.

Ergueu-se e foi resolutamente pelo corredor até a porta que dá para a nave. A Igreja estava toda iluminada, altares, lustres; e completamente cheia de fiéis.

No altar-mor, um sacerdote paramentado celebrava missa.

João Leite estranhou a nuca do padre, muito branca, não se lembrando de calvície tão completa no clero de Ouro Preto.

Os fiéis que enchiam a nave trajavam todos de preto, e entre eles alguns de cogulas, e algumas senhoras com o hábito das Mercês; todos de cabeças baixas.

Quando o Padre celebrante se voltou para dizer o Dominus Vobiscum, João Leite verificou que era uma simples caveira que ele tinha em lugar da cabeça.

Assustou-se, e nesse momento reparando nos assistentes, agora de pé, viu que também eles não eram mais do que esqueletos vestidos.

Procurou logo afastar-se dali, e caminhando, deu com a porta que deitava para o cemitério completamente escancarada.

O melhor que tinha a fazer, fez. Recolheu-se à cama, cobriu a cabeça, transido de medo, e.ficou quietinho ouvindo o sussurro das vozes orando, o tinir da campainha na "Consagração" e no "Domine nom sum dignus"; até que voltou de novo o pesado silêncio das frias noites de Vila Rica.

(Câmara Cascudo)

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

A Princesa Obstinada


Um certo rei acreditava que o correto era que lhe haviam ensinado e aquilo que pensava. Sob muitos aspectos era um homem justo, mas também uma pessoa de idéias limitadas.

Um dia reuniu suas três filhas e lhes disse:

- Tudo o que tenho é de vocês, ou será no futuro. Por meu intermédio vieram a este mundo. Minha vontade é o que determina o futuro de vocês, e portanto o seu destino.

Obedientes e persuadidas da verdade enunciada pelo pai, duas das moças concordaram. Mas a terceira retrucou:

- Embora a minha posição me obrigue a atacar as leis, não posso acreditar que meu destino deva ser sempre determinado por suas opiniões.

- Isso é o que veremos – disse o rei.

Ordenou que prendessem a jovem numa pequena cela, onde ela penou durante alguns anos. Enquanto isso o rei e suas duas filhas submissas dilapidaram bem depressa as riquezas que de outro modo também seriam gastas com a princesa prisioneira.

O rei disse para si mesmo:

"Essa moça está encarcerada não por vontade própria, mas sim pela minha. Isto vem provar, de maneira cabal para qualquer mentalidade lógica, que é minha vontade e não a dela que está determinando seu destino."

Os habitantes do reino, inteirados da situação de sua princesa, comentaram:

- Ela deve ter feito ou dito algo realmente grave para que um monarca, no qual não descobrimos nenhuma falha, trate assim a sua própria filha, semente viva de seu sangue.

Mas ainda não haviam chegado ao ponto de sentir a necessidade de contestar a pretensão do rei de ser sempre justo e correto em todos os seus atos.

De tempos em tempos o rei ia visitar a moça. Conquanto pálida e debilitada pelo longo encarceramento, ela se obstinava em sua atitude.

Finalmente a paciência do rei chegou a seu derradeiro limite:

- Seu persistente desafio – disse à filha – só servirá para me aborrecer ainda mais, e aparentemente enfraquecerá meus direitos caso você permaneça em seus domínios. Eu poderia matá-la, mas sou magnânimo. Assim, me limitarei a desterrá-la para o deserto que faz divisa com meu reino. É uma região inóspita, povoada somente por animais selvagens e proscritos excêntricos, incapazes de sobreviver em nossa sociedade racional. Ali logo descobrirá se pode levar outra existência diferente daquela vivida no seio de sua família; e se a encontrar, veremos se a preferirá à que conheceu aqui.

O decreto real foi prontamente acatado, e a princesa conduzida à fronteira do reino. A moça logo se encontrou num território selvagem e que guardava uma semelhança mínima com o ambiente protetor em que havia crescido. Mas bem depressa ela percebeu que uma caverna podia servir de casa, que nozes e frutas provinham tanto de árvores como de pratos de ouro, que o calor provinha do Sol. Aquela região tinha um clima e uma maneira de existir próprios.

