quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

São Nicolau

 


Nicolau é também conhecido por São Nicolau de Mira e de Bari. Venerado, amado e muito querido por todos os cristãos do Ocidente e do Oriente. É um dos santos mais popular da Igreja. É o padroeiro da Rússia, de Moscou, da Grécia, de Lorena, na França, de Mira, na Turquia, e de Bari, na Itália, das crianças, das moças solteiras, dos marinheiros, dos cativos e dos lojistas. Por tudo isso os dados de sua vida se misturam às tradições seculares do cristianismo.

Filho da nobreza, Nicolau nasceu na cidade de Patara, na Ásia Menor, na metade do século III, provavelmente no ano 250.

A tradição diz que os pais de Nicolau, muito ricos e extremamente religiosos. Nicolau era uma criança com inclinação à virtuosidade espiritual, pois nas quartas e nas sextas-feiras rejeitava o leite materno, ou seja, já praticava jejum voluntário. Quando jovem, desprezava os divertimentos e vaidades, preferindo frequentar a igreja. Costumava fazer doações anônimas em moedas de ouro, roupas e comida às viúvas e aos pobres.

Mais tarde, quando já era bispo, um pai, não tendo o dinheiro para constituir o dote de suas três filhas e poder bem casá-las, havia decidido mandá-las à prostituição. Nicolau tomou conhecimento dessa intenção, encheu três saquinhos com moedas de ouro, o dote de cada uma das jovens, para salvar-lhes a pureza. Durante três noites seguidas, foi à porta da casa daquele pai, onde deixou o dote para uma delas como presente. Desse fato veio a sua fama de dar presentes para salvar as almas das ciladas do demônio.

Foi consagrado bispo de Mira, atual Turquia, quando ainda muito jovem e desenvolveu seu apostolado também na Palestina e no Egito. Mais adiante, durante as perseguições do imperador Diocleciano, foi aprisionado até a época em que foi decretado o Edito de Constantino, sendo finalmente libertado.

Segundo alguns historiadores, o bispo Nicolau esteve presente no primeiro Concílio, em Nicéia, no ano 325, no qual foi condenada a heresia ariana. Na abertura desse concílio, o imperador Constantino ajoelhou-se diante de São Nicolau e de outros santos varões que ha­viam padecido na última persegui­ção, e beijou com respeito suas gloriosas cicatrizes.

Foi venerado como santo ainda quando estava vivo, tal era a fama de taumaturgo que gozava entre o povo cristão da Ásia. Morreu no dia 6 de dezembro de 326, em Mira. Logo, o local em que fora sepultado se tornou meta de intensa peregrinação.

Suas relíquias foram transpor­tadas para Bari, no sul da Itália, onde até hoje são objeto de gran­de veneração.  Seu culto se propagou em toda a Europa.

sexta-feira, 4 de novembro de 2022

O CÁGADO E A FRUTA




Diz que foi um dia, havia no mato uma fruta que todos os bichos tinham vontade de comer; mas era proibido comer a tal fruta sem primeiro saber o nome dela. Todos os animais iam à casa de uma mulher que morava nas paragens onde estava o pé de fruta, perguntavam a ela o nome, e voltavam para comer; mas quando chegavam lá não se lembravam mais do nome. Assim aconteceu com todos os bichos que iam e voltavam, e nada de acertar com o nome. Faltava somente amigo cágado; os outros foram chamar ele para ir por sua vez. Alguns caçoavam muito, dizendo: “Quando os outros não acertaram, quanto mais ele!”

 Amigo cágado partiu munido de uma violinha; quando chegou na casa da mulher perguntou o nome da fruta. Ela disse: “Boyoyô-boyoyôquizamaquizu, boyoyô-boyoyôquizamaquizu.”

 Mas a mulher, depois que cada bicho ia-se retirando já em alguma distância, punha-se de lá a bradar: “Ó amigo tal, o nome não é esse, não!” E dizia outros nomes; o bicho se atrapalhava, e quando chegava ao pé de fruta não sabia mais o nome. Com o cágado não foi assim, porque ele deu de mão à sua violinha, e pôs-se a cantar o nome até ao lugar da árvore, e venceu a todos.

 Mas amiga onça, que já lá estava à sua espera, disse-lhe: “Amigo cágado, você como não pode trepar, deixe que eu trepe para tirar as frutas, e você em paga me dá algumas.” O cágado consentiu; ela encheu o seu saco e largou-se sem lhe dar nenhuma. O cágado, muito zangado, largou-se atrás.

 Chegando os dois a um rio ele disse à onça: “Amiga onça, aqui você me dê o saco para eu passar, que sou melhor nadador, e você passa depois.” A onça concordou, mas o sabido, quando se viu da outra banda, sumiu-se, ficando a onça lograda. Esta formou o plano de o matar; ele soube e meteu-se debaixo de uma raiz grande de árvore onde ela costumava descansar.

 Aí chegada, pôs-se ela a gritar: “Amigo cágado, amigo cágado!” O sabido respondia ali de pertinho: “Oi.” A onça olhava de uma banda e doutra e não via ninguém. Ficou muito espantada, e pensou que era o seu traseiro que respondia.

 Pôs-se de novo a gritar, e sempre o cágado respondendo: “Oi!”, e ela: “Cala a boca, oveiro!”, e sempre a coisa para diante. Amigo macaco veio passando, e a onça lhe contou o caso da desobediência de seu traseiro e lhe pediu que o açoitasse. O macaco tanto executou a obra que a matou. Deu-se então o cágado por satisfeito.