Depois de algum tempo ela já conseguira organizar sua vida tão bem que obtinha água de mananciais, legumes da terra cultivada e fogo de uma árvore que ardia em chamas.

"Aqui", murmurou para si própria a princesa desterrada, "há uma vida cujos elementos se integram, formando uma unidade, mas nem individual ou coletivamente obedecem às ordens de meu pai, o rei."

Certo dia um viajante perdido, casualmente um homem muito rico e ilustre, encontrou a princesa exilada, enamorou-se dela e a levou para seu país, onde se casaram.

Passado algum tempo os dois decidiram voltar ao deserto, onde construíram uma enorme e próspera cidade. Ali, sua sabedoria, recursos próprios e sua fé se expandiram plenamente. Os ‘excêntricos’ e outros banidos, muitos deles tidos como loucos, harmonizaram-se plena e proveitosamente com aquela existência de múltiplas facetas.

A cidade e a campina que a circundava se tornaram conhecidas em todo o mundo. Em pouco tempo eclipsara amplamente em progresso e beleza o reino do pai da princesa obstinada.

Por decisão unânime da população total, a princesa e seu marido foram escolhidos como soberanos daquele novo reino ideal.

Finalmente o pai da princesa obstinada resolveu conhecer de perto o estranho e misterioso lugar que brotara do antigo deserto, povoado, pelo menos em parte, por aquelas criaturas que ele e os que lhe faziam coro desprezavam.

Quando, de cabeça baixa, ele se acercou dos pés do trono onde o jovem casal estava sentado e ergueu seus olhos para encontrar os daquela soberana, cuja fama de justiça, prosperidade e discernimento superava em muito o seu renome, pôde captar as palavras murmuradas por sua filha:

- Como pode ver, pai, cada homem e cada mulher têm seu próprio destino e fazem sua própria escolha.