 

ROMERO, Silvio. Contos Populares do Brasil. São Paulo: Landy Editora, 2008.

quarta-feira, 30 de março de 2022

O Caldeireiro

 

 

 


Um caldeireiro foi contratado para consertar um enorme sistema de caldeiras de um navio a vapor que não estava funcionando bem. Após escutar a descrição feita pelo engenheiro quanto aos problemas e de haver feito umas poucas perguntas, dirigiu-se à sala de máquinas. Olhou, durante alguns instantes, para o labirinto de tubos retorcidos. A seguir, pôs-se a escutar o ruído surdo das caldeiras e o silvo do vapor que escapava. Com as mãos apalpou alguns tubos. Depois, cantarolando suavemente só para si, procurou em seu avental alguma coisa e tirou de lá um pequeno martelo, com o qual bateu apenas uma vez em uma válvula vermelha. Imediatamente, o sistema inteiro começou a trabalhar com perfeição e o caldeireiro voltou para casa.

Quando o dono do navio recebeu uma conta de R$ 2.000,00 queixou-se de que o caldeireiro só havia ficado na sala de máquinas durante quinze minutos e solicitou uma conta pormenorizada.

Eis o que o caldeireiro lhe enviou:

Total ................: R$ 2.000,00

Martelada ..........: R$       0,50

Onde martelar ....: R$ 1.999,50

 

fonte: http://paxprofundis.org/livros/parabolas/parabolas.html

quinta-feira, 24 de março de 2022

O Catavento




Um cata vento voando no céu
la fora o vento e 2 barcos de papel
O puro encanto para quem olha distante ao léu
O Sol o Céu as Estrelas e o Luar

E o cata vento sobrevoa mais uma casa ao luar
procurando um coração, para o seu objetivo alcançar

O mar escureceu e para o céu você se vendeu
as estrelas começaram a brilhar...
Há... meu amor enquanto elas brilharem saberei
que estás comigo até se eles não deixarem

E o cata vento sobrevoa mais uma casa ao luar
procurando um coração, para o seu objetivo alcançar

quarta-feira, 16 de março de 2022

História de assombração

 



Mário Neme

Pois não é que eles vinham vindo pela estrada fria, Nhô Be e Chico, dois homens. Vinham vindo pelo estradão sem fim, naquela noite amarga de escura, nem uma estrela no céu, nenhuma claridade, tudo negro, tudo medonho. Era quase meia-noite e eles vinham vindo, só com o facão na cintura, voltando pro rancho.

Nisso estavam chegando perto da casa do defunto Miguelangelo, uma tapera, abandonada, que de noite apareciam lá não sei quantas almas do outro mundo. Muita gente já tinha visto as tais almas cantando, tinha dado tiro nelas, mas a bala não pegava. Uma tocava viola, uma viola chorosa e bem afinada, mas ninguém via a viola. Coisa misteriosa. Era mesmo daquelas assombrações que a gente respeita e passa longe, evita elas, mas, Nhô Be não acreditava "nessas bobagens não".

— Isso de assombração é besteira, Chico.

— Se é, compadre.

— Pois eu não acredito nisso e acho que é até pecado acreditar. O pessoal lá em casa é meio besta, acredita, isto é, a mulherada que é meio besta.

— Em casa também, compadre.

—Negadinha boba, Chico. Donde se viu?! Eu nunca tive medo dessas invenções.

— Nem eu, Nhô Be, nem eu.

Eu estava orgulhoso de ver dois bravos com essa coragem formidável, isso sim, era gente pra pôr num conto, até dava gosto lidar com eles. Precisava ver quando, daí a pouco, desabou uma tempestade de acabar o mundo, daquelas mesmo de lavar a terra e a gente não se agüentar em pé debaixo dela.

Chuáaa, e a aguaceira caía que não era vida! Então, os dois homens estavam bem pertinho da casa mal-assombrada, onde tinham matado o defunto Miguelangelo. Foi uma barbaridade aquela morte, quebraram os dentes dele, quebraram os dedos dos pés e das mãos e depois deixaram o velho ir morrendo devagarinho, naquele sofrimento, que só aquilo merecia o céu.

Estavam mesmo na frente da casa, e a chuva de não se agüentar em­
baixo. Nhô Be falou para o companheiro:                                                           

— Acho que é melhor a gente entrar na casa e esperar passar a chuva, Chico.

— Mas é que essa casa tem uma fama desgraçada, compadre...

— O que tem isso, Chico? Pois a gente não tem medo de assombração.

— Ah! É mesmo, compadre! Então vamos.

E foram. Entraram sem abrir a porta, porque não tinha porta mais, nem j anela.

Mas entraram com muita precaução, espiaram pra dentro, foram andando de manso, chegaram no centro da casa, juntaram uns gravetos, e tal, e fizeram fogo.

O fogo eles disseram, lá entre eles, que era para esquentar o corpo, mas eu desconfio que era pra espantar as almas do outro mundo. Porque, francamente, eles não estavam muito firmes, não. Coragem eles tinham e bastante, mas, numa hora dessas, num lugar assim de má fama, meia-noite, aquela chuva torvando, aquela casa escangalhada, a gente fica mesmo meio esquerda. Mas eles estavam ali, firmes.

De repente, um barulhinho esquisito, que nem gente que pisa disfarçado. Os dois estavam agachados na frente do foguinho, nessa hora arregalaram os olhos, ficaram assustando pro lado do barulho, que era no vão da porta.

Pra dizer a verdade, estavam com os olhos deste tamanho, olhavam um pró outro e depois pra porta. Outro barulhinho mais perto e apareceu

Uma sombra se mexendo na porta. Nhô Be puxou a faca da cintura. Chico segurou a "pernambucana" e ficou pronto pra enfrentar o bicho. Mas, porém, o bicho não era "aquele bicho". Era um franguinho. O pobre vi­nha todo molhado, pingando chuva, querendo encontrar um cantinho pra se esquentar. Aquilo foi um contentamento prós dois, um alívio pra eles, até para mim que não tinha nada com o caso. Não é que eles tivessem medo, mas, numa hora daquelas, aquele barulho na porta, um negócio assim que vinha agachado prô lado deles, era mesmo pra gente arregalar os olhos e parar a suspiração.