Do livro: Histórias da Tradição Sufi - Editora Dervish

sábado, 24 de julho de 2010

O Tesouro do Baobá


Num dia de grande calor, um lebrão parou à sombra de um baobá, sentou-se na erva e, contemplando ao longe a restolhada sob o vento a soprar, sentiu-se infinitamente bem. «Baobá», pensou ele, «como é leve e fresca a tua sombra ao braseiro do meio-dia!» Levantou o focinho para os ramos poderosos. As folhas estremeceram, felizes, devido aos pensamentos simpáticos que se lhes dirigiam. O lebrão riu-se, vendo-as contentes. Ficou calado por uns instantes e depois, piscando o olho e batendo com a língua, tomado de malícia jovial, disse:
— A tua sombra é boa, é claro, seguramente melhor do que o teu fruto. Não quero maldizer, mas o que me pende sobre a cabeça tem todo o ar de um odre de água morna.
O baobá, despeitado de ouvir assim duvidar dos seus sabores depois do elogio que lhe abrira a alma, entrou no jogo. Deixou cair o fruto num tufo de erva. O lebrão farejou-o, provou-o, achou-o delicioso. Depois devorou-o, lambeu o focinho e balançou a cabeça. A grande árvore, impaciente por ouvir o seu veredicto, susteve a respiração.
— O teu fruto é bom — admitiu o lebrão.
Depois sorriu, retomou a alegria impertinente e acrescentou:
— Seguramente é melhor do que o teu coração. Perdoa-me a franqueza: o coração que bate em ti parece-me mais duro do que uma pedra.
O baobá, ouvindo estas palavras, sentiu-se invadido por uma emoção que jamais experimentara. Oferecer a este pequeno ser as suas belezas mais secretas, Deus do céu, era seu desejo, mas, assim de repente, que medo tinha de as descobrir! Lentamente entreabriu a casca. Então apareceram colares de pérolas, panos bordados, sandálias finas, jóias de ouro. Todas estas maravilhas que enchiam o coração do baobá escorreram em profusão diante do lebrão, cujo
focinho tremeu e cujos olhos se arregalaram.
— Obrigado, obrigado. És a melhor e a mais bela árvore do mundo — disse ele, rindo como uma criança satisfeita e apanhando febrilmente o magnífico tesouro.
Voltou a casa com as costas dobradas por todos esses bens. A mulher acolheu-o, pulando de alegria. Aliviou-o depressa de tão belo fardo, vestiu panos e sandálias, ornou o pescoço de jóias e saiu para o mato, impaciente de ser admirada pelas companheiras.
Encontrou uma hiena. Esse cadáver, ofuscado pelas invejáveis riquezas que passavam por si, foi imediatamente à toca do lebrão e perguntou-lhe onde tinha encontrado aqueles ornamentos soberbos com que se vestia a esposa. O outro contou-lhe o que tinha dito e feito à sombra do baobá.
A hiena correu para lá com os olhos inflamados, ávida dos mesmos bens. Jogou o mesmo jogo. O baobá, que a alegria do lebrão tinha verdadeiramente rejubilado, de novo se agradou de dar a sua frescura, depois a música da sua folhagem e o sabor do seu fruto, finalmente a beleza do seu coração.
Mas, quando a casca se abriu, a hiena atirou-se às maravilhosas oferendas como sobre uma presa e, escavando com unhas e dentes as profundezas da velha árvore para dela ainda arrancar mais coisas, pôs-se a resmungar:
— E nas tuas entranhas o que há? Também quero devorar as tuas entranhas! Quero tudo o que tens até às tuas raízes! Quero tudo, ouves?
O baobá, ferido, dilacerado, tomado de medo, guardou os seus tesouros, e a hiena, insatisfeita e furiosa, voltou de mãos vazias para a floresta. Desde esse dia que procura desesperadamente oferendas ilusórias nos animais mortos que encontra, sem nunca ouvir a brisa singela que acalma o espírito. Quanto ao baobá, já não abre a ninguém o seu coração. Tem medo. É preciso compreendê-lo: o mal que lhe fizeram é invisível, mas incurável.
Em verdade, o coração dos homens é semelhante ao desta árvore prodigiosa: cheio de riquezas e benefícios. Porque se abrirá tão pouco, quando se abre? De que hiena se lembrará?


A Árvore dos Tesouros
tradução de Maria do Rosário Pedreira

sexta-feira, 18 de junho de 2010

A Zeropéia



Ia uma centopéia com suas cem patinhas pelo caminho quando topou com uma barata. Vendo tantas patinhas num bicho só, a barata ficou boquiaberta:

- Mas dona centopéia, para que tantas patinhas? A senhora precisa mesmo delas? Olha, eu tenho sóseis e são mais que suficientes! Posso fazer tudo, correr, trepar nas paredes, me esconder nos buracos. Ninguém consegue me acertar na primeira nem na segunda chinelada!

- É - respondeu a centopéia -, eu não havia pensado nisso! E olha que tenho essas cem patinhasdesde que nasci, cinqüenta de um lado e cinqüenta de outro…

- Como a senhora faz quando tem uma coceira? - perguntou a barata. - Já imaginou o trabalhão, coçando daqui e dali, sem parar? Deve ser um inferno ter tantas patinhas! Por que a senhora não amarra noventa e quatro e fica com seis como eu? Vai ficar muito mais fácil e a senhora vai inclusive correr muito mais, como eu.

A centopéia nem pensou e amarrou noventa e quatro patinhas. Doeu um pouco com todos aquelesnós, mas era necessário, e continuou a andar .

Lá na frente se encontrou com um boi. Quando o boi viu a centopéia andando com seis patas ficou intrigado:

- Dona centopéia, por que seis patas? Para que tantas? Olhe, eu só tenho quatro e faço o que quero! Corro, participo de touradas, pulo cerca quando quero, sou forte e todo mundo me admira! Por que asenhora não amarra mais duas e fica com quatro? Vai ficar mais ágil e vai correr tanto quanto eu…

A centopéia amarrou mais duas patinhas. Doeu um pouco,j á estava quase dando câimbra ,mas era necessário, e continuou a andar.