— Está vendo, Chico, se a gente tivesse medo podia até morrer de susto agora, pois é só um franguinho.

— Pois é, compadre, um franguinho, um franguinho, compadre...

O franguinho veio vindo, chegou perto do fogo, chacoalhou as asas, esticou o pescoço pra cima, fez assim uma carinha de gente e falou prós dois com voz de trovão:

— PUXA VIDA, COMO ESTÁ CHOVENDO, NÃO?



sábado, 12 de março de 2022

A parábola de Chuang-Tzu


 Chuang-Tzu sonhou que era uma borboleta e, ao despertar, não sabia se era um homem que havia sonhado ser uma borboleta ou uma borboleta que agora sonhava ser homem.

 

 Jorge Luis Borges, Buda, Rio de Janeiro: Editora



Bertrand Brasil, 1993


quinta-feira, 3 de março de 2022

Chuva e o Fogo

 


          

Contam os antigos que, num tempo distante e em terras mais distantes ainda, existia no "Vale do Fogo Ardente", um jovem foguinho conhecido por FOGARÉU. E, ao sul desse Vale, existia ali a "Terra da Garoa" onde vivia uma Chuvinha linda, linda! Todas as tardes, Fogaréu observava do alto de uma encosta rochosa a linda Chuvinha brincando lá longe, lançando suas águas de encontro à mata, dando assim, com os raios do sol, a ilusão de uma linda cachoeira de diamantes. Fogaréu se encantava com aquela cena e a cada dia, seu coração ardia não de fogo, mas de paixão. Do outro lado, Chuvinha também se derretia de paixão, olhando Fogaréu com suas chamas vermelhas balançando ao vento.

 

Certa vez, Fogaréu resolveu declarar sua paixão por Chuvinha à sua amiga Águia que também, todas as tardes, sobrevoava lá do alto, o Vale do Fogo Ardente. Muito comovida, a amiga Águia pensou em promover um encontro entre Fogaréu e Chuvinha. Em meio a tanta alegria, Fogaréu de repente se abateu, porque não sabia como isso poderia acontecer, já que no Vale do Fogo Ardente nunca podia chover e na Terra da Garoa Fogaréu não podia entrar. A amiga Águia pensou, voou, pensou e num bater de asas, EUREKA!!! Muito animada, lá de cima a amiga Águia disse a Fogaréu:

 - Fogaréu?! Vamos falar com a Mãe Natureza e promover esse encontro ali na Floresta que divide as duas terras. Vamos realizar esse encontro na terra onde tudo pode acontecer, na "Terra do Faz de Conta". Sem pestanejar, Fogaréu adorou a idéia e a amiga Águia mais que depressa voou até a Terra do Faz de Conta para conversar com a Mãe Natureza sobre o encontro.

 Ao receber o pedido de Fogaréu, trazido por D. Águia, Mãe Natureza ficou muito preocupada porque temia pela segurança dos animais da Terra do Faz de Conta, temendo ainda um incêndio provocado por Fogaréu. O Papagaio, o bichinho mais curioso e fofoqueiro da floresta, ouvindo tudo atrás de uma bananeira, não perdeu tempo e espalhou a notícia:

 - Purutaco, tataco, FOGARÉU e CHUVINHA vão se encontrar aqui na Terra do Faz de Conta. Os animais alvoroçados foram diretamente ao encontro da Mãe Natureza para saber sobre a notícia que se espalhara. A grande dúvida, ou melhor, o grande medo era onde, dentro da Terra do Faz de Conta, esse encontro poderia acontecer. Fala daqui, reclama dali, quando o Dom Calango, deu um grito dizendo:

 - Silênnnnciooooooo!!!! Eu sei onde Fogaréu e Chuvinha podem se encontrar. Só tem um lugar dentro da Terra do Faz de Conta que não oferecerá muito perigo e esse lugar está bem no centro da Floresta. É lá nas rochas dos calangos, cobras e lagartos.

 A Mãe Natureza, ainda muito receosa mas, com seu grande coração de mãe acatou a idéia e até marcou a data do encontro: 12 de junho, em comemoração ao dia de todos os animais apaixonados. Faltando apenas três dias para o encontro, todos os animais já estavam sabendo pois, o Elefante com sua tromba, anunciava por toda a mata como se fosse um carro de som. O macaco pulando de galho em galho, aproveitava a oportunidade para vender ingressos dos melhores lugares em cima das copas das árvores. A hiena, essa só sabia rir e dizer a todos que esse encontro não ia acabar bem mas que mesmo assim, ia estar lá para presenciar esse desfecho. O bicho Preguiça, com medo de perder esse espetáculo amoroso, comprou um ingresso do macaco e tratou logo de já ir andando, com toda sua paciência, para chegar a tempo do grande espetáculo. Um bando de andorinhas, a convite de seus primos pardais, veio de muito longe, viajando milhas só para assistirem a cerimônia amorosa. O Rei Leão rapidinho procurou D. Aranha, costureira de sucesso por toda a região, pedindo a mesma que fizesse uma linda túnica real com suas teias finas e reluzentes como ouro. Enfim, todos os animais se manifestavam ansiosos e felizes com o encontro de Fogaréu e Chuvinha.