Lá mais na frente, já andando com certa dificuldade, a centopéia se encontrou com o macaco.

Quando o macaco viu a centopéia andando com quatro patas, ficou curioso. Olhou bem, contou erecontou, e não se conteve:

- Mas dona centopéia, por que tanta pata se a senhora pode andar com apenas duas, como eu? Veja como eu faço: pulo de galho em galho, corro, ninguém me pega aqui nesta floresta. Por que a senhora não amarra mais duas patinhas e fica que nem eu? A centopéia nem pensou, e amarrou mais duas patinhas. Agora só tinha duas patas livres, poderia viver em paz, como a maioria dos bichos da floresta, e se parecia até com as pessoas, podia até pensar em ter nome de gente, como Maria ou Florinda. E continuou a andar, com dificuldade, mas tranqüila. Havia seguido todos conselhos que recebera pelo caminho.

Velhos tempos aqueles em que tinha cem patinhas livres! Quanto trabalho à toa! E continuou a andar. Mas lá na volta do caminho, de repente, viu a dona cobra! A centopéia sentiu um friozinho nabarriga. - Ih! - pensou ela - a dona cobra nem patas tem!

Não deu outra. Quando a cobra viu a centopéia com suas duas patinhas, foi logo parando e dizendo:

- Por que andar com essas duas patas num corpo tão comprido e desajeitado? Será que você nãosente que está ridícula andando só com duas patas? E, afinal de contas, para que patas para andar? Não vê como eu corro, escapo, ataco, meto medo, serpenteio, subo em árvores e até nado sem patas? Por que não completa a obra e amarra tudo de uma vez?

- A centopéia, então, amarrou as suas últimas patinhas, pensando que podia ser quenem a cobra. E não podia. Ali mesmo ficou parada pedindo socorro e gritando por todos os bichos da floresta:

- Ei, dona barata, seu boi, seu macaco, dona cobra! Venham me ajudar! Não consigo mais andar!Eu, que tinha cem patinhas, deixei de ser uma centopéia e acabei virando uma zeropéia! A turma da floresta, para consertar a situação, teve então uma idéia, a de fazer um carrinho bem comprido para a centopéia poder se locomover. A centopéia ia virar a primeira zeropéia motorizadada floresta!

- Mas como é que eu vou dirigir esse carro, se eu não tenho mais patinhas?

Foi um drama! Os bichos foram logo discutindo:

- A barata dirige, pois foi ela que mandou amarrar noventa e quatro patinhas de uma vez!

- Não, não, não! Dirige o boi, que mandou amarrar mais duas patas.

- Melhor o macaco, que mandou amarrar mais duas.

- Negativo! Dirige a cobra, que mandou amarrar tudo.

Até que a centopéia se deu conta, pensou bem pensado e disse para todo mundo:

- É, gente, a culpa é minha! Eu não devia ter escutado essa conversa fiada de amarrar patinhas! Eu não sou barata, não sou boi, não sou macaco nem cobra; eu sou é eu mesma, uma centopéia que quase virou uma zeropéia.

A centopéia agradeceu o carrinho, mas mandou a bicharada desamarrar todas as suas patinhas. E decidiu que o mais importante era ser ela mesma e ter suas próprias idéias na cabeça…

domingo, 30 de maio de 2010

O Leão Mandão


Era uma vez...
Uma floresta que parecia desabitada.
Era ali que morava o único habitante daquele trecho: O Leão Mandão.
Era um leão rabugento e implicante. De tanto dar ordens absurdas aos bichos que ali viviam ficou sozinho.É que eles se cansaram e mudaram para bem longe. Ninguém se atrevia a passar por ali.
No princípio, depois que todos os bichos foram embora, o rei até que pensou:
_ Eu sou o Rei! Eu mando aqui. Quem não quiser obedecer às minhas ordens, que se mude daqui.
Tenho dito.
Mas o tempo foi passando, o rei caladão, não tinha com quem implicar, nem em quem mandar. E nem alguém para conversar. E mais triste foi ficando, até que um dia, não agüentou mais e gritou:
_CHEGA! Afinal que rei sou eu? Só quero mesmo ser um bicho comum, cheio de amiguinhos para me alegrar e enfeitar a floresta.
( Começam a chegar os bichos)
Os bichinhos foram chegando, aos poucos iam enchendo a floresta de vida, cores e sons vindos de todos os lados.
E o leão?
Bem, o leão ficou bem ali no meio de todos, sentindo tudo. Dizem que até que arrumou uma namorada...


(história enviada por Neusa Cia)

domingo, 2 de maio de 2010

Estrelas em greve

Quase todas as noites o universo nos oferece um belo espetáculo. As estrelas cintilam no céu e a lua aparece em suas diferentes fases.
Só que os homens cochilam no sofá ou assistem futebol.
As mulheres assistem novela. As crianças ficam brincando com os computadores.
Sem platéia para assistir este lindo espetáculo as estrelas decidiram entrar em greve por tempo indeterminado.
A lua solidária com as amigas, aderiu ao protesto e também se escondeu.
Foi um fuzuê no mundo inteiro.
As galinhas que dormiam com a estrela-dalva, perderam o sono e deixaram de botar ovos.
As corujas pararam de piar.
Os grilos silenciaram.
Os anjos da guarda que desciam à noitinha para ninar as crianças, perdiam-se no caminho.
Os poetas caíram em desânimo e a produção de poesia imediatamente cessou.
Os agricultores ignoravam se era ou não época certa para semear.
As marés, desorientadas, subiam e desciam à deriva.
Então os homens descobriram que aquilo tinha a ver com o sumiço das estrelas.
Chamaram os melhores astrônomos, mas eles não souberam explicar o ocorrido.
Convocaram as bruxas para resolver o assunto, elas fizeram lá suas mandingas, mas não adiantou nada.A coisa estava realmente preta.
Até que , numa noite, um homem saiu de casa e se pôs a contemplar o céu na escuridão.
Recordou das histórias de lua cheia , quando aparecia o lobisomem.
Outro homem lembrou que uma nascera uma verruga no dedo porque, quando garoto, apontara para as Três-Marias.
Apareceu uma mulher e comentou que só cortava o cabelo na Lua minguante.
Outra mulher falou que , havia alguns anos , vira uma estrela cadente e fizera um pedido, que depois se realizou.
Aos poucos as pessoas foram saindo de casa e cada um tinha sua história para contar sobre a Lua e as estrelas.
Quando todos estavam na rua olhando o céu vazio, as estrelas , que observavam do fundo da noite, apareceram de surpresa, acendendo-se ao mesmo tempo.
Foi lindo: parecia uma chuva de gotas prateadas. Em seguida despontou a Lua, com seu brilho magnífico de Lua Cheia.
Aí todos entenderam o motivo daquela greve.
E, imediatamente, decidiram em consenso:
Podiam ver televisão, dormir no sofá e brincar nos computadores todas as noites.
Mas, de vez em quando, iriam dar uma espiadinha no céu pra ver o show das estrelas.
“Você também tem uma estrela que brilha todos os dias só pra você”. Basta olhar para o céu que irá encontra-la.

“O tempo passou e nossa história terminou”

Conto de João A. Carrascoza

(História enviada por Neusa Cia)