 E por falar nos dois, Fogaréu e Chuvinha, muito emocionados também se preparavam para o encontro. Ele, o Fogaréu tratou logo de se esticar sob o sol e dar uma queimadinha, para manter o bronzeado. Ela, a Chuvinha, preferiu tomar um banho de Chuva de Rosas com ervas silvestres. Ah! A amiga Águia, essa fora convidada pelo casal de namorados para fazer o papel de mestre de cerimônia da nova união. Tudo pronto, público presente no grande palco do evento, D. Águia abre o espetáculo convidando a Orquestra Filarmônica da Grande Floresta, composta pelos tenores Sabiá e D. Cigarra e pelos sopranos Bem-te-vi e D. Sariema, além dos demais músicos, como D. Coruja e Sr. Raposão, tudo isto sob a regência do Maestro Galo de Viena para, assim tocarem "Danúbio Azul" durante a entrada dos namorados. Logo após a entrada de Fogaréu e Chuvinha, chega a hora de ambos se apresentarem um para o outro e para toda a bicharada. Fogaréu, em meio a grande emoção assim exclamou:

 

- Querida Chuvinha, queria poder te esquentar em meus braços mas, como o Destino assim não me permite, saiba que apenas uma de suas gotas que cair sobre meu coração, servirá como bálsamo para transformar essa paixão ardente em Amor escaldante.

 

Todos os animais se levantaram para aplaudir Fogaréu. A mamãe Ursa, mal se continha de tanto chorar. O silêncio mais uma vez tomou conta da Terra do Faz de Conta. Era a vez de todos ouvirem Chuvinha e, foi dessa forma que ela falou:

 - Amado Fogaréu, há tempos em que derramo gotas lacrimejantes de paixão por você. Não me sentiria derrotada se para ficar contigo tivesse que secar-me toda, acabando com toda minha água, pois, o meu Amor por você mergulha cada dia mais fundo dentro das águas de minha alma. Te amo!!! Mais choro, mais emoção.

 Os animais pulavam sobre os galhos das árvores, fazendo com que estas derramassem suas folhas sobre o os namorados. De repente, o bicho Preguiça, que ainda subia na árvore, chega até seu galho que, naquele momento, estava lotado de animais. Arreda daqui, espreme de lá. Epa, que barulho é esse, gritou o chimpanzé! Cleck, crack, esse galho vai quebrar retrucou o Esquilo. Os bichos apavorados com a situação se desesperaram e sem que esses pudessem descer, a girafa gritou: Madeeeiiiiraaaaaa!!!! O galho imenso, daquela árvore maior ainda, veio caindo, caindo e para infelicidade geral, esse caiu bem em cima de Fogaréu que, sem querer, espalhou suas chamas pelo galho, que também as fez espalhar para outros galhos de outras árvores, começando assim um incêndio na Terra do Faz de Conta. Os animais apavorados, corriam descontroladamente. O Elefante que antes anunciava o Grande Encontro, só gritava: Salve-se quem puder!!! E Fogaréu, coitado, a cada movimento de desespero seu espalhava mais fogo ainda pela floresta. A mãe Natureza, chorando muito, chamou D. Águia para que essa dissesse a Chuvinha para jogar água, bastante água e bem forte sobre tudo que estava lá em baixo, pois só assim, o incêndio não devastaria toda a mata e nem mataria nenhum animal. Ao receber a ordem, Chuvinha disse que não poderia fazer isto, porque acabaria com Fogaréu, o grande amor de sua vida. Mas e os animais? E a floresta? Perguntou D. Águia. Lá em baixo, bem no centro do grande tumulto, uma voz ecoa alto, chegando através do vento nos ouvidos de Chuvinha. Era Fogaréu que gritava assim:

 - Chuvinha meu amor, use suas águas e acabe com o mal que provoquei. Mesmo que eu morra, você viverá comigo na eternidade e espero que eu também viva com você em suas lembranças.

 Chuvinha, triste, bastante triste, começou a chorar e foi esse seu choro que soprado pelo vento, começou a molhar a Terra do Faz de Conta. A cada gota que caía, Chuvinha não se continha e chorava mais forte, fazendo com que mais forte suas lágrimas caíssem sobre a terra. Chorou, chorou e quando esta se deu conta que o incêndio estava acabando e o que é pior, que FOGARÉU estava desaparecendo, caiu profundamente em um pranto incontrolável, chorando até a última de sua gota. Passado o tormento, os animais que haviam se escondido, voltaram para o centro da Floresta, o palco do espetáculo. Só que dessa vez, as estrelas do show não se encontravam mais lá. Fogaréu acabara de ser morto por Chuvinha e ela, também morrera porque não resistiu a dor de ter assim matado seu grande amor e chorou até secar todas suas águas. Mas, de repente, o rei Leão pede silêncio a todos e lá no céu, com a fumaça que subira dos restos queimados por Fogaréu e apagados por chuvinha, todos os bichos avistaram uma mensagem que se formou e dizia assim:

 - MESMO QUE NÓS NÃO ESTEJAMOS MAIS JUNTOS AQUI, MESMO QUE NOSSAS VIDAS JÁ NÃO SEJAM MAIS VIVIDAS POR NÓS, ESTAMOS JUNTOS NA ETERNIDADE DE NOSSAS ALMAS, PORQUE PODEM CALAR NOSSAS VOZES, MAS, NUNCA PODERÃO SILENCIAR NOSSO GRITO DE AMOR.