terça-feira, 20 de abril de 2010

A Borboleta e a Tartaruga


Era uma manhã ensolarada e a velha tartaruga, que vivia na lagoa há mais de cem anos, saiu para tomar sol.
Procurou um cantinho na margem, se ajeitou vagarosamente e lá decidiu ficar no maior sossego.
Naquela mesma hora uma borboleta, que tinha acabado de nascer, apareceu por lá, batendo apressadamente as asas. Toda agitada, olhando para tudo quanto é lado, sem saber por onde começar.
_ O que será aquilo?_ pensou a borboleta quando viu a tartaruga.
E imediatamente pousou sobre ela.
_ Pronto! Eu sabia que meu sossego não iria durar! _ reclamou a tartaruga. _ XÔ!XÔ! Vai incomodar outra! Se você não consegue ficar um minuto parada, deixa em paz quem quer ficar tranqüila no canto dela!
_ Mas quem é você? _ perguntou a borboleta.
_ Não está vendo que eu sou uma tartaruga?
_ Que horror! _ gritou a borboleta. _ Fui pousar logo em cima do bicho mais parado que existe no mundo. Que horror!
E foi embora do jeito que tinha chegado.
_ Que bicho irritante! _ pensou a borboleta. _ Eu não sei como alguém pode ficar a vida toda parada, com tanta coisa para se ver.
_ Que bicho irritante!_ pensou a tartaruga. _ Eu não entendo como alguém pode se mexer o tempo todo, sem ter um pingo de sossego.
E enquanto a borboleta voava, a tartaruga encolheu a cabeça e ficou onde estava.
_ Que linda flor! Como é bonita aquela amarela! E a vermelha também! Você é uma árvore? Bom dia passarinho! Vou correr atrás da abelha... Olha eu no espelho da lagoa!,,,
_ Para que sair daqui se o calor do sol está tão gostoso? _ pensou a tartaruga.
E assim o dia foi passando, e a tartaruga no canto dela pensava:
_ Nada melhor que uma boa dormida depois de um dia longo como este.
_ Nossa! Já está anoitecendo e eu não vi quase nada! _ pensou a borboleta. _ Como o dia foi curto!
Quando a noite chegou, a tartaruga decidiu ficar onde estava mesmo e só voltar para a lagoa no dia seguinte. E a borboleta, surpreendida pela escuridão , procurou um lugar para ficar.
_ Vou pousar nesta pedrinha_ pensou a borboleta e pousou sobre a tartaruga.
_ Que ventinho gostoso! _ pensou a tartaruga quando sentiu a borboleta sobre ela. E fechou os olhos.
_ Que pedra quentinha! _ pensou a borboleta e dormiu.
Naquela noite a borboleta sonhou que era tartaruga e a tartaruga sonhou que era borboleta.

LILIANA & MICHELE IACOCCA
(Enviada por Neusa Cia)

sábado, 27 de março de 2010

A velhinha, a galinha e os ovos de Páscoa


Numa pequena aldeia, havia uma pequena casa. Nesta casa morava uma velhinha. Ela criava uma galinha e um coelho. A galinha tinha seu ninho embaixo da escada e lá botava seus ovos. O coelho vivia solto pelo gramado que circundava a casa. A galinha cacarejava toda vez que botava um ovo, e a velhinha corria para recolher o ovo que a galinha botava e a alimentava com boa comida.

A velhinha gostava muito da carijó, que tinha a crista vermelha, as patinhas amarelas e as penas coloridas. Gostava também do coelho, que tinha o lábio partido, as orelhas bem grandes e o pelo branco bem fofinho.

Certo dia, a velhinha escuta a galinha cacarejando tão alto e tão feliz:

_Botei, botei, botei! Até o coelho assustou-se e ficou com as orelhas em pé.

A velhinha desceu bem rápido os degraus da escada, abaixou-se e viu no ninho um ovo bem grande, com manchas multicoloridas. Era tão lindo que ela não cansou de admirá-lo.

Com muito cuidado pegou-o e levou-o para a cozinha. Ficou pensando o que faria com ele. Não podia comê-lo, pois era muito bonito e também não podia deixa-lo como enfeite, pois poderia cair e quebrar-se.

O coelho que estava ao seu lado, disse-lhe:

_E se der de presente para uma criança? A Páscoa está chegando e com certeza quem recebe-lo ficará muito feliz.

A idéia é boa, respondeu a velhinha, porém para qual criança? Eu conheço tantas. Ela pensou um pouco e exclamou:

_Já sei, vou juntar muitos ovos da galinha carijó e depois de pintá-los vou presentear todas as crianças. Saltitando e feliz, o coelho dizia:

_ Eu também vou ajudar a pintar. Assim dito, assim feito.

A galinha carijó botou muitos ovos. A velhinha recolheu-os numa cesta de vime e junto com o coelho branquinho, pintou-os. Ficaram tão bonitos. Multicoloridos. Vermelhos, verdes, azuis, amarelos, roxos. Alguns listrados., outros com bolinhas e até com flores.

No domingo de Páscoa, a velhinha os colocou numa bela cesta e o coelho branquinho distribuiu-os para todas as crianças da aldeia.


(Conto Lituano de Nijole Jankute- Tradução livre de Olga Prokopowit)

quarta-feira, 24 de março de 2010

O Peixe e a Concha - uma linda história de Verão..


Bem no fundo de um lago nadava um peixinho entre as algas.Frequentemente se demorava muito num mesmo lugar, e abanava vagarosamente suas barbatanas. Bem próximo a ele arrastava-se lentamente uma concha sobre o chão arenoso. Através da turva luz parecia ser uma pedra que ali estava. O peixinho agitou sua cauda , observou a dura concha por todos os lados, e não compreendia como uma pedra podia passear pois não havia percebido ainda os pequenos pezinhos na parte de baixo da concha, onde se distinguia uma aberturazinha. E assim a concha continuava se arrastando...
De repente o peixinho percebeu uma pequena fresta, e nadando para lá, procurou enxergar lá dentro. Mas...a abertura fechou-se !
-"Ah ! - pensou o peixinho - lá dentro mora alguém que certamente tem medo de mim ! Vou chamá-lo !"
Nadou em torno de toda a concha e disse :
" Ei ! você aí de dentro...saia ! Eu não te mordo , não !"
A concha murmurou bem baixinho :
" Por que devo sair ? Aqui me agrada muito mais ...!"
-"Saia assim mesmo ! Eu desejo olhar a tua bela nadadeira !"
-"Eu não tenho nenhuma nadadeira ...!" murmurou a concha.
Mas o peixinho não dava sossego, tinha uma vontade enorme de descerrar a concha. Então falou :
-"Saia para fora você poderá se alegrar com minhas escamas cintilantes...!"
-" Eu nem siquer tenho olhos...", respondeu a concha.
Irritado o peixinho nadou em volta dela e falou :
-" No quê devo acreditar ? Você não tem cauda, nem escamas,nem olhos...Tem apenas ambas as cascas cheias de pele ?"
-" Eu, tenho o sonho aquático..." falou baixino a concha. E este não troco nem por suas escamas , e nem pela sua cauda...!"
-"Oh! Então conte-me ", pediu o peixinho.
A concha disse: -
" Contar eu não posso. Cada dia eu pinto o sonho nas paredes da minha casca. Por isto eu quero lhe mostrar algo...mas depois, deixe-me em paz !"
Cuidadosamente a concha abriu a sua fresta e o peixinho viu em seu interior estranhas cores brilharem : vermelho, azul, verde, violeta...era um oculto brilho cintilante.
-"Oh...! É como o arco-íris nas cachoeiras...!" disse ele.
Mas a concha fechou-se novamente tão silenciosamente quanto abriu...
Em seguida ela deitou-se bem a seu lado e lá permaneceu sem se movimentar.
O peixinho, bem próximo, sentia como entrava e saia água da concha..."o sonho aquático !"...
Ainda por algum tempo ele ficou perto da concha, que externamente parecia arenosa e cinzenta, mas que interiormente escondia o mais belo milagre que já se viu.


( Jacob Streit - Coletânea Waldorf)
Enviada por Vera Ravagnani

segunda-feira, 1 de março de 2010

5º Encontra Conto


A Cia Xekmat e o Ponto de Leitura Casa Encantada realizarão em Santa Bárbara d’Oeste, SP, o 5º “Encontra Conto” - Encontro Regional de Contadores de Histórias, reunindo em quatro dias (11, 12, 13, 14 de março de 2010) grupos e profissionais da contação de história e narrativa oral de várias cidades da Região Metropolitana de Campinas e cidades vizinhas.