 Contribuição de Rinaldo Cláudio Guimarães Integrante do Grupo "Encantadores de Histórias".

terça-feira, 1 de março de 2022

Águas de Março


É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o Sol
É a noite, é a morte, é o laço, é o anzol
É peroba do campo, é o nó da madeira
Caingá, candeia, é o Matita Pereira
É madeira de vento, tombo da ribanceira
É o mistério profundo, é o queira ou não queira

 

É o vento ventando, é o fim da ladeira
É a viga, é o vão, festa da cumeeira
É a chuva chovendo, é conversa ribeira
Das águas de março, é o fim da canseira
É o pé, é o chão, é a marcha estradeira
Passarinho na mão, pedra de atiradeira
É uma ave no céu, é uma ave no chão
É um regato, é uma fonte, é um pedaço de pão

 

É o fundo do poço, é o fim do caminho
No rosto, o desgosto, é um pouco sozinho
É um estrepe, é um prego, é uma ponta, é um ponto
É um pingo pingando, é uma conta, é um conto
É um peixe, é um gesto, é uma prata brilhando
É a luz da manhã, é o tijolo chegando
É a lenha, é o dia, é o fim da picada
É a garrafa de cana, o estilhaço na estrada

 

É o projeto da casa, é o corpo na cama
É o carro enguiçado, é a lama, é a lama
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um resto de mato, na luz da manhã
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração

 

É uma cobra, é um pau, é João, é José
É um espinho na mão, é um corte no pé
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração

 

É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um belo horizonte, é uma febre terçã
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração

 

Au, edra, im, minho
Esto, oco, ouco, inho
Aco, idro, ida, ol, oite, orte, aço, zol
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração


domingo, 27 de fevereiro de 2022

“Os duendes” (Irmãos Grimm)


 


Um sapateiro tinha ficado muito pobre, sem que lhe coubesse a culpa. E, por fim, só lhe restava um pedaço de couro, para um único par de sapatos. Cortou-o à  noite, a fim de aprontá-lo na manhã seguinte e, como tinha a consciência tranquila,  deitou-se calmamente, fez as suas orações e adormeceu. No outro dia, depois da prece  matinal, quando ia sentar-se para iniciar o trabalho, viu os sapatos, prontinhos, em  cima da mesa. Ficou assombrado, sem encontrar explicação para aquilo. Tomou-os nas mãos e examinou-os cuidadosamente. Haviam sido feitos com tal capricho, sem  nenhum ponto errado, que pareciam uma verdadeira obra de arte.

Logo depois entrou um freguês e, como os sapatos lhe agradassem muito,  pagou mais por eles. Com esse dinheiro, o sapateiro pode comprar couro para dois  pares. Cortou-os à noite, disposto a trabalhar neles no dia seguinte. Mas não foi  preciso: ao levantar-se, lá estavam eles, prontinhos da silva. E também não faltaram os  compradores, que lhe deram dinheiro suficiente para que adquirisse couro para quatro  pares. Também a esses ele encontrou terminados no outro dia.

E assim continuou acontecendo. O calçado que cortava à noite, encontrava concluído na manhã seguinte.

Começou a ter boa renda e, por fim, tornou-se um homem rico.

Certa noite, pouco antes do Natal, o sapateiro, que já havia cortado o couro  para o próximo dia, antes de deitar-se, disse à mulher:

 - Que tal se esta noite ficássemos acordados para ver quem nos presta tão  grande auxílio?

A mulher concordou e foi acender uma vela. Depois o casal escondeu-se num  canto da sala, atrás de umas roupas ali penduradas.

Ao soar a meia-noite, apareceram dois ágeis e graciosos homenzinhos, muito   pequeninos e sem roupa alguma, que se sentaram à mesa do sapateiro. Apanharam  todo o couro cortado e, com seus dedinhos, se puseram a costurar, bater e puxar o fio  com tanta ligeireza que o sapateiro, assombrado, mal podia acreditar nos seus olhos.

Não cessaram até que tudo estivesse pronto e depois desapareceram rapidamente

No dia seguinte, a mulher disse:

 - Os anõezinhos nos tornaram ricos e devemos mostrar-lhes a nossa gratidão.  Com certeza sentem muito frio, andando assim nuzinhos, sem nada em cima do corpo.  Sabes de uma coisa? Farei para cada um deles uma camisinha, um casaco, colete e calça, e um par de meias de tricô. Tu poderás fazer-lhes uns sapatos.

Ao que lhe respondeu o homem:

 - Parece-me boa ideia!

E, à noite, em vez de couro cortado, puseram os presentes sobre a mesa  depois esconderam-se para ver o que fariam os homenzinhos.

À meia-noite chegaram eles, saltitando, e logo se dispuseram a começar o  trabalho. Quando, porém, em vez de couro cortado, encontraram as graciosas peças  de roupa, ficaram no princípio admirados, mas logo mostraram imensa alegria.

Vestiram-se com incrível rapidez e, alisando as roupas no corpo, puseram-se a cantar:

“Não somos rapazes bonitos e elegantes?

Por que continuarmos sapateiros como antes?”

Depois saltaram e dançaram, brincando em cima de cadeiras e bancos. Por fim, saíram dançando porta fora. Desse dia em diante, nunca mais apareceram. Mas o  sapateiro viveu bem pelo resto de sua vida e sempre teve sorte em todos os negócios  que fez.


sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

Cuca

 



Vai-te, coca, sai daqui
Para cima do telhado
Deixa o menino
Dormir sossegado

Nana, neném
Que a cuca vem pegar
Papai tá na roça
Mamãe foi cozinhar

A cuca é um papão, um ente fantástico que mete medo às crianças causando pavor. Sua aparência varia de lugar para lugar, mas a maioria das pessoas diz que ela tem a forma de uma velha, bem velha e enrugada, corcunda,  cabeleira branca, toda desgrenhada, com aspecto assustador. Ela só aparece à noite, sempre procurando por aquelas crianças que fazem pirraça e não querem ir dormir cedo. Então, a cuca as coloca num saco, levando-as embora para não se sabe onde e faz com elas não se sabe bem o que, mas, com toda certeza, trata-se de algo muito terrível.

Ela também é chamada de coca ou coco e assombra crianças de Portugal, Espanha, alguns países africanos e tribos indígenas brasileiras. Em alguns lugares ela é um velho, em outros, se parece com um jacaré ou uma coruja.

Existem muitas canções e versos sobre a cuca. Luís da Câmara Cascudo, em Geografia dos mitos do Brasil, indica a seguinte cantiga, comum no Nordeste brasileira:

Dorme, neném
Se não a cuca vem
Papai foi pra roça
Mamãe logo vem

 

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

ERA UMA VEZ O ESPANTALHO

 


Não era muito bonito, pois, como todos os espantalhos, foi feito para espantar pássaros e outros bichos que aparecem nas roças de milho, trigo e outras plantações… Mas esse Espantalho especial era muito especial mesmo.

Ele não queria assustar ninguém. Ele queria mesmo é fazer amigos. Muitos amigos.
Então tentou colocar um sorriso estampado na cara, para se mostrar amigável, mas os pássaros, muito ariscos, não acreditaram e nem se aproximaram, mas o nosso Espantalho especial não desistiu, e continuou com o sorriso.

Muito tempo se passou e certo dia, algumas borboletas batiam as asas por aquele milharal, quando perceberam o sorriso estampado na cara.
Ficaram muito curiosas.

Imaginem só!

Onde já se viu um Espantalho com tamanho sorriso estampado na cara?
Aproximaram-se, o Espantalho abriu ainda mais o sorrisão e elas quiseram saber o porquê de tal sorriso e o Espantalho respondeu: - Ah! É que eu quero muito, muito mesmo, ter um montão de amigos, mas todo mundo se assusta quando me vê!
- Mas com esse sorrisão todo… Tenho certeza que logo, logo vai estar cercado por um montão de amigos.

Não deu outra. Nosso Espantalho continuou com aquele sorriso estampado na cara e logo estava mesmo por um montão de amigos. O Espantalho ficou muito feliz.
Quem não ficou nada feliz foi o dono do milharal.

Ah! Ele ficou muito zangado quando viu aquele bando de pássaros, toupeiras e outros bichos, brincando e devorando seus milhos.

De tão zangado, arrancou o Espantalho do pau onde ficava preso e o deixou caído no meio da plantação. Logo veio uma chuva forte e os bichos correram para se abrigar, mas o pobre Espantalho não podia correr, não podia se voar e nem mesmo se arrastar. Foi aí que todos os bichos se juntaram e foram buscar o novo amigo para se abrigar com eles e desde então, nunca se sabe onde o nosso Espantalho pode estar, pois os bichos gostaram tanto dele e ele dos bichos, que agora ele vive assim…


Hora voando com os pássaros, hora debaixo da terra com as toupeiras e onde mais seus amigos bichos puderem leva-lo, transformando-o no Espantalho mais alegre, e sorridente, de todo o mundo.

MARIA HELENA CRUZ

terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

O Tesouro de Bresa

 



                       (com base nas pp. 43/49 do livro Os Melhores Contos, de Malba Tahan)

 

Houve outrora, na Babilônia, um pobre e modesto alfaiate chamado Enedim, homem inteligente e trabalhador, que não perdia a esperança de vir a ser riquíssimo.

 

Como e onde, no entanto, encontrar um tesouro fabuloso e tornar-se, assim, rico e poderoso?

Um dia, parou na porta de sua humilde casa, um velho mercador da fenícia, que vendia uma infinidade de objetos extravagantes.

 

Por curiosidade, Enedim começou a examinar as bugigangas oferecidas, quando descobriu, entre elas, uma espécie de livro de muitas folhas, onde se viam caracteres estranhos e desconhecidos.

 

Era uma preciosidade aquele livro, afirmava o mercador, e custava apenas três dinares.

 

Era muito dinheiro para o pobre alfaiate, razão pela qual o mercador concordou em vender- lhe o livro por apenas dois dinares.

 

Logo que ficou sozinho, Enedim tratou de examinar, sem demora, o bem que havia adquirido.

 

Qual não foi sua surpresa quando conseguiu decifrar, na primeira página, a seguinte legenda: "o segredo do tesouro de Bresa."

 

Que tesouro seria esse

 

Enedim recordava vagamente de já ter ouvido qualquer referência a ele, mas não se lembrava onde, nem quando.

 

Mais adiante decifrou: "o tesouro de Bresa, enterrado pelo gênio do

mesmo nome entre as montanhas do Harbatol, foi ali esquecido, e ali se acha ainda, até que algum homem esforçado venha encontrá-lo."

 

Muito interessado, o esforçado tecelão dispôs-se a decifrar todas as páginas daquele livro, para apoderar-se de tão fabuloso tesouro.

 

Mas, as primeiras páginas eram escritas em caracteres de vários povos, o que fez com que Enedim estudasse os hieróglifos egípcios, a língua dos gregos, os dialetos persas e o idioma dos judeus.

 

Em função disso, ao final de três anos Enedim deixava a profissão de alfaiate e passava a ser o intérprete do rei, pois não havia na região ninguém que soubesse tantos idiomas estrangeiros.

 

Passou a ganhar muito mais e a viver em uma confortável casa.

 

Continuando a ler o livro encontrou várias páginas cheias de cálculos, números e figuras.

 

Para entender o que lia, estudou matemática com os calculistas da cidade e, em pouco tempo, tornou-se grande conhecedor das transformações aritméticas.

 

Graças aos novos conhecimentos, calculou, desenhou e construiu uma grande ponte sobre o rio Eufrates, o que fez com que o rei o nomeasse prefeito.

 

Ainda por força da leitura do livro, Enedim estudou profundamente as leis e princípios religiosos de seu país, sendo nomeado primeiro-ministro daquele reino, em decorrência de seu vasto conhecimento.

 

Passou a viver em suntuoso palácio e recebia visitas dos príncipes mais ricos e poderosos do mundo.

 

Graças a seu trabalho e ao seu conhecimento, o reino progrediu rapidamente, trazendo riquezas e alegria para todo seu povo.

 

No entanto, ainda não conhecia o segredo de Bresa, apesar de ter lido e relido todas as páginas do livro.