Durante o encontro serão realizadas oficinas, apresentações, rodas de histórias, trocas de experiências e visitações em diferentes locais da cidade.

Serão beneficiados diretamente 60 grupos, contadores de histórias e narradores orais do Estado de São Paulo, além de um público potencial, da cidade e região, estimado em mais de 6.000 pessoas, que podem participar do evento.

O Encontra Conto recebe o apoio do Governo do Estado de São Paulo pela Secretaria de Estado da Cultura, através do Edital Festivais de Arte, ProAc 07 - 2009 e também da Prefeitura municipal de Santa Bárbara d’Oeste.

Todos os eventos são gratuitos e abertos à população.

Mais informações no blogue: http://www.encontraconto.blogspot.com/.

Os contadores interessados em participar devem fazer sua inscrição antecipadamente, copiando a ficha de inscrição, preenchendo-a e mandando para amauri_xekmat@yahoo.com.br

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

A casa da infância



A casa da minha infância
tinha quintal e porão
como só as casas de infância
sabem ter.
Era bem alta e amarela a casa da minha infância
e dava nítida impressão
de que era muito antiga
desde que fora feita.
E tinha uma varanda
a casa da minha infância
com uma escada branca ao lado
que subia
e torta,
parava,
subia
e chegava.
A casa da minha infância
tinha caramanchão
sobre o qual escoria
uma primavera vermelha
florindo e tingindo
a rua de paralelepípedos.
Lá dentro,
na casa da minha infância,
tinha sala de visitas
com um quadro de Jesus
vigiando.
Depois de jantar,
Leito ceia prateado,
Cristaleira e o rádio
R.C.A Victor,
sintonizando os programas
de Rádio Nacional do Rio de Janeiro,
Brasil
(patrocínio de casa maçom).
Tinha, ainda, copa,
quarto,
quarto, corredor, banheiro
quarto e cozinha,
fogão DAKO elétrico e
em cima,
a inscrição no pano de prato:
“Quando em seu coração reine a paz”.
a menor casa do mundo num palácio se faz.”
A casa da minha infância
tinha um jabuti,
um pé de limão
e uma parreira.
Mas tinha, sobretudo,
os mistérios da cortinas,
os segredos dos armários,
a sedução do toucador
e era imensa,
forte.
O mundo entrava timidamente
pela fresta da janela
na casa da minha infância.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

A Dança das Caveiras


- -Roberto de Freitas


Quando o relógio bate a uma

Todas as caveiras saem da tumba

Tumba alá catumba

Tumba alá catá.


Quando o relógio bate as duas

Todas as caveiras saem pras ruas

Tumba alá catumba

Tumba alá catá.


Quando o relógio bate as três

Todas as caveiras jogam xadrez

Tumba alá catumba

Tumba alá catá.


Quando o relógio bate as quatro

Todas as caveiras tiram retrato

Tumba alá catumba

Tumba alá catá.


Quando o relógio bate as cinco

Todas as caveiras apertam os cintos

Tumba alá catumba

Tumba alá catá.


Quando o relógio bate as seis

Todas as caveiras imitam chinês

Tumba alá catumba

Tumba alá catá.


Quando o relógio bate as sete

Todas as caveiras mascam chicletes

Tumba alá catumba

Tumba alá catá.


Quando o relógio bate as oito

Todas as caveiras comem biscoito

Tumba alá catumba

Tumba alá catá.


Quando o relógio bate as nove

Todas as caveiras dançam Rock

Tumba alá catumba

Tumba alá catá.



Quando o relógio bate as dez

Todas as caveiras lavam os pés

Tumba alá catumba

Tumba alá catá.


Quando o relógio bate as onze

Todas as caveiras andam de bonde

Tumba alá catumba

Tumba alá catá.



Quando o relógio bate as doze

Todas as caveiras fazem pose

Tumba alá catumba

Tumba alá catá.


Quando o relógio bate a uma

Todas as caveiras voltam pras tumbas

Tumba alá catumba

Tumba alá catá.