 

Certa vez, teve a oportunidade de questionar um venerando sacerdote a respeito daquele mistério, que sorrindo esclareceu:

 

"O tesouro de Bresa já está em seu poder, pois graças ao livro você adquiriu grande saber, que lhe proporcionou os invejáveis bens que possui. Afinal, Bresa significa saber e Harbatol quer dizer trabalho."

 

Com estudo e trabalho pode o homem conquistar tesouros inimagináveis.

 

O tesouro de Bresa é o saber, que qualquer homem esforçado pode alcançar, por meio dos bons livros, que possibilitam "tesouros encantados" àqueles que se dedicam aos estudos com amor e tenacidade.

domingo, 20 de fevereiro de 2022

Jonas e a baleia

 


Uma menina estava conversando com a sua professora. 

A professora disse que era fisicamente impossível que uma baleia engula um ser humano porque apesar de ser um mamífero muito grande, a sua garganta é muito pequena. 

A menina afirmou que Jonas foi engolido por uma baleia.

 Irritada, a professora repetiu que uma baleia não poderia engolir nenhum ser humano; era fisicamente impossível. 

A menina, então disse: - 'Quando eu morrer e for ao céu, vou perguntar a Jonas'. 

A professora lhe perguntou:- 'E o que vai acontecer se Jonas tiver ido ao inferno? 

'A menina respondeu: - 'Aí a senhora pergunta.'


Revista 'Pais e Filhos',  Pedro Bloch

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

Caveira

 


Ary Lobo

 

Caveira quem te matou

Olha foi a língua meu senhor

 

Eu bem que te dizia

Que deixasse a vida alheia

Que a justiça divina vê tudo e não se encandeia

Quem faz mal ao seu vizinho

Seu mal já vem no caminho

 

Você hoje esta penando

Por ser falso e ser ruim

Quando eu te avisava você se virava contra mim

Eu bem que te dizia

Inveja matou Caim

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

A fábula do tigre

 

                           


                  Relatada por Zimmer em Filosofias da Índia, a partir de The Gospel of Sri Ramakrishna

Um filhote de tigre fora criado entre cabras. Prenhe e balofa, sua mãe passara vários dias à procura de uma presa sem nada conseguir, até que deparou com um rebanho de cabras  selvagens. Estava faminta, o que explica a violência de sua investida. O esforço do ataque precipitou o parto e ela acabou morrendo de esgotamento. As cabras, que haviam se dispersado, retornaram ao lugar e lá encontraram um filhote de tigre choramingando ao lado de sua mãe. Levadas pela compaixão maternal adotaram a débil criatura; amamentaram-na junto com suas próprias crias e dela cuidaram ternamente. O animal cresceu e sobreveio a recompensa pelos cuidados dispensados, pois o pequeno companheiro aprendeu a linguagem das cabras, adaptou sua voz àquele som suave e mostrou tanto afeto quanto qualquer cabrito. A princípio teve alguma dificuldade para mastigar com seus dentes pontiagudos as tenras folhas do pasto, mas logo se acostumou. A dieta vegetariana o mantinha enfraquecido, conferindo ao seu temperamento uma notável doçura.

Certa noite - quando o órfão, crescido entre as cabras, já havia alcançado a idade da razão - o rebanho foi atacado, desta vez por um velho e feroz tigre. As cabras se dispersaram, porém o jovem permaneceu onde estava, sem medo ainda que surpreso. Achando-se face a face com a terrível criatura da selva, fitou-o estupefato. Passado o primeiro impacto, começa a tomar consciência de si. Desamparado, berra, arranca folhas de pasto e se põe a mastigar, ante o olhar perplexo do outro.

De repente, o poderoso intruso pergunta:
_ Que fazes aqui entre as cabras?! Que estás mastigando?!
A resposta foi um berro. O outro, indignado, disse num rugido:
_ Por que emites este som estúpido?!
E antes que o pequeno pudesse responder, apanhou-o pelo cangote e o sacudiu como se quisesse fazê-lo recobrar a lucidez. O tigre da selva carregou o assustado animal até um lago próximo, soltando-o na margem e obrigando-o a olhar para a superfície espelhada da água, então iluminada pela lua.
_ Vê estas duas imagens! Não são semelhantes? Tens a cara típica de um tigre, é como a minha. Por que te iludes pensando seres um cabrito? Por que berras? Por que mastigas pasto?!

O tigrezinho, incapaz de responder, continuava a olhar espantado comparando as duas imagens refletidas. Inquieto, apoiu-se numa e logo noutra pata, e lançou um grito de aflitiva incerteza. A velha fera novamente o carregou porém agora até seu covil, onde lhe ofereceu um pedaço de carne crua e sangrenta, sobra de uma refeição anterior. Ante a inusitada visão, o jovem tremeu de repugnância mas o velho, ignorando o fraco gesto de protesto, ordenou rudemente:
_ Come! Engole!

O outro resistiu, porém a horripilante carne foi forçada a passar entre seus dentes; o tigre vigiava atentamente seu aprendiz que tentava mastigar e preparava-se para engolir. Sua não-familiaridade com a consistência da carne causava-lhe certa dificuldade, e estava prestes a emitir outro débil berro quando começou a experimentar o gosto do sangue. Excitado, devorou o restante com avidez, sentindo um prazer incomum à medida que o novo alimento descia-lhe pela garganta e atingia o estômago. Uma força estranha e quente irradiava de suas entranhas trazendo-lhe uma sensação eufórica e embriagadora. Estalou a língua, lambeu o focinho satisfeito e, erguendo-se, deu um largo bocejo como se estivesse despertando de uma longa noite de sono - uma noite que o manteve sob feitiço por anos e anos. Espreguiçando-se, arqueou as costas, estendeu e abriu as garras. Sua cauda fustigava o solo e, de súbito, irrompeu de sua garganta o triunfal e aterrorizante rugido de um tigre.

O inflexível mestre, que estivera observando de perto, sentia-se recompensado. A transformação, de fato, acontecera. Ao cessar o rugido, perguntou severamente:
_ Agora sabes quem realmente és?
E para completar a iniciação de seu jovem discípulo no saber secreto de sua própria e verdadeira natureza, acrescentou:
_ Vem! Vamos caçar juntos pela selva.

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quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

O REI QUE ERA DONO DO MUNDO

 



 
Alberto Filho 

 Era uma vez um Rei muito rico. Ele era tão rico que suas riquezas eram impossíveis de contar. Mesmo assim ele não estava satisfeito, e queria sempre mais e mais. Por isso ele não se importava com nenhuma outra coisa.

Um dia, ele subiu na mais alta torre do seu castelo, olhou para suas terras sem fim, e disse:

- Tenho muito pouco, preciso conseguir mais. Na verdade acho que preciso de todas as terras e riquezas do Mundo.

Então ele convocou seus exércitos que eram muitos, e lhes ordenou que conquistassem todas as Nações do Mundo, e lhe trouxesse todas as Riquezas existentes.

Assim seu exército partiu para cumprir sua missão. Depois de feito isso, ele disse:

- Agora sim, tenho tudo no Mundo. Na verdade eu tenho o próprio Mundo e também todas as suas riquezas. Nada mais me falta, não preciso de mais nada! E ele se cobriu com seus tesouros. Estava tão contente que dormiu ali mesmo. Então um dia ele viu que não estava mais contente e pensou:

- Eu já tenho todas as riquezas e terras do Mundo, todas as pessoas são meus servos, e ainda assim sinto que me falta mais alguma coisa! Assim ele mandou chamar seus sábios para que descobrissem o que ainda lhe faltava. E eles disseram:

- A coisa mais importante do Mundo é a mais difícil de se conseguir. Não pode ser conseguida com Dinheiro ou Poder. Na verdade o Senhor já possui essa coisa, e Ela lhe foi dada de graça. Mesmo assim ela não pode ser vista ou tocada, e só pode ser vista quando a pessoa perde.

Depois de ouvir isso, o Rei ficou pensativo e sem entender o que os Sábios queriam dizer com aquilo, afirmou:

- É claro que esta Coisa não existe. Qualquer coisa que eu conheço pode ser comprada com meu Dinheiro ou Conquistada por meus Exércitos. Apesar de ganancioso, o Rei era um bom governante para o seu Povo.

Assim, cismado com as palavras dos Sábios, resolveu por um tempo, desistir de querer saber o que faltava conquistar.

Então um dia o Rei amanheceu com febre. Estava doente. Assim, ele mandou chamar os melhores Médicos e Magos do Mundo para cuidar de sua doença. Mas o tempo passava e Ele não melhorava. Então mandou chamar os Sábios para ouvir seus conselhos. E os Sábios disseram:

- Isto Majestade, era a coisa da qual lhe falamos naquele dia. Nós a temos desde o nascimento, e não pode ser vista até o momento que deixa de existir. Essa coisa é nossa SAÚDE. Poucos lhe dão importância, mas, é a coisa mais importante do Mundo, e é IMPOSSÍVEL de se comprar.

Então o Rei compreendeu tudo, e disse:

- Eu com todo o Poder e Riquezas do Mundo não fui capaz de conseguir algo tão simples, que era minha Saúde. Eu fui um TOLO. De que adiantou tanto poder e riquezas se não fui capaz de conquistar algo que me foi dado de Graça.

E o Rei finalmente ficou curado. Então ele disse:

- Agora sei o que é ficar doente. De hoje em diante, meu povo terá os melhores Hospitais, e médicos, e Escolas. Minhas terras e riquezas serão de todos. E ele foi contar a boa nova ao seu Povo. Então ele subiu na torre mais alta do seu Castelo e olhando de cima pensou:

- Como é bonito a paisagem daqui de cima. Eu já subi muitas vezes aqui e nunca tinha visto que era assim. E pensar que esta beleza sempre existiu. O olhar de felicidade vê coisas maravilhosas. Ter saúde é de fato uma benção.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

A ESFINGE

 


A esfinge é uma figura da mitologia egípcia simbolizada por um monstro com cabeça humana e corpo de leão, com asas de pássaro ou cauda de serpente. Dentre todas as estátuas de esfinges do Egito, a mais famosa é a grande esfinge de Giza (ou Gizé), esculpida em rocha natural, e que servia de guardiã da tumba do faraó Quéfren. Para proteger a pirâmide dos demônios, o faraó mandou construir uma grande esfinge, representando o deus do Sol, levante, Harmáquis, que segundo a tradição, tinha forma de leão com a cabeça humana. A grande esfinge de Giza data de aproximadamente 2.300 a.C e possui 60 metros de comprimento por 20 de altura. Entre suas patas dianteiras se localiza um pequeno templo.

Do Egito, a esfinge passou à mitologia grega. Era também uma figura monstruosa, um leão de asas com cabeça de mulher, que vivia num rochedo perto de Tebas. 

Segundo conta a lenda, a deusa Juno, indignada com Tebas, porque a jovem tebana Alcmena aceitara os galanteios de Júpiter, mandou o monstro para cima do monte Citeron. A todos que passavam por ali a esfinge propunha um enigma, ameaçando: "Decifra-me ou devoro-te". 

O enigma consistia em responder qual era o animal que tinha quatro pés pela manhã, dois ao meio-dia e três à tarde. A resposta parece difícil, mas fica evidente em seu sentido figurado. A resposta correta é o homem: pela manhã, ou quando bebê, ele engatinha; ao meio-dia, já crescido, ele caminha ereto; e à tarde, quando velho, anda cansado apoiado a uma bengala. 

A lenda ainda conta que apenas Édipo conseguiu acertar a resposta, e a esfinge, de tanta raiva, saltou do rochedo e morreu